CRENTES
Sempre me admirei com os crentes. Não falo exclusivamente daqueles sujeitos que se reúnem numa igreja aqui em frente de casa, jungidos pela crença de que o Senhor é surdo e não usa aparelho auditivo Telex, mas sim da credulidade num sentido mais amplo, seja em política, religião, futebol ou na certeza de que o armário está vazio e que o motivo por que um sapato dois números acima do seu está ao lado da cama se relaciona com o Efeito Estufa e sua influência sobre o tamanho dos pés no Hemisfério Sul.
Sim, já tive religião, time de futebol, partido político e chifres. Porém, desde quando me entendo por gente (“gente” usado aqui também num sentido mais amplo e englobando alguns quadrúpedes de médio porte), jamais me entreguei inteiramente a uma paixão ou, se o fiz, foi para largá-la dali a um tempo, substituindo-a por algo mais racional, como o fumo e o alcoolismo.
O que me espanta, sobretudo, no partisan é sua incapacidade de enxergar nuances ou o próprio umbigo. (Quanto a este último ponto, está claro que não me refiro à dificuldade de deslindar o umbigo pelo desenvolvimento de uma barriga eutrapélica que impede sua visão, bem como — e cito por experiência — de outras partes mais óbvias e pendentes do corpo localizadas abaixo da cintura.)
Afinal, parto sempre do pressuposto de que se um juízo me entusiasma demasiado ou é partilhado por um número grande de pessoas, tem alguma coisa errada com ele. Isso serve para Deus (mas não para o diabo, em que creio piamente e acho até que é empresário do setor de call center), para o comunismo, para o capitalismo ou para as fraldas descartáveis Pom Pom, que larguei aos quatro anos, ao sentir, através de manifestações químicas bastante convincentes, que não eram tão boas quanto o divulgado, atirando uma delas heroicamente no corredor da escola e constatando:
— Isso é uma merda.
Lembro, por exemplo, de um Marx em Quadrinhos que li quando tinha uns sete ou oito anos e de minha reação diante das caricaturas dos capitalistas de dentes acuminados, capas de vampiros, reunidos em torno de uma mesa, contando uma pilha de dinheiro.
— Os filisteus não podem ser todos tão ruins e avaros — pensei à época. — Se é para mandá-los para o paredão, que seja por suas péssimas noções de estética.
Tirando o fato irrecorrível de serem os economistas insuportáveis, não acredito monoliticamente em nenhuma linha de pensamento, desconfiando sempre das menores verdades cotidianas, o que tem me metido em algumas pequenas embrulhadas — caso de quando me recusei a crer que devia aquela quantia de dinheiro à Receita ou que há uma instituição chamada SPC.
Custa a mim entender que um indivíduo não consiga rir de si mesmo. Diante desse tipo de gente, tenho a impressão de estar vendo um hipopótamo de terno, óculos e pasta 007. Então, boquiaberto, me pego freqüentemente articulando uma frase. E é com ela que encerro esta crônica: “Esqueçam o raciocínio lógico e a bipedia. O homem se distingue, na realidade, por ser o único animal inferior que se leva a sério”.
(Aviso aos desinformados: o livro “O Cabotino”, de Paulo Polzonoff Jr., o popular Cotoco, está disponível para download aqui. Apesar de o autor não ser figura das mais agradáveis, o livro merece ser lido. A cortesia é de outro sujeito intragável: Branco Leone. Aviso aos mais desinformados ainda: continuo no Recife. A praia está péssima e os camarões insuportáveis. Na segunda, o blog volta ao ritmo diário.)









