Palindromo

- A culpa é sua. Você leva tudo ao pé da letra, Olegário.
- Letra não tem pé, Ana Lana.
- Viu? É isso o que eu tô dizendo.
- Não, você tá dizendo que letra tem pé. Eu é que…
- O que quero dizer é que você leva tudo no denotativo, Olegário.
- Epa! Aí, não, hein! Denotativo em que mamãe passou talquinho…
- Presta atenção, Olegário, pelo menos uma vez na vida. Você tem que entender uma coisa simples. Muitas vezes as palavras têm duplo sentido, compreende?
- Palíndromo.
- O quê?
- Quando a gente pode ler uma palavra ou uma expressão nos dois sentidos: da direita pra esquerda ou da esquerda pra direita. Por exemplo…
- Olegário!
- Não, Olegário não é um palíndromo, Ana Lana.
- Não, animal!
- Lâmina.
- Como é que é?
- Lâmina, animal. Um palíndromo perfeito.
- Olegário! Não é disso que eu to falando! Vê se entende. As coisas, Olegário, elas têm sentido figurado e não apenas o lato, percebe?
- Obecrepeuqoralc!… Digo, claro que percebo!
- Ah, é? E por que agora há pouco, quando a Carla Regina, cansada de ouvir tuas brincadeirinhas sem graça, te pediu um tempo, tu imediatamente, muito sério, ligou o cronômetro do relógio, Olegário?
- Como é que eu ia saber? Ela não se explica! Você sabe perfeitamente que eu não domino essas expressões novas.
- Nova, Olegário? Essa expressão é mais velha que o Cid Moreira!
- Mentira. É uma expressão, no máximo, do século XX. E o Cid Moreira…
- Eu tô usando uma hipérbole, Olegário! Hipérbole! É lógico que a expressão não é mais velha que o Cid Moreira. Nada é mais velho que o Cid Moreira, Olegário. Deus, talvez. Agora, o fato é que, em função da sua cretinice, a Carla Regina perdeu definitivamente a paciência. E achei muito bem-feito que ela tenha te dado aquele tapão no rosto!
- Com hipérbole ou no sentido figurado?
- No sentido lato mesmo, Olegário! Achei ótimo. Só assim tu aprende. Como é que pode, Jesus, a pessoa ter nascido tão sem noção?
- Deus me livre. Isso é até pecado, Ana Lena.
- Como?
- Eu disse que é até pecado isso de falar que Jesus nasceu sem noção.
- Jesu… não… Ah, deixa pra lá, Olegário. Vamo embora da festa que é o melhor que a gente faz. Chega de vexame por hoje. Vem. Vamo esticar as pernas.
- Tudo bem.
- Olegário! O que é isso?! Levanta desse chão, Olegário! Não basta o que você já fez? Quer me matar de vergonha fazendo alongamento no meio da sala?!
- Ué, não foi você que di…
- Vem! Agora! Vamo! Em casa a gente discute. E de fininho, por favor, que eu não quero me despedir de ninguém. É incrível. Contando, ninguém acredita. O homem parece que vive no mundo da lua. Podia dar aula disso!… E então, não vai dizer nada?

- Aula da lua… Belo palíndromo!