Justiça demais

Já tinha visto esta campanha anarquizante no bairro Cavalhada, aqui em Porto Alegre; agora Tiago Casagrande nos traz um flagrante captado por suas lentes implacáveis na esquina da Independência com a João Telles e que copiamos aqui.

Chega De Justica Foto Do Tiago Casagrande

O Gilmar Mendes conseguiu. E agora uma charge tudo a ver roubada dos Fenômenos:

Dr Pepper Fenomenos

Não é o máximo?

Noites Florentinas, de Heinrich Heine

Noites Florentinas HeineNoites Florentinas, de Heinrich Heine (1797-1856), é um livro surpreendente. Publicação póstuma, é de notável comtemporaneidade, antecipando procedimentos que teríamos de volta somente 70 anos depois, com Isak Dinesen. Refiro-me especificamente à intromissão a todo momento de uma poesia muito pouco comedida, às histórias que surgem dentro das histórias, à simbologia e à aparente livre associação dos fatos. Quanto às duas últimas, talvez seja melhor acolher um conselho da própria Dinesen e aceitar que, numa história, não é adequado compreender tudo.

Achei que o livro estivesse mais para o cômico, pois o excelente tradutor Marcelo Backes salienta bastante este aspecto na introdução. Na verdade, as Noites Florentinas devem ter sido um divertissement para Heine e são lúdicas, muito lúdicas para o leitor de hoje. Por exemplo, é muito prazerosa a troca de papéis que Heine faz em relação ao modelo das 1001 Noites. Se nas 1001 Noites, Sherazade - uma mulher - contava histórias e mais histórias a fim de não morrer, nas NF Maximilian - um homem -, faz o mesmo para que Maria sobreviva. Sei lá se o Rei das 1001 Noites dormiu durante alguma história; mas posso dizer que fiquei quase escandalizado ao descobrir que, ao final da primeira noite, Maria dormia. Eu estava acordadíssimo. Outra surpresa é o clima erótico sugerido por Heine. Além da história se passar ao pé do leito, o escritor eleva a temperatura diversas vezes. Relembremos a passagem na qual os amigos “…olharam-se em silêncio por longo tempo. Em ambas as almas surgiam pensamentos que cada qual tratava de dissimular ao outro. Mas a mulher segurou de súbito a mão do homem e a cobriu de beijos ardentes”, seguido pelo toque dos lábios de Max nos pés de Maria, e ainda pelo “Sorrindo cheio de afeto ao olhar afirmativo de Maria…”. Se tais trechos não servem àquilo a que a Playboy se propõe, pelo menos faz sonhar. Alguns capítulos depois, a história de Mademoiselle Laurence também vai fundo neste sentido, apesar do onírico da situação.

O trabalho do tradutor Backes é impecável. O desafio de traduzir uma obra do século XIX, tendo que dar ao texto uma feição antiga, foi cumprido com naturalidade. Usando uma expressão da música erudita, diria que ele possui perfeito senso de estilo. Para comprovar, basta ver a diferença entre o Backes da introdução e o Heine-Backes do texto de Noites Florentinas. A edição é da gaúcha Mercado Aberto. Vale a pena ler!

O Medo do (ou da) Número 9

Seventh Ingmar BergmanMozart escreveu 41 sinfonias; Haydn, 104; Brahms escreveu apenas 4 e Shostakovitch pretendia produzir 24, mas ficou em 15. Porém, seis dos maiores sinfonistas de toda a história da música compuseram 9 e logo morreram, forjando o mito de que a nona, ou a décima, é fatal. Vejam a lista abaixo e surpreendam-se com seu calibre. É como se a morte sempre entrasse em campo quando o imortal pretendesse chegar ao número dez. Aviso: não sou numerologista e não dou a menor importância a este tipo de - creio! - crendices.

Seventh 1Ludwig van Beethoven (1770-1827) está em qualquer seleção de maiores sinfonistas. Se alguém o deixar de fora, merecerá internação. Beethoven fez da 9ª Sinfonia seu testamento musical. Com problemas de saúde cada vez mais notórios, o compositor teve tempo de preparar sua despedida com a maior de suas sinfonias. Ele inaugura nosso sortilégio e, se o leitor não tiver muita intimidade com o mestre, dê preferência à audição das sinfonias Nº 3, 5, 7, 8 e 9. Claro que ele não caiu morto fulminado por um raio logo após fechar o manuscrito da Nona, ele ainda escreveu suas maiores obras, os últimos Quartetos de Cordas. Mas a décima ficou em menos do que um rascunho.

Seventh 23Franz Schubert (1797-1828) morreu um ano depois, logo após escrever a sua nona. A curiosiodade é que sua oitava sinfonia é conhecida como a Inacabada. E estamos certos em chamá-la assim, pois Schubert abandonou-a ao compor os temas que utilizaria na última. A Sinfonia Nº 9 também é conhecida, com total merecimento, por “A Grande”. Também vale a pena ouvir, além das citadas Nº 8 e 9, a 4 e a 5. Todos pensam que Schubert morreu de sífilis. Nada disso. Morreu de tifo, após ingerir um vulgar peixe contaminado. Ou seja, uma droga de um peixe podre ceifou Schubert durante seus anos mais produtivos. Espero que, se o inferno existir, este peixe esteja lá queimando. Até agora. Desgraçado!

Seventh 6Anton Bruckner (1824-1896) é outro dos grandes sinfonistas indiscutíveis. Ele praticamente só se dedicou a este gênero. Além delas, compôs apenas 3 Missas, 1 Te Deum e pouquíssimas obras de câmara. Seus contemporâneos o consideravam quase como uma criança idiota e a opinião a este respeito é tão unânime que deve ser verdade. Porém, se você continuar a chamá-lo de burro após ouvi-lo, ficarei desconfiado. Sim, de você. Deve tratar-se do idiota mais profundo que se tem notícia, o que prova que a inteligência musical sobrevive mesmo em um cérebro limitadíssimo. Há duas curiosidades a seu respeito. A primeira é que Bruckner, já agonizando, quis que seu Te Deum fosse acrescentado como último movimento de sua 9ª. Não foi atendido; era um evidente absurdo. A segunda é que ele possui uma sinfonia Nº 0 e outra 00. É que após a publicação das primeiras sinfonias, apareceram aquelas que o compositor tinha escondido por vergonha. São excelentes e para não demonstrar uma possível involução em seu estilo, denominou-as Zero e Zero-Zero. Mas, apesar de todos esses zeros, não sobreviveu à décima. Indico fortemente as sinfonias Nº4 (Romântica), 5 (que nos possui um adágio estarrecedor de tão belo), 7 e 9 (ambas espantosas).

Seventh 8Gustav Mahler (1860-1911) é o caso mais explicíto de medo à 9ª. Contrariamente a Bruckner, era um intelectual e regente respeitadíssimo na Viena da virada do século. Mahler tinha grande temor de escrever sua nona sinfonia e dizia isto a todos. Sabia que a décima o mataria. Quando compôs a oitava (Sinfonia dos Mil), resolveu fazer uma pausa e atacou “A Canção da Terra” (Das Lied von der Erde), que talvez seja sua maior obra, mas que, cá para nós, é uma sinfonia camuflada de ciclo de canções. Com isto, pensou ter enganado o capeta. Só então escreveu sua nona e, por uma distração do diabo, conseguiu até escrever o primeiro movimento da décima mas…. morreu sem compor os outros movimentos. Outros caras a completaram. Estes deviam morrer. As melhores são as 1 a 4 e mais a 9ª e a 10ª.

Seventh 11Muito menor que os citados, há Antonín Dvorak (1841-1904). Ele compôs nove sinfonias ridículas e absolutamente iguais. Todas com quatro movimentos: o primeiro movimento possui 3 temas; o segundo movimento geralmente é um adagio; o terceiro movimento é uma dança ou fuga que copia Beethoven; o quarto movimento é livre, mas melhor seria se não existisse. Deveria ter morrido antes, mas ficou por aí até a terminar a nona. Deixou um número surpreendente de obras inacabadas. Sorte nossa. Assim, como Paulo Coelho, foi famoso e enriqueceu.

Seventh 3Louis (ou Ludwig) Spohr (1784-1859) escreveu nove sinfonias e deixou a décima pela metade. Achava mais seguro escrever concertos para violino, tanto que escreveu dezesseis. Há um — o oitavo — que é bastante revolucionário, escrito em apenas um movimento, para gáudio de Jasha Heifetz. Sua nona sinfonia é programática e tem um nome incrivelmente original: As Estações. Enquanto vocês decidem se ele plagiou Vivaldi ou Haydn, vou dizendo que Spohr foi um bom compositor, apesar de minhas ironias.

Por isto, aconselho a todos os candidatos a compositores eruditos que lêem este blog a evitar o gênero ou utilizar com parcimônia. Está provado: a décima pode matar.

Seventh Ingmar BergmanObs.: Fotos do filme O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman. Fiquei encantado ao notar que a Morte do filme de Bergman levava exatamente seis compositores…

A Maria Luiza e a anárquica Tina

Minha mãe completou 81 anos no dia 5 de julho. Seus 81 foram melhores que os 80 e os 79. Em seu último período no hospital, pensei (pensamos) muitas vezes que ela não voltaria mais para casa. Só que, após o isolamento em que ficou devido a uma infecção respiratória, os médicos puderam reavaliar a medicação que tomava e esta foi super-reduzida. E descobrimos que grande parte de sua prostração ocorria pelo excesso de remédios; ou seja, ela estava dopada.

Não culpo os médicos; afinal, em fevereiro de 2007, ela passou dois meses internada e, cada vez que os calmantes eram reduzidos, tornava-se agressiva e gritava a ponto dos outros pacientes ficarem irritados… Certamente os que a atenderam desta vez –- Dr. Sérgio Loss, Dr. Barbier e um certo Adriano que nunca vi -–, usaram de bom senso ao aproveitar este longo período de hospitalização para repensar todo o coquetel. O resultado é que ela está sorridente, calma e vígil, apesar da absoluta confusão mental. Aqueles que a viram com a cabeça caída sobre o peito e com o olhar vago, vão se surpreender com a nova primavera da Dra. Maria Luiza, a querida bobinha feliz que muitas vezes não me reconhece, apesar de sempre repetir que fico melhor de cabelo curto.

Ele retornou para minha casa no dia de seu aniversário. Pois, logo após a volta da Dra. Maria Luiza, recebi a notícia do falecimento da Tina Oiticica Harris, do blog Universo Anárquico, habitual comentarista deste blog e com quem tinha trocas de e-mails bastante agitadas e… anárquicas. Faria 56 anos no dia 9 e sempre convidava a mim e à Claudia para irmos aos EUA visitá-la e a sua família. Prometia deixar seus gatos num hotel para que não me incomodassem… Uma vez, ela se referiu ao fato de que as trocas de letras em seus textos eram devidas a uma hidrocefalia, mas o assunto parou por aí porque tínhamos piadas a inventar um para o outro. Não sei qual foi a causa da morte, ocorrida dia 7, dois dias antes de seu aniversário. A notícia veio através de um post escrito por seu marido. Ele, o americano Nicolas, tentava manter o bom humor enquanto nos narrava a notícia num português arrevesado. O texto começa assim:

Um aniversário bem anárquico, por Nicolas Rouquette

Não consegui dormir a três horas da manha hoje, o dia de o aniversário de 56 anos de mi Tinazinha gostozinha; Infelizmente, a grande Madame no besteirol esta indisponível para resolver para a gente nesse anacronismo bem anárquico do aniversário dela.

Que aconteceu?

E então narra os acontecimentos, finalizando assim:

Já tem com muito saudade de o único amante da minha vida. Agora entende melhor que a vida da Tina estava anárquica em muito aspetos. Si você tem uma historia que você pode escrever, me gostaria muito ler disso. Por favor, em memória dela, da uma consideração para escrever qualquer memórias gostosa da Tina como um “guest” nesse blogo.

Ora, Nicolas, todas as memórias que tenho da Tina são tão alegres, pontuadas de “blasfêmias” -– palavra que ela sempre usava para caracterizar a forma como eu me referia a quase tudo –- e de tudo que fosse politicamente incorreto que não saberia por onde começar. A Madame do Besteirol me chamava de o seu Bad Boy e a melhor lembrança dela foram os inúmeros comentários que aquele Curriculum Vitae recebeu. Nos e-mails, ela me contou que os traduzia para ti, Nicolas, e que vocês riam dos absurdos. Guardo uma bela lembrança dela.

Berkeley em Bellagio, de João Gilberto Noll

BerkeleyOs livros de Noll quase sempre tratam do mesmo personagem: o próprio Noll. As características biográficas, físicas, étnicas e profissionais do tal personagem coincidem inteiramente com as do autor. No começo do livro, é impossível não sermos tomados de simpatia pelo personagem quando o mesmo declara sua extrema pobreza - vive apenas de literatura e de pequenos trabalhos correlatos - e com todos os fatos que o levam a aceitar dar um curso sobre “Cultura Brasileira” em Berkeley. Os fatos são descritos sumariamente. Estava envergonhado de “filar” inumeráveis almoços na casa dos outros, de pedir dinheiro emprestado, etc. Ao mesmo tempo, parece sentir alguma culpa por estar prestes a mamar na teta de uma universidade americana.

Então, ele aceita o convite para o curso e chega à California com menos de 100 dólares no bolso e sem saber falar inglês. Suas aventuras, primeiramente em Berkeley (para dar aulas) e depois em Bellagio (onde fica em uma “oficina criativa” em frente ao Lago de Como), poderiam ser bastante interessantes do ponto de vista humano, porém nosso autor está mais a fim é de descrever as aventuras sexuais. Tudo bem, o sexo faz parte da vida, mas não é, digamos, mais que 88% dela. Apesar de conviver com ensaístas, músicos, pintores e ficcionistas, nada de intelectual acontece. Já de sexual…. é do caralho. As lavanderias de Bellagio devem ter se surpreendido com os sucrilhos deixados nas cortinas de seus salões, pois o autor declara ter limpado seu pênis nelas.

Intermezzo: o personagem principal é homossexual, talvez o Noll também o seja, sei lá. Nada tenho contra a opção dele, mas sou totalmente contra as descrições pós-sexo que o autor nos impinge. Ora, depois de cada relação, a narrativa é atacada daquela indireção poética ao estilo de Clarice Lispector. A narração pós-ragazzo em Belaggio é longuíssima para o tamanho do livro e… é chata, chata, chata, como Clarice NÃO o faria.

O final do livro, quando o narrador retorna à casa em Porto Alegre é muito emocionante. O fato inesperado de estarem lá um ex-namorado pai-solteiro com sua filha é surpreendente e é também uma brisa depois do prolongado claustro. Tá bom, não é nada original aparecer uma criança ou uma jovem para dar uma refrescada e mudar o contexto da história, mas com o Noll a coisa funcionou. A vida também é assim, não?

Não sei porque voltei a ler o Noll. Não tinha gostado de outros livros lidos anos atrás. Acontece que o vi em uma entrevista na TV e gostei dele. Mas valeu a pena retomar o contato com sua literatura. Uma curiosidade: toda a vez que abria o livro vinha aquela baita saudade de ler Thomas Bernhardt, pois, quando via seu parágrafo único, lembrava-me de como aquilo poderia ser bom, se tivesse mais solidez, racionalidade e raiva. E um pouco mais de arte narrativa, é claro.

Porque hoje ainda é sábado… Beijos e Belas Imagens

Finalmente em novo servidor e ainda resolvendo problemas, posto um Pq Hj é Sáb alternativo.

01 Beijo 2 Guerra2

Em meu micro, há um diretório chamado “Arte” com umas 2000 imagens e, sob ele, um subdiretório chamado “Fotos”.

02 Cartier Bresson Italy2

(Há também um diretório chamado Pq Hj é Sáb, mas este, de por volta de 3000 imagens, vocês conhecem um pouco mais).

03 Beijo Annie Leibovitz Lennon Ono2

Ao lado dos Cartier-Bresson, dos Doisneau, dos Leibovitz, há fotos de cuja autoria nem imagino.

04 Jeanloup Stieff2

Observando seu conteúdo, descubro que adoro imagens de amantes beijando-se.

05 Beijo Doiisneau Kiss2

Sempre tive pequenas e grandes diferenças em relação às tias moralistas da família.

06 Noiva Paul Barnett2

Uma delas — e uma bem pequena — era aquela que proibia exibições públicas de carinho.

07 Beijo Matthew Alan2

Nunca entendi porque era horrível dar longos beijos na rua, …

08 Pete Turner2

… principalmente pelo fato de adorar ver tais cenas.

09 Beijo Matthew Alan 22

Como tenho inato espírito de oposição, logo vi que me agradava proporcionar tais cenas.

10 Stieff 1 B4

Mesmo que algumas gurias simplesmente detestassem, …

11 Beijo Newton22

… as pequenas transgressões sempre me fascinaram; juro que elas nunca ultrapassaram os limites das novelas das seis.

12 Weegee 132

Minhas aspirações nunca incluíram a não-exposição de sentimentos, …

13 Weston Nf2

… o que talvez signifique minha não entrada nas listas de elegantes. Abaixo, uma foto muito importante para mim, …

14 Beijo Weegee Lovers2

… pois penso que era assim que eu e minha primeira namorada nos comportávamos naquelas tardes imortais do Marabá.

Barbierwave

Não como a imagem nada a ver acima…

P.S. - Acho que a foto que a Leitora Ideal deseja é a de A Um Passo da Eternidade (From here to eternity), com Burt Lancaster e Deborah Kerr mandando bala na praia. Este beijo é o “The best kiss ever!”:

Dkport14

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