Abordagem Nº 1 ao fracasso da literatura.

Do jeito que a literatura está, ela só tem um futuro: o seu passado.

Foi um processo muito secreto e silencioso. Primeiro, a importância do escritor dentro da sociedade foi levada para uma posição secundária. Aquele escritor que funcionava como consciência de um povo e que era consultado nos grandes debates éticos, foi deslocado pouco a pouco para a periferia e tornou-se coisa do passado - o último teria sido Graham Greene? Lembro de Veja estampar (Veja, Milton?!), quando era uma revista decente, em 1975 (ah, bom), “A Morte de um Brasileiro Consciente”, lamentando a morte de um escritor que colocava-se calma, contida e produtivamente - a forma mais eficiente, sem dúvida -, contra a ditadura militar: Erico Verissimo. A revista punha o povo brasileiro na posição de órfão de alguém que até os militares respeitavam e que funcionava como reserva moral do país. Era uma reportagem comovente e sincera.

Inúmeros escritores ocuparam esse “cargo” em diversos países. Eram normalmente muito bons em seu ofício e havia certa aura sobre eles, assim como sobre os livros, todos os livros. Passadismo meu? Não, em absoluto. Acho estranho que romancistas sejam consultados sobre experiências com células-tronco ou sobre aspectos da economia e governo, mas também acho que a nova desimportância do ofício de escrever ou atraiu pessoas que simplesmente são incapazes de criar obras de maior relevância ou tornou a literatura algo secundário, que não merece mais a atenção de nossos potenciais Joyces. Ou as duas coisas.

Passadismo meu? Não, em absoluto. Acho estranho que todos comam mais, que possam escolher a música de melhor qualidade, os filmes igualmente, mas que não o façam, escolhendo a merda mais pura e certamente empurrando quem poderia ser artista a outros afazeres. Não posso conceber que alguém inteligente e talentoso leia Marcelino Freire, por exemplo, e queira ser seu par. Joyce escolheria dar aula nas Escolas Berlitz ou ficaria ouvindo música de câmara em casa, na certeza mais do que absoluta de que não seria compreendido.

Passadismo meu? Não, em absoluto. OK, minha tese: há uma arte que está anos-luz à frente de todas as outras. É a música erudita. Talvez seu caráter abstrato, talvez sua qualidade de ar sonoro facilite as coisas. Vamos pensar no que houve por lá: nos anos 20, a música erudita fendeu-se entre a Escola de Viena (o dodecafonismo de Schoenberg e sua turma), os passadistas que seguiram fazendo mais ou menos o mesmo coisa e os nacionalistas, que eram os mais legais. Vamos ignorar as exceções, elas foram minoria. Ao mesmo tempo, tivemos a explosão do disco e da música popular, que passou a dominar a cena. Então, parte da música erudita - o pessoal de Viena - passou a ser ignorado; o pessoal passadista foi ridicularizado; os nacionalistas passaram a sobreviver por aparelhos e nossos teatros e palcos tornaram-se museus da música, interpretando apenas música com 50 anos de idade ou mais, muito mais. Funcionava e ainda funciona como meu filho e seus amigos pré-intelectualizados: eles só ouvem rock de antes de 1979… Hum, outro caso? Sem dúvida, sim!

Porém, hoje, vivemos um surdo risorgimento na música erudita. Há novos compositores e estes estão sendo ouvidos e respeitados, há uma música contemporânea que traz consigo grande respeito. Só que, hoje, é coisa para especialista… Há todo um novo mundo secreto se formando.

Leiam o que escreve Steve Reich sobre um aspecto do fenômeno:

Todos os músicos do passado, começando na Idade Média, estavam interessados na música popular. A música de Béla Bartók se fez inteiramente com fontes de música tradicional húngara. E Igor Stravinsky, ainda que gostasse de nos enganar, utilizou toda a sorte de fontes russas para seus primeros balés. A grande obra-prima Ópera dos Três Vinténs, de Kurt Weill, utiliza o estilo de cabaret da República de Weimar. Arnold Schoenberg e seus seguidores criaram um muro artificial, que nunca existiu antes. Minha geração atirou o muro abaixo e agora estamos novamente numa situação normal. Por exemplo, se Brian Eno ou David Bowie recorrem a mim e se músicos populares reutilizam minha música, como The Orb ou DJ Spooky, é uma coisa boa. Este é um procedimento histórico habitual, normal, natural.

A situação da literatura, principalmente da brasileira, que conheço mais, é infinitamente pior. Aqui, quase todos escrevem para o passado, visando um leitor que prefere modelos mais consolidados com os quais os escritores teimam concorrer. Em resumo, nossos escritores escrevem para ninguém. Sobra o enorme público consumidor de porcaria, ao qual Lya Luft procura adaptar-se e de onde Marcelino Freire veio e ainda reside. Falta o aparecimento desta coisinha elitista que tanto revolta a este ex-comunista, mas que parece inevitável: aqueles escritores bons, que serão lidos por alguns especialistas. Então teremos chegado à nova Idade Média, onde os eruditos já estão.