O Pensador Selvagem  |  Blogs  |  Busca

a canela e as minhas formigas

Publicado em 12/07/2008, às 01:43, por modosdefazermundos


a canela e as minhas formigas

(I)

invente um corpo
carregador de poemas
e saberá.
porque se me encurvam
as costas.

(II)

escrever poesia ao
ar livre. é como
levar mordidas de
formigas na canela.
olha-se o papel:
- ai mundo.
sente-se a mordida:
- ai vida.
sente-se o estalido:
- ai osso.
o coração, suas batidas:
- ai vida.

(III)

arruma alguma coisa
pra fazer. com a morte
me entendo Eu.

cidade de deus

Publicado em 09/07/2008, às 23:28, por modosdefazermundos


cidade de deus

a santo agostinho e Portinari

de todo casebre que se preze.
e como se prezam os casebres.
estica-se uma linha bem fina.
e como se estica.
na ponta da linha sempre uma pipa.
e como se pipa.

o casebre solta a pipa?
a pipa solta o casebre?

de toda pipa que se preze.
e como se prezam as pipas.
estica-se uma linha bem fina.
e como se estica.
na ponta da linha sempre um casebre.
e como se casebre.

a pipa solta o casebre?
o casebre solta a pipa?

todo menino que se preza.
e como prezo aos meninos.
estica duas linhas:

uma para pipa.
outra para o casebre.

ou a pipa solta o menino.
ou a pipa solta o casebre.

menos pertenço

Publicado em 05/07/2008, às 03:45, por modosdefazermundos


quanto mais olho
mais o mundo se encaixa.
as formas do mundo
se tornam harmônicas.
quanto mais se fixam os olhos.

para fazer diferente. quanto mais
olho. tento deixar de olhar. certa catarata.
para que as coisas não se encaixem.
porque quanto mais olho.
menos pertenço.

quanto menos olhos.
mais caibo no mundo.
mais o mundo cabe em mim.
quanto mais olho.
mais o mundo se pertence.
e menos me pertenço.

o mundo que me pertence?
um mundo que despertenço?
um mundo meu? um mundo outro?
um mundo meu?
um mundo seu?

um poema: aforismas: respiração

Publicado em 19/06/2008, às 10:16, por modosdefazermundos


um poema: aforismas: respiração

Nesse exato momento uno a sua respiração a minha. Não importa quão mais velho seja, ou que nasça daqui a cem anos, nesse momento, sua respiração está atada a minha. Não importa não falarmos a mesma língua, ou que leia uma ruim tradução desse texto. Nesse exato momento sua respiração está presa à minha. Antes não percebia que respirava. Agora percebe. Presta atenção no ar que entra pelas narinas e infla o pulmão e depois sai. Respiramos pelo mesmo pulmão. Agora pode virar essa página. E continuar a ler outras coisas, talvez um livro de poemas, talvez o meu livro de poemas, ou saia da minha vida. Perceba a respiração mais um pouco, mais um tanto, depois esqueça, lembre, esqueça. Nesse momento, e, pelo resto da vida, nossa respiração brinca de atadura, cada lembrança e cada esquecimento é parte dessa minha vida que respira. O que é um livro de poemas? Não faço muita idéia. Os meus livros de poemas são um canto para dizer mentiras. Tudo aquilo de que não é formado o mundo. Um livro de poemas, porventura escrito, é um lugar com algumas vírgulas. Entre as vírgulas: os meus melhores momentos. Guardo aos livros de poemas: meus melhores momentos. Aqueles onde os aborrecimentos são cimérios. As felicidades fervorosas. Guardo aos livros de poemas minhas mentiras: os momentos onde sou mais feliz. Deixo essa poema por aqui. Acabado e atadura e mentiroso.

O Guarda-Chuva de Regras

Publicado em 22/05/2008, às 16:20, por modosdefazermundos


O Guarda-Chuva de Regras
Um ensaio sobre a filosofia de Herbert Hart

http://gizeditorial.locaweb.com.br/site/imagens/capas/85-998-2287-6.jpg

O Guarda-Chuva de Regras é o primeiro livro de ensaio publicado por Cesar Kiraly, fruto de sua dissertação de mestrado em Filosofia. Mostra talento para a investigação analítica, mas escapa dessa tradição privilegiando a invenção conceitual. O autor incorpora ao debate em língua portuguesa, autores fundamentais na academia anglo-americana, mas pouco lidos no Brasil, como John Austin e Herbert Hart. O ensaio pode ser usado como introdução ao pensamento desses autores, bem como, início de pesquisa do conceito filosófico de regra social. Hart é um dos principais interlocutores, acerca da teoria do direito, de Habermas e de Dworkin.

Cesar Kiraly começa investigando o conceito filosófico de autoridade e os mecanismos de concentração de poder pelas soberanias. E segue expondo a classificação de Hart sobre as regras sociais e termina analisando, no âmbito da justiça, a idéia de conteúdo mínimo de direito natural. O livro deve ser lido por pesquisadores e alunos da área de filosofia do direito e de filosofia e teoria política.

Cesar Kiraly é professor de filosofia e teoria política da Universidade de Taubaté e pesquisador e coordenador executivo do Laboratório de Estudos Hum(e)anos do IUPERJ. Doutorado (em curso) e mestre em Ciência Política pelo IUPERJ. Mestre e bacharel em Filosofia pela UERJ. Bacharel em Direito pela FDCM da UCAM. Editor da Revista Ciências Humanas. Membro do Espaço Brasileiro de Estudos Psicanalíticos.

Para comprar o livro: O guarda-chuva de Regras: um ensaio sobre a filosofia de Herbert Hart

silêncio devorado

Publicado em 21/05/2008, às 16:42, por modosdefazermundos


silêncio devorado

de todos os seres
de rabuja. o espantalho
se percebe o rabugento destacado.
pombos lhes comeram os olhos.
corvos os bons bocados.

de todos os seres
de matraca. o espantalho
se percebe o mais tagarelado.
pombos lhe comeram a língua.
corvos o amor cantado.

de todos os seres
de rôta. o espantalho
se percebe o mais boca-rotado.
pombos lhe comeram a alma.
corvos o silêncio.

corvos comeram o silêncio do espantalho.
comeram o silêncio. os corvos comeram o silêncio.
do espantalho. o espantalho teve o silêncio comido. comido. devorado.

auto-retrato com agulhas

Publicado em 15/05/2008, às 11:33, por modosdefazermundos


auto-retrato com agulhas

alegoria dos alfineteiros.
alegria dos alfinetados.
que esse olho que me pisca,
essa perna que me dói,
não o fazem porque desejo.
mas porque me alfinetam
os caracóis.

eu. almofada de alfinetes.
gosto e não gosto das alfinetadas.

sou macio, a comparar-se com
coisas duras, feito pedra, mas duro,
se comparado com coisas macias,
feito bronze. mas as agulhas me
atravessam. porque alegorizo os
alfinetes.

ao acumularem-se as agulhas.
encontro cabecinhas coloridas espalhadas
por meus ouvidos. gosto e não gosto
de ser boneco vodu.

minuscUlisses

Publicado em 07/05/2008, às 16:07, por modosdefazermundos


minuscUlisses

algumas folhas têm nervuras
outras não.
algumas pessoas têm nervuras
outras não.
alguns sonhos têm nervuras
outros não.
alguns poemas têm nervuras
outros não.
algumas paixões têm nervuras
outras não.
algumas sandices têm nervuras.
sempre.

alguns instantes têm certezas
outros não.
algumas idéias têm certezas
outras não.
alguns cigarros têm certezas
outros não.
algumas canetas têm certezas
outras não.
algumas páginas têm certezas
outras não.
alguns versos têm certezas
outros não.
alguns solfejos têm certezas.
sempre.

algumas mulheres têm pequena
outras não.
algumas mulheres têm azul
outras não.
algumas mulheres nos fazem esperar
outras não.
algumas mulheres são de sonho
outras não.
algumas mulheres são de dia
outras não.
algumas mulheres têm lindas mãos
outras não.
algumas mulheres são você
outras não.

a velhice não é o atributo

Publicado em 17/04/2008, às 13:43, por modosdefazermundos


a velhice não é o atributo
de quem vive muito.
mas de quem nasce primeiro.

se me gafanhotam: gafanhoto.

o esquecimento não é atributo
da memória gasta.
mas da memória primeira.

se me gafanhotam: gafanhoto.

a morte não é o atributo
da extinção da vida.
mas do esquecimento da infância.

se me gafanhotam: gafanhoto.

ao desaparecerem os que lembram do que não lembro,
dos meus momentos de infância, de que não lembro,
porque me lembro. então, morrerei um pouco.
a morte não vem de todo. ela vem de pouco. de pouco a pouco
levar quem se lembra do que não lembro. até que ninguém
possa atestar de que fui pequeno. a não ser do que lembro.
então serei o único garante da minha vida em salto.
estarei morto.

e se me gafanhotam: gafanhoto.

Quando sangro sou um outro

Publicado em 08/03/2008, às 10:44, por modosdefazermundos


Viro esta página em branco.
Aquela? Aquela não. Esta
página em branco.

Minha mão parece que não sabe
mais virar a página ou
pegar a caneta. Minha mão dói.
Parece grande demais para a poesia.
Minha mão era menor. Menor para
escrever poesia. Por isso doía menos.
Poesia para mãos doloridas.
Escrevo poesias para mãos grandes
demais. Mãos sujas de chocolate seco.

O chocolate seco se parece com o
sangue seco. Como o seco se parece
com o sexo. Chocolate e sangue
seco nas mãos. Lamber o sangue
seco dos dedos, lamber o chocolate
seco nos dedos, umedecer até amolecer
o sangue e o chocolate.

A depressão, como o chocolate,
é uma química. O sangue é
uma química. Não passamos de
química. Para mim a depressão é
uma falta. A impossibilidade de se
encontrar sentido nas coisas. É
um esforço. A luta para
criar sentido para tudo. A depressão
quimicomunica com o mundo
me lambuza
os dedos com
chocolate, quando
os lambo sinto
que é sangue,
quando os
sangro, sinto
que é outro.

← Anterior 01 02 Próxima →