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Licantropo 2 (conto publicado em LICANTROPO, 2001)

Publicado em 04/06/2008, às 16:44, por Grijó


Os jornais são engraçados, digo à amiga, que se penteia na frente do espelho. A manchete fala sobre assassinatos no Parque Moscoso, três pessoas dilaceradas por um maníaco que eles vão chamar de quê? Vão dar um título a alguém que eles desconhecem e que nunca a polícia vai encontrar, isso sim, digo eu. A amiga continua penteando-se. Tem longos cabelos castanhos, alguns fios se mostram grisalhos, mas ela não parece se preocupar.
Vão acabar chamando o cara de estripador, eu falo.
Esquecem logo, diz a amiga, voltando-se ao banheiro. Havia tomado um banho demorado, saíra dele com o cheiro perfumado de xampu para cabelos secos, como são os dela. Meu olfato é potente.

A imprensa gosta de violência, eu disse. São necrófagos, pode apostar. Alimentam-se da carnificina, os abutres. A página policial é a mais lida, depois da coluna social, mas aí é outra clientela, fútil, mas não menos rapinante. Estupros, surras, acidentes automobilísticos, matricídios, brigas de casais, facadas, pancadaria. Um homem matou o vizinho com uma chave de fenda, primeiro furou os olhos dele, diz aqui.
Impostos são violência, e a imprensa não diz nada, ela comenta.
O corpo da amiga é bonito, mas não modelar. Seus peitos têm bom tamanho, cabem na minha mão, e não são empinados. Um conhecido meu disse que gosta de peitos levemente caídos, daqueles em cuja dobradura se pode colocar um lápis – e o lápis não cair. A amiga tem ancas que já foram mais bonitas, mas ainda mantêm a graça, abauladas. Seu corpo é ágil, de boa locomoção. Com um cortador de unhas, uma das pernas sobre a cama, inicia o ritual hebdomadário: todos os seus vinte dedos são minuciosamente cuidados, retira-se o desnecessário. Senta-se, recolhendo cutículas e restos de unhas, na cama, enquanto me demoro na página policial. Um grupo de religiosos fanáticos espancou um entregador de pizza.

Vai sair hoje?, ela pergunta.
Ainda não sei, respondo.
Vou dormir cedo, diz ela. Gosto de acordar disposta na segunda-feira. A amiga tem essa propriedade, que chego a invejar. Deita-se e, em segundos, adormece, para acordar sete horas depois, disposta a encarar seu trabalho como manicure.

Notícias do dilaceramento. Três vítimas. Um casal de namorados foi selvagemente assassinado. E mais adiante, no mesmo local, ainda nas redondezas do Parque Moscoso, uma mulher de trinta e cinco anos, identificada como Marlene Peçanha. Todos assassinados na sexta-feira à noite ou madrugada do sábado. O rapaz teve um braço e uma orelha arrancados e a moça, a namorada, foi encontrada a dois metros dele, com um enorme rombo no tórax. Morte instantânea. A mulher de trinta e cinco, Marlene (foto: morena, sem sorrir, 3×4), teve ferimentos profundos na garganta e na região ventral, os dedos da mão direita desapareceram, o fêmur esquerdo havia sido partido como um graveto frágil. A polícia suspeita de um maníaco dotado de extrema força – ou mais de um –, possivelmente sob efeito de drogas, acompanhado por um animal feroz, provavelmente um cão, treinado para matar. As mordeduras sugerem um animal de grande porte. O crime chocou a comunidade da Vila Rubim, onde moravam as três vítimas.

Fecho o jornal, vou até o banheiro, no qual se impregnou o perfume de xampu. No espelho a imagem do meu rosto é a de um homem comum que chega aos quarenta e cinco dignamente: poucas rugas, o cabelo está ralo mas é possível disfarçar, se houver paciência, os olhos ainda trazem a tonalidade jovem dos bons tempos. Do pescoço para baixo sou um tanque pronto para a guerra. Sou alto, lânguido, desenvoltura mortal, peitorais avantajados, braços longos nos quais os músculos se retesam ao menor aviso. Minhas mãos são máquinas de moer carne e vida; em volta do pescoço alheio, são capazes de esmagar as cartilagens traqueais em segundos. Meu abdômen é rijo e minhas pernas são blocos de concreto velozes, meus pés são asas. Não sou bonito, mas, no meu ramo, isso não conta ponto.

Assim que a amiga dorme, visto minha roupa. Caminhar pelo parque, à noite, pode ser perigoso para muitos, mas não para um homem como eu, acostumado volantim noturno. Já passa das onze, as noites de julho não chegam a ser geladas, mas há um certo frio que posso suportar sem necessidade de agasalhos. Caminho vagaroso pela área que foi, no final do século dezenove, um imenso mangue, uma área conhecida como Lapa do Mangal, e que hoje, aterrada e urbanizada, ganhou cor e vida. O aterro, obra de método e zelo, foi concebido durante o mandato de Henrique Moscoso, então presidente da Província – daí ter esse nome, cuja pronúncia não me agrada. Dou a volta no parque durante a noite. Faço o percurso morosamente, poderia assobiar se quisesse, solitário como sempre me sinto – mas no meu ofício é melhor que seja assim. Ninguém no parque. Toda a volta, passando pelas avenidas e retornando à rua José de Anchieta, onde moro, leva apenas alguns minutos, mesmo vagaroso. Nada me interrompe, nem ninguém. Domingo à noite é assim: nenhuma alma, nenhum corpo.

Durante toda a semana procurei emprego. Olhei nos classificados, havia dezenas de ofertas, de vigia noturno a caixa de supermercado, empregos dignos, mas que pagam mal e um homem como eu não pode trabalhar num estabelecimento onde um funcionário é mal remunerado. A questão não é financeira, é uma questão de previdência. Trabalhei como carregador, como porteiro de boate, como segurança num centro de compras. As pessoas olham minhas dimensões e me acham adequado, embora não cheguem a gostar muito da minha cara, estou quase sempre de sobrancelhas tensas, mal encarado, tento disfarçar até, mas é difícil, não estou acostumado a sorrir nem tenho motivos para isso. Nesses lugares você fica sujeito a se relacionar com todo tipo de gente, não pode escolher, não faz triagem, seleção. Por isso é que prefiro me prevenir. Na impossibilidade de manter contato com pessoas de condição mais elevada – educação, escolaridade, higiene –, opto por ficar em casa vendo televisão, andando de um lado pro outro, conversando com a amiga, dormindo, indo ao banheiro.

Em certa ocasião, quando trabalhava como segurança num motel, fui obrigado a apelar para a força, que é o que sei fazer muito bem. Um sujeito grande, devia ter uns cem quilos, forte como uma árvore, surrou as duas garotas que tinha levado para uma festinha particular. O que acontecia lá dentro, na cama e entre quatro paredes e espelhos, não era da minha conta nem de ninguém. Uma das garotas, soluçando, chorando muito, ligou pra recepção, queria ajuda, disse que o sujeito havia perdido a cabeça e que estava quebrando tudo, inclusive a cara dela. Isso acontece muito, mas ninguém fala nada, não convém, porque geralmente esses caras violentos são oriundos de famílias ricas e têm carro esporte, fazem faculdade particular e não trabalham – só se divertem. Me mandaram resolver o assunto. Não chamam a polícia, mas deveriam chamar. Fui lá, o cara abriu a porta, era grande pra valer, estava nu, a barriga definida de quem fazia exercícios diariamente. O quarto estava revirado, maços de cigarro e bombons e toalhas, tudo pelo chão e em cima da cama. O espelho frontal havia sido destruído, havia copos quebrados e lençóis rasgados. O frigobar estava aberto, o som estava alto, efeeme. As duas garotas, abraçadas no canto do quarto, estavam assustadas. Ele ouviu a campainha, abriu a porta com violência, eu perguntei, algum problema, meu chapa? Ele falou alguma coisa que eu não ouvi e tentou fechar a porta, mas foi inútil. O primeiro soco – e foi só um – que eu dei destruiu a mandíbula dele e quebrou-lhe também o nariz, transformando seu rosto numa massa disforme de osso, sangue, carne e cartilagem. As garotas começaram a gritar comigo. Eu havia resolvido o problema delas, mas elas gritavam comigo, me chamaram de selvagem, de bruto, e que iam me denunciar, essas coisas. Saí, fui até a direção do motel e disse que estava tudo resolvido. A direção acalmou as garotas, o grandão foi para o hospital e no outro dia, pela manhã, me ligaram dizendo que eu não precisava voltar para trabalhar. É isso. Eu deveria arrumar emprego num ambiente cujos clientes não arrumassem confusão. Não posso trabalhar em escola, banco, shopping, restaurante, farmácia, feira livre, açougue, padaria, papelaria, loja de departamentos. A amiga sabe disso. Estou desempregado, mas não há muito com o que me preocupar porque minhas necessidades não vão muito além. Preciso me alimentar, é claro, mas isso não me preocupa por enquanto.

Também gosto de passear pelo parque no final da tarde, entre cinco e seis horas. É o que eu chamo de hora sublime, e a amiga ri nem sabe por quê. Talvez não compreenda de verdade o que o crepúsculo significa para um homem como eu. Vejo pessoas que esperam a condução de volta para casa. Há uma certa tristeza naquele amontoado de infelizes que trabalharam todo o dia e que retornarão ao ambiente que eles chamam lar mas que é apenas dormitório porque amanhã será tudo a mesma coisa. O sol desapareceu e isso me deixa em situação confortável, eu diria vantajosa em relação a esses pobres diabos. De fato, estou em posição de vantagem em relação a todos aqueles que conheço, incluindo a amiga. Andar pelas ruas do Parque Moscoso requer paciência e arte, e uma certa dose efetiva de nostalgia. Quarenta e cinco anos vividos no centro da cidade, criado e crescido próximo ao Clube Vitória, em vigília solitária observando as pessoas que tomariam o ônibus para outros estados, quando ali havia uma rodoviária, singela e alegre e não aquela nova estrutura na Ilha do Príncipe e não sei por que essa denominação nobre a um lugar tão desprovido de nobreza. Os filmes no Santa Cecília, as grandes produções que deram lugar à escatologia e ao despudor. Os bares, as lojas, os armarinhos, as lanchonetes, as escadarias, a passagem para a Cidade Alta, o viaduto. Memória, apenas.

A polícia não tem suspeitos quanto ao trucidamento que aconteceu no parque, na sexta-feira. Não acontecerá mais, diz um homem identificado como Celso Mattoso, delegado de sobrancelhas grossas e nariz chato, que parece ter sido feito com massa de modelar. Sua imagem não amedronta nem inspira proteção, é neutra. O policiamento será reforçado, diz ele, como se isso fosse adiantar alguma coisa. Nos últimos anos, regularmente, pessoas têm sido assassinadas no Parque Moscoso, sendo que os ataques – vítimas sempre fatais – ocorrem, invariavelmente, entre sexta à noite e madrugada de sábado. Lobisomem, diz uma senhora de idade avançada. Diante de uma câmera de tevê, sente-se à vontade, como uma atriz em fim de carreira, mas ainda luminosa em seu crepúsculo. Tem cabelos alisados, olhos quentes, orelhas grandes e gesticula. Também criada no Parque Moscoso, nascida há sessenta e tantos anos, sempre soube da existência de uma criatura maligna, horrenda, assassina, que passeava pelo parque à procura de comida. Um homem metade gente metade bicho, afirmou, apontando para a câmera como se pedisse cautela àqueles que são imprudentes. Imagens do parque. O apresentador do telejornal dá um risinho maroto ao final da matéria. Não acredita em lobisomens, é claro, como a maioria.

A polícia cumpriu a promessa. No outro dia, ando pelo parque pela manhã e vejo alguns policiais caminhando serenamente pela calçada, uniformizados, em duplas. Pelo que posso observar, são, ao todo, seis policiais, não vejo mais que isso. Poderia atacá-los à luz do dia, se quisesse, não veriam o que os atingiu – mas, assim, eu seria apenas um homem, uma parede de cimento, é verdade, mas ainda assim um ser humano. E, como homem, estaria sujeito às penas dos homens se, é claro, todo um destacamento policial me cercasse e me detivesse, o que é improvável. Eles não têm chance contra mim. É preciso esperar até sexta-feira, quando o policiamento estiver ostensivo, quando estiverem armados até os dentes, como eu. Assim, o embate será mais justo e o território será, enfim, demarcado. Vou esmagá-los sem compaixão. No meu ramo, a piedade não tem lugar, não há uma segunda chance. O parque é meu, meu burgo e meu lar – e não deles.

Durante dois dias se falou sobre o crime no parque. Fera à solta, estampou garrafal o tablóide que consegue sobreviver porque há tripas e excrementos que são servidos à população como guloseimas para crianças. Dois longos dias em que hipóteses vieram à superfície de forma irônica, mas também houve o choro, a lamentação, as famílias desesperadas – ninguém sequer imagina o motivo de tanto horror, não há como saberem por que destruo a carne alheia, por que pulverizo as ossadas. Depois de dois dias, um escândalo político me retira do ar, já não sou notícia que interessa. Nem eu nem a comunidade que sofre na Vila Rubim. Deputados depõem contra seus pares, corrupção desenfreada, delações, suborno, peculato. Isso sim é violência, diz a amiga, preparando-se para trabalhar. O café já está na mesa, e os biscoitos que você gosta, ela conclui, mostrando uma dentição limpa, com um leve toque de amarelo no canino esquerdo. Sua forma de falar comigo é suave, mas firme. Sabe que minha alma envenenada tem um destino a cumprir e não há nada que possa ser feito quanto a isso. Já conversamos sobre o assunto, ponderamos, avaliamos – e a conclusão é uma, apenas: essa é minha forma de amar. Vá em frente, então, diz ela.

Preparo-me na quinta-feira. Jejuar é uma obrigação à qual me acostumei em vésperas de sair para matar. Um pouco de exercício para manter o corpo estável e teso, as articulações estão tinindo, a respiração como um relógio, em pequenas pausas. Duas horas de halteres, mais uma de flexões sobre o chão – ao todo, mil. Não fumo, não bebo, apenas amo. Meu coração em ritmo preciso, não se acelera nem quando estou diante de minha vítima porque a emoção é um descuido em minha profissão. A amiga sabe disso, acostumou-se a essa rotina, já não chora como antes, não se comove, resignou-se de tal forma que chega a me trazer um certo remorso, que desaparece com a mesma rapidez que se instaura. Sai para trabalhar como se nada incomum pudesse alterar seu cotidiano. Vou a um banho prolongado, corrijo meu hálito, observo-me ao espelho com refinada vaidade. Incho meu tórax, respiro, incho-o novamente. Abro e fecho as mãos, soco uma vítima invisível, verifico meus dentes e unhas. Sou uma estrutura pronta para a destruição.

Desço as escadas, evitando o elevador. Passo pela portaria sem que me vejam, é sempre assim: a sumária desproteção. Ouço a voz de um casal que chega das compras reclamando da demora do elevador, o homem pragueja contra adolescentes que apertam todos os botões – pentelhos, diz ele. Pela voz, imagino seu tamanho, deve ser um homem pequeno, mas de carne sólida, uns trinta e cinco anos, no máximo. Atravesso a garagem subterrânea, poucos carros, ainda é cedo, a sexta-feira é feita para um chopinho antes de voltar para casa. Na rua, o cheiro azedo de carne humana misturado à fumaça que sai dos veículos é um verdadeiro pomar para meu olfato. Estão à minha espera, posso senti-los a distância, com medo, o qual também posso sentir pois o cheiro é característico. Nossa raça é assim, mesmo os parentes mais distantes têm essa habilidade, essa feliz particularidade que nos faz superiores. A lua dá seu primeiro sinal no céu.

O momento antes da carnagem, da matança: a escolha. Levo em conta peso, modo de andar, silhueta, ar burguês, elegância, displicência. Prefiro homens, porque o instinto de defesa deles é quase uma obrigação nessa época de efeminados e travestis. Gosto de atacar aqueles que têm – como eu – a influição para se manter vivos, que são capazes de lutar para sobreviver, embora eles mesmos saibam que é inútil tentar conter minha ira. Sou sempre mais forte, mais rápido que qualquer ser humano conhecido. Já matei mulheres, mas não é essa minha preferência, assim como sou capaz de poupar – mesmo em dias de extrema fome – crianças e adolescentes. A carne deles é açucarada, nada me diz ao paladar. Hoje não será necessário escolher. Saio de casa com as vítimas definidas: os policiais. O céu polifêmico, com seu único olho noturno que me guia, está limpo, não há sinais de chuva, mas há poucas estrelas. Onze horas.

Na curva da General Osório há dois deles. Um: alto e de bom tamanho, atlético, está rindo – possivelmente pela última vez. Outro: mais baixo, mas de aparência robusta e bem alimentada, conta-lhe uma história que não consigo ouvir, posto que minha audição também seja privilegiada. Talvez eu esteja ficando velho. São pesados para andar, não têm ritmo. Num salto olímpico, fico diante deles, e antes que possam esboçar qualquer resistência, golpeio, com a mão aberta, o pescoço do mais alto – que se chama Almir, posso ouvir o mais baixo gritar seu nome. É um golpe absoluto, furioso, que abre um rasgão de vários centímetros, e que provoca dor e grito. Minhas unhas são mais que lâminas frias, mais que navalhas precisas. O mais alto, com as duas mãos no pescoço, ainda vê meus olhos cheios de sangue, grandes e abertos, que por um segundo encontram os seus, assustados. O mais baixo tenta sacar a arma, fora treinado para emergências, mas não para enfrentar alguém como eu. Minha mão esquerda encontra sua barriga um tanto flácida e abre-lhe também uma fenda profunda. Um pouco mais de força veria suas vísceras ganharem vida na calçada, rolando vermelhas e escuras pelo chão. O mais alto, Almir, está caído, seu corpo espasmódico não apresenta reações satisfatórias. Quebro-lhe uma das pernas com um pisão violento. Depois outra, com um soco, minha mão fechada é uma bigorna. O mais baixo ainda está lúcido. O horror, o horror, grita ele, no coração das trevas, mas quem ouvirá? Coloco minhas duas mãos em sua cabeça e aproximo-me, dou-lhe um beijo mortal que lhe arranca a língua facilmente, enquanto pressiono seus ossos temporais. Está sem forças, solto-o e abraço-o novamente, rompo-lhe a coluna com meus braços à sua volta, posso ouvir as vértebras fazendo prop. Estão ambos no chão, agora. Olho para os lados, certifico-me de que estamos sozinhos. É possível que alguém nos esteja vendo, mas fechará a janela porque isso não é da conta de ninguém, ninguém quer se envolver, testemunhar. E assim a vida continua. Meu uivo é um aviso e a amiga pode ouvi-lo, deitada na cama, pronta para dormir e acordar mais tarde no sábado. Agacho-me diante dos corpos, inicio a mastigação com rapidez porque há muito ainda que fazer e o meu amor será pleno e a noite está apenas em seu início.

O Jantar (conto publicado em UM OUTRO PAÍS PARA ALICE, 1989)

Publicado em 30/04/2008, às 11:36, por Grijó


sim, Marilyn é uma ótima garota, sempre digo isso para mim mesmo, como se quisesse me convencer sobre algo de que já desconfio, e tudo fica mais fácil, tão fácil a ponto de levá-la para jantar em minha casa, a despeito de todos os protocolos e insanidades. É uma ótima garota, sei, cabelos louros, o maxilar corrigido por uma cirurgia que custou alguns meses de meu salário, pernas firmes, andar levemente falsificado, percebo, após uma tarde entre telas e história. Finge estar sempre muito bem, é rigidamente dietética em sua alimentação, fala devagar e raciocina também da mesma maneira, com certa dificuldade sedutora, dessas que pedem auxílio para pronunciar o nome Delacroix várias vezes, enquanto se espanta (mas não me surpreende) por não entender que motivo levou Jackson Pollock a vomitar novas fórmulas para a plástica. Desculpe-a por isso, Mr. Pollock! Gosto quando arremessa seus muito bem distribuídos cinqüenta e sete quilos para a frente, e os alicerça com a ponta dos dedos dos pés, esteja ela descalça ou usufruindo desse tórrido prazer que é calçar salto alto. Poucas mulheres sabem usar a expressão oh querido com a mesma suavidade inesperada, e nas horas ainda mais impróprias, como da última vez em que saímos para saborear soufflé de algas, e o garçom excitou-se, a olhos nus, quando ela fixou o olhar em meus lábios e disparou uma sofrida repreensão por esquecer-me de que os guardanapos existem e têm uma função.

É uma ótima garota, e diz estar cansada numa determinada tarde, mas concede, sem que eu insista, um ou dois minutos a mais de sua forma e de sua cama. Volta e meia estamos juntos, dialogamos sobre assuntos que ela desconhece, ou melhor eu falo e ela escuta, sei que é sua natureza ouvir e é sua natureza esquecer. Agora que estou sozinho - e sob essa chuva que ainda está calma e não me desespera -, apresso o passo até chegar a seu apartamento. Certamente ouvirei sua voz vinda do banheiro, e mais uma vez pronunciará querido interjeitivamente, dizendo que estará pronta em poucos minutos, e jogará por terra a toalha que esconde a imensa língua loura que é seu cabelo. Olá, querido, ela diz, e, sem deixar que eu a cumprimente, ocupa minhas gengivas e meus dentes com seu beijo. É claro que está bonita, ainda mais numa noite como esta, especial para mim, para ela e para minha esposa, que nos espera com sua maquiagem pesada feito uma armadura.

Claro que Marilyn está bonita e é claro que é uma ótima garota, como poucas, que ainda tentam subsistir num país onde as amantes são irremediavelmente condenadas. A verdade é que tenho uma ligeira vontade de não ir, ou de aguardar um pouco mais, esperar que fique suada após vinte minutos de ação sobre o edredom; assim, um outro banho será necessário, mais uma hora ou tantas passaremos juntos, somente os dois, lacrados entre quatro paredes, uma cama, um belíssimo e recheado guarda-roupa e pernas que se confundem e desafiam Newton e suas leis. Fato é que não precisa de nenhum ornamento como esse que lhe dei e que complementa seu pescoço, nem precisa fingir que espera um telefonema, tentando, utilmente, despertar minha curiosidade. Não é necessário dizer que um de seus joelhos dói só para que eu observe que estão ainda mais arredondados, resultado da ginástica transcendental de nome impronunciável inventada por um usurpador que não aparece em público.

Descemos pelo elevador e, enquanto finjo controlar minha claustrofobia, ela comenta sobre minha roupa, fala sobre a combinação de gravata vermelha e terno azul, eu nunca soube que cores tão distintas combinassem tão bem, ela diz, e foram as dez únicas palavras que ela pronunciou até chegarmos a minha casa. Não, não foi mal-educada ou evasiva, chegou a murmurar, por duas vezes, hum-hum e uma vez oh exclamativo, surpresa por presenciarmos uma colisão entre uma bicicleta e um passat. Moro no terceiro andar de um edifício parcialmente destruído pelo tédio, é o que digo a ela, e não espero que faça comentários sobre essa dolorida piada ensaiada há semanas, nem espero que sorria, não quero elogios, sem culpas por não ter prestado atenção, vivo tentando exercitar seus neurônios a fim de comprovar que a proposição evidente e anticartesiana não penso logo, não existo não combine com ela. Sente-se um tanto inquieta, eu diria até arrependida por estar tão provocante neste vestido branco, ou talvez decepcionada por perceber que vestidos brancos não combinam com esta estação do ano. Chegamos.

Minha mulher é minha mulher há doze anos, não temos filhos por opção e disciplina, temos gostos diferentes, hábitos e propósitos completamente opostos. Em comum só a triste ciência de resistir um ao outro. É uma mulher interessante, apesar. Como previsto, suas células faciais estão sufocadas, mas não consegue, apesar de todo o pó, esconder os sacos lacrimais tão próximos das orelhas. Cumprimento-a com um beijo ligeiro na parte menos retocada de sua cabeça: os cabelos. Minha mulher (seu nome é Regina), educada presbiterianamente, cumprimenta Marilyn com avidez, como se quisesse homologar a repartição do pão que já reparte há dois anos. Regina é uma anfitriã agradável, requintada, esse é seu melhor e mais útil papel, gosta de muitas pessoas em casa, diverte-se em servir doses múltiplas de bourbon e suco de pitanga, misturados tão obsessivamente que se tornam uma bebida suportável. Não chego a me espantar com a relação cordial que se institui a partir daquele momento, um minuto após Marilyn ter ingerido a primeira dose de uísque (rejeita, por enquanto, as aventuras etílicas de Regina). Ela é uma mulher dócil, diz Marilyn calmamente (é difícil suportar vê-la pronunciar certos fonemas e não me aproximar ainda mais), logo que Regina rumou para a cozinha a fim de resgatar os canapés.

É nesse momento que Marilyn me desespera, ajeitando o vestido, colando-o ainda mais às coxas e levantando as nádegas num pulinho adolescente. Depois, ao libertar-se do copo de uísque, mistura seus dedos aos cabelos, sem desfazer a arquitetura que levou tanto tempo para projetar. Regina volta, os canapés numa das mãos e na outra nosso álbum de lua-de-mel, essa é uma maneira de ridicularizar você, ratinha, imagino que Regina esteja pensando essas mesmíssimas expressões, e nessa ordem, pois seus olhos estão voltados para o decote da intrusa, e, em segundos, estarão pousados nos tornozelos e depois tentarão perceber alguma falha no nariz aristocraticamente sutil de Marilyn. Tentativa estéril, mas quem entenderá as esposas, senão os ginecologistas, que vivem e se alimentam os deslizes matrimoniais? Curiosamente, ou mais que isso, Marilyn devora minhas fotografias de doze anos passados, e, é claro, repara que ganhei centímetros de abdômen e perdi cabelo, bem, frase feita ou não, doze anos não são doze segundos. Aqui, em Bruxelas, diz Regina apontando uma das fotos, e este, veja, é ele, em frente à catedral Saints Michel-et-Gudule, o céu estava muito bonito, é claro, essas fotos já têm doze anos, concluiu, e eu sei que seu objetivo ao pronunciar sem erro o francês é humilhar Marilyn, que poucas vezes saiu de casa quando menina e, desconfio, nunca saiu do país. É o mercado de flores, não é, querido?, como é mesmo o nome? Ah, Grand’Place. Olhe, aqui estamos sobre o Semoy, ficamos numa linda casa em Bouillon, já esteve na Bélgica? É o preço por ser amante, penso, agüentar um discurso mais que utrapassado sobre um desejo atual. Vamos jantar, interrompo a ambas, tomando o álbum e ajeitando meu terno. Concordam, cada um a seu modo: Marilyn ensaia um gritinho e diz algo que não compreendo; Regina, além de não parecer frustrada por ser interrompida no primeiro round, sorri elegantemente, uma surpresa, pois sempre escancara os caninos de forma animosa.

Vou até o aparelho de som e agradeço a Art Tatum por ter sido tão gentil em I Know that You Know. Sentamo-nos à mesa, maionese como entrada, salada de folhas verdes, e depois serão a carne e o vinho, ótima safra que adquiri para mim e para Marilyn, mas que será bebido a três, não importa, desde que eu possa imaginar que prazer milagroso terá esse líquido ao penetrar Marilyn mais fundo do que eu. Quanto a Regina, bem, espero que se embebede e se angustie, a ponto de ir para a cama mais cedo, e, quem sabe, dormir por milênios. Foi um erro trazer Marilyn a este pequeno covil. Trouxe-a muito mais por insistência de Regina do que por outra razão. Após ter visto algumas fotografias de Marilyn em minha carteira ou desordenadamente distribuídas nas paginas de meus livros, foi implacável: quero conhecê-la, traga-a para jantar na quinta, e espero que ela seja mais bonita do que aparenta – isso ela disse, ou penso que disse. Foi o que fiz e ainda não me arrependi. Vários erros são cometidos e o maior deles foi ter deixado a carne queimar – e então, claro, rimos os três.

E agora?, pergunto a Regina, como se esperasse dela uma resposta sensata, realmente pergunto a ela, mas meus olhos estão voltados para Marilyn, que caçoa, silenciosa, da imperícia de minha esposa. Talvez possamos sair e jantar – eu digo –, há bons restaurantes perto daqui e moramos num bairro infestado por adeptos da gastronomia. Podemos recomeçar o jantar, diz Marilyn, sempre suave, como se estivesse pronunciando oh querido! Regina concorda. Quanto a mim, não há problemas, posso esperar, e depois a rua estará ainda mais deserta, poderei conduzir Marilyn pelo meio-fio, poderemos observar as pequenas construções de lama até chegarmos a seu apartamento (cujo aluguel pago). Sem me importar com a possibilidade de estarem no observando, posso infantilmente beliscar seu glúteos e presenciar como se comporta seu vestido ao passarmos sobre o escapamento de ar do metrô, poderemos andar como dois desajustados pela rua, o príncipe e a corista.

 E que tal atacar novamente de Tatum? Não, melhor Mulligan e o bom e velho Chet em The Lady is a Tramp. Enquanto vasculho a estante, ouço conversarem tranqüilamente na cozinha, estão animadas, escorre pela minha cabeça a possibilidade de serem amigas e conviverem fraternalmente, conversando sobre assuntos que possam interessar às duas, indo ao cabeleireiro, fazendo observações a meu respeito, e então, querida?, como ele está com você?, oh, atualmente ele tem trabalhado mais do que o normal, mas vivo insistindo – e nisso ele me atende – para não trazer serviço para casa. Reparou como ele anda inquieto?, mas ainda continua o mesmo homem, não acha?, sim, claro que percebi, os olhos estão meio fundos, cansaço, eu acho, e ele continua firme?, a mesma agilidade e disposição de doze anos?, não, não, é claro que eu acredito, bem, Regina está na dianteira, dez anos a mais, sem contar o tempo de namoro.

Sinto que ela poderia ajudar significativamente meu convívio com Marilyn, vai preveni-la sobre minhas manias, meus desejos e perversões, enquanto Marilyn poderá ajudá-la em seu infrutífero processo de rejuvenescimento, levando-a para experimentar líquidos contra rugas e perfumes íntimos. Uma utopia que aprovo – ah, aqui está o disco: gravação de 53, um escrete: Carson Smith, Chico Hamilton, Chet Baker e Gerry Mulligan, e o primeiro golpe – acho – foi com a faca para peixes, e depois outro, simultâneo e articulado, dirigido ao abdômen, o tempo de me virar e não distinguir se Marilyn ou Regina, qual das duas teve a idéia, qual delas utiliza tão bem a faca para pães, os dentes aguçados, bem construídos e, entre murros e pontapés, começar a ver embaçado, e ainda algo mais pesado se aproxima e é dolorido como uma coronhada, sinto minha têmpora direita anestesiar.

É preciso limpar o sangue, querida, vamos, eu ajudo você, também conheço bem esse peso, é melhor não deixar marcas, nem um fio de cabelo, lembra do filme – ou era um poema? -, não sei, não importa, oh, meu abajur londrino, minha relíquia, calma, calma, tudo por uma causa razoável, eu arrumo o sofá enquanto você se encarrega de, veja, há sangue na parede e no chão, vamos, você me ajuda a tirar os pêlos da panturrilha?, gosta mesmo dessa parte?, que tal o peito?, gosto muito de carne do peito, pode ser desfiada e misturada ao arroz, hum, conheço uma receita ótima, arroz, ervas e carne do peito, mas, bem, escolha você, a casa é sua. A propósito, posso desligar o som ou você aprecia esse tipo de música?

Outro conto: Todos os Poemas para Thereza (1996)

Publicado em 15/02/2008, às 20:30, por Grijó


 + Mulheres+diversa

O livro MULHERES - DIVERSA CALIGRAFIA (Ed. Cultural) foi lançado em 1996, sob a direção de Pedro Nunes, autor dos ótimos Vilarejo, Aninhanha, Menino e outros textos que merecem leitura. A idéia do livro - escritos eróticos em homenagem à alma e ao corpo femininos - surgiu de bate-papos aos sábados na livraria Logos, ponto de encontro mais que confortável do grupo formado por Adilson Vilaça, Renato Pacheco, Sebastião Lyrio, Luiz Guilherme Santos Neves, Pedro Nunes, Reinaldo Santos Neves e eu, Francisco Grijó. O livro gerou certa polêmica, já que foi considerado, por alguns - e algumas - como o exemplo claro da misoginia. Exagero, penso eu.

Eis o conto TODOS OS POEMAS PARA THEREZA, contido no livro - e mais tarde (cinco anos) fazendo parte do livro LICANTROPO, de 2001.

ELE

Tentei ligar novamente para Thereza com teagá, que me parece mesmo uma grande brincadeira fonética sem razão, mas a ligação caiu no momento em que ia recitar uns versos que eu mesmo faço e dos quais ela gosta muito, é claro. Tentei ligar mais umas duas vezes mas é certo que agora ela retirou o fone do gancho, recusa minhas métricas e rimas, tudo aquilo que eu penso pérola e ela bobagens sem vida, sem motivo. Depois, como sempre, fui imaginar que o corpo dela seria um grande pássaro sobre meu corpo – se não pássaro, algum outro vertebrado de bom movimento e boa química, talvez um lagarto de pele grossa ou um enorme mamífero mas que fosse raro por essa região. Thereza tem olhos que fixam, braços que empurram meu tórax e pernas de elástico puríssimo, por isso um animal diferente e não uma mulher com quem eu dividiria minha natureza cheia de febre. Vi Thereza num supermercado, na seção fria de laticínios, escolhendo iogurtes, queijos. Olhava embalagens e fazia contas de cabeça enquanto puxava um carrinho cujo conteúdo me fez constatar que se tratava de uma dona-de-casa em sua terrível tarefa de alimentar marido e crianças. Pernas longas sob o jeans apertado, peitos de carne cujos bicos eu supunha tão escuros quanto seu cabelo, o rosto era somente lábios e olhos. Acompanhei-a: o meu caminho lento e trêmulo, uma de minhas mãos no bolso e na outra um cigarro que se fumava sozinho, esquecido porque Thereza sim deveria estar em minha boca, e não o tabaco. Uma avenida enorme os corredores do supermercado, e eu em minha busca, Thereza no passo que parecia ritmo de aceleração, os glúteos como dois olhos juntos e cegos que me acompanhavam mas que repousaram num caixa. E Thereza, entre cheque e sorriso, agradeceu por levarem as compras até seu carro. Motor até muito modesto para a velocidade que seu corpo imprime com a força de tantos cavalos. Depois vê-la derrapar e colocar os óculos escuros para o sol, virar à primeira esquina e tentar desaparecer.

ELA e EU

“Não sei o nome. São uns telefonemas não muito abusados. Até educados.”
“Acha que ele vai vê-la novamente?”
“Não sei. Eu disse quem eu era, disse que era Thereza, falei minha idade também.”
“Falou de mim?”
“Claro. E das crianças, filho e filha, casal quase adolescente. Falei que você não ia gostar nadinha de alguém telefonando, falando coisas. Contei que você trabalhava.”
“Disse onde eu trabalhava?”
“Não. Nem o horário. Nem o nome da firma e acho que ele desconhece meu sobrenome.”
“Acha que ele seguiu mesmo você?”
“É possível. No telefone ele diz que me viu num supermercado, e depois na minha aula de ginástica, quando fui ao dentista, ao shopping com as crianças. Ele está me seguindo mas acho que é inofensivo. Nunca se aproximou, não sei como ele é nem preciso saber.”
“Quando foi o último telefonema?”
“Ontem pela manhã. As crianças na escola, você trabalhando, chovia. Não gosto de chuva, você sabe, também nem quero saber de trovoada. O dia parecia tarde, nove, dez da manhã, eu acho, e tudo meio escurecido. O telefone tocou e era ele.”
“Sobre o que conversaram?”
“Sobre nada. Olha, estou me acostumando, parece que conheço o toque do telefone, sei que é ele. Começa perguntando como estou, depois recita um poema curto, sem história, faz umas pausas grandes no telefone, acho que espera que eu diga alguma coisa, alguma coisa do tipo isso que você disse é bonito. Mas eu não digo, porque no fundo dizer alguma coisa é pedir que ele ligue novamente.”
“Mas ele liga novamente.”
“Liga porque não deve ter o que fazer. Ele me contou que é rico, e que não trabalha. Então gasta o tempo ligando para as pessoas, deve ser isso.”
“Ele liga para outras mulheres?”
“Fiz essa pergunta. É apenas uma curiosidade, não quer dizer nada. Ele falou que não. Que só liga para mim e vai continuar as ligações até que eu me encontre com ele. Pode ser em lugar público, ele disse.”
“Quer se encontrar com ele?”
“Claro que não. Tenho muito que fazer, tenho mais em que pensar.”
“Como são os poemas?”
“Não sei, não me lembro. São frases ligeiras, que falam de amor, de sentimentos, nada de vulgaridade, erotismo. Ele diz que são poemas dele, um milhão de poemas ele diz que tem em casa, todos com meu nome dentro. Fala em flores, em cheiros e gostos, fala em açúcar, mel, estrelas e marés. Um poema sempre diferente do outro, mas sempre eu nele, destacada.”
“Ele aparece nos poemas?”
“Não sei, acho que não. É a visão dele, o que ele pensa de mim, mas ele, ali, em carne e osso, acho que não aparece. Não me lembro, acho que não, não sei.”
“Ele não fala de si mesmo?”
“Não sei o nome, não sei o signo, altura, peso, forma, não sei quem é.”

ELE

É claro que segui Thereza. Carro de cor fácil e placa mais fácil ainda para olhos treinados como os meus, que viram Thereza e sempre vêem quando querem. Segui-a e sei seu endereço, telefone. Meu dia é simples: acordo com Thereza nos braços, levo-a até o banho quente, escovo-lhe os dentes e há café para dois. Então a vejo exposta em meus quadros, deitada em meu sofá, espreguiçada ainda como um animal que acorda com olhos não muito abertos, vejo-a andar pela casa, seminua, ir até a geladeira, voltar ao banheiro, olhar o dia, folhear os jornais sem lê-los, ouvir música enquanto sorri. Eu, também animal seminu, observo que sua carne é ainda mais sólida do que foi durante a semana que passou – eu e ela em maratona, corrida: um querendo chegar ao corpo do outro mais rapidamente, alcançar e resolver o que há de tão importante e de tão glandular. O gato que tem nos olhos, o dragão alucinado que solta fogo, o antílope de membros duros, todo o bestiário que amo e pelo qual me desespero. Thereza é assim e não como insiste por telefone. Diz que não devo ligar mais, mas sei que gostaria de dizer o contrário porque nada do que falo é injúria ou surpresa. Tem uma vida simples, eu sei, vida de sonhos que se resumem domésticos, nada de muito especial. Seus desejos mais ternos encontraram o abismo de uma rotina feita à base de idas ao supermercado, ginástica, açougue, algumas poucas reuniões de amigas, jogos de cartas, um cineminha muito de vez em quando. Nem sempre acompanhada, evita, é claro, olhares de homens como eu, que passam e voltam o corpo e os hormônios se revoltam. Sempre em linha reta, como se tivesse um objetivo a cumprir, e a carnadura em seu quique silencioso e ritmado, a mão às vezes nos cabelos, também às vezes olhando o outro lado da rua, mirando um ponto invisível que não sou eu, a segui-la pelo bairro. Não há estranheza em meu comportamento já que assim é minha vida: Thereza e meus poemas.

ELA e EU

“E as crianças?”
“Já almoçaram. Você demorou, mas eu quis esperar.”
“E com você, tudo bem?”
“Tudo bem, nada de anormal. Como sempre.”
“Ele telefonou?”
“Telefonou.”
“Outro poema?”
“Diz que sou luz, iluminação. Disse que me viu na rua, andando.”
“O que mais?”
“Perguntou se eu não quero conhecê-lo. Pergunta sempre, mas não me interesso.”
“Falaram durante muito tempo?”
“Uns dez minutos, talvez.”
“Luz e iluminação?”
“E também sabor. Uma coisa com muito sabor, ele disse. No fundo ele é engraçado.”
“Gosta da voz dele?”
“É bonita, grave e segura. Deve escrever o que me diz, deve estar lendo, por isso não gagueja, e pausa bem as palavras. Às vezes a voz fica seca, não se irrita nunca, mesmo quando desligo.”
“Desliga?”
“De vez em quando não estou com paciência nem tempo. Panelas no fogo, empregada pra vigiar, organizar alguma coisa em casa. Então desligo e quando ele liga, no outro dia, não faz menção. Nunca me disse que estava furioso nem me cobrou comportamento. Nunca reinicia a conversa, sempre é algo novo, um poema diferente, mas que mantém alguns pontos freqüentes. Eu, beleza, amor, impressões.”
“Amor?”
“Não deve ser amor de verdade, é claro. Não isso que sinto por você ou você por mim, claro que não. Ele fala amor de um jeito estranho, sem doçura, e em voz alta. Falar de amor é falar baixinho, no ouvido, cara a cara, no escuro. Quando ele fala de luz, por exemplo, não me importo. Também não fico chateada quando ele enumera minhas qualidades de mulher, nem quando se dá o trabalho de me seguir pelas ruas, mas quando ele resolve falar de amor eu não gosto. Sinto que não é verdade, é artificial.”
“Fica triste?”
“Logo esqueço.”
“O que mais ele disse? Perguntou por mim?”
“Não. Ele me falou, num telefonema anterior, que não se interessava. Não queria saber de você. Nem sequer menciona minha vida conjugal, meu marido, filhos, meu dia-a-dia de mulher comprometida.”
“E você?”
“Acho que eu gostaria de falar mas ele não me dá chance de eu dizer quem você é e que vivo numa família muito feliz, com dois filhos saudáveis, bonitos. Só se interessa por mim.”

ELE

Thereza está no closet, entre minhas roupas e meu cheiro. O seu corpo está frio por conta dessa estação de julho, ar gelado que rasga as janelas. Ancas. Tudo o que vejo agora são ancas, cada dia um novo elemento anatômico. Já foram pernas, braços, olhos, tornozelos, mas hoje são ancas que se revigoram no frio. Enlaço-a por trás, meu pau sua vertigem que ela rejeita mas sorri porque todos os elogios e reverências desabam sobre a exuberância de quem deve ter sido atleta, ginasta, fundista, saltadora. Vira-se e me empurra para a cama, sobre o edredom. As janelas são fechadas para que seus tríceps relaxem, seus olhos se fecham, minhas mãos como as de um cego que nada conhece. Quer que eu me sente, e implora que eu me mantenha duro como quando uso a voz a seu ouvido, minha língua que atravessa a distância e alcança seus ligamentos. Quer que eu nunca me recolha, que entre nela cheio de massa furiosa porque é assim que ela me vê: o homem que lhe pode arrancar os pedaços e juntá-los novamente. Penetro a sua carne aos poucos, e nos seus olhos a luz se apaga no mesmo ritmo. Vejo Thereza fechá-los e abri-los paulatinamente, sorrindo, enquanto imponho minha ginástica. Sinto seus pêlos roçarem meu púbis e ouço-a rir e pedir e dizer e sonhar. Depois, relaxada, ela se solta sobre a cama, sem palavras e força, nua e ainda sorrindo.

ELA e EU

“O que mais?”
“Ah, foi falando, insistindo para que eu o conheça. Acho que é brincadeira.”
“Mesmo?”
“Está se divertindo. Veja só! Liga pra ouvir minha voz.”
“Há quanto tempo está ligando?”
“Mais ou menos um mês, acho.”
“Liga todo dia, não?”
“Todo dia.”

ELE

Vi Thereza entrar no carro, estacionado frente ao edifício Mar do Norte. Mora num apartamento de três quartos, cento e vinte metros quadrados, varanda não muito espaçosa, vista daqui, de onde estou. O prédio tem salão de festas, coisa tímida, e há um playground. São quatro unidades em cada andar, num total de cinqüenta e dois apartamentos. Thereza mora no 11º, e tem uma boa vista da cidade até o momento em que a especulação imobiliária permitir. Ou eu, se ela quiser. Roupagem, de cima para baixo: os cabelos estão arrumados sem muito capricho, os mesmos óculos para um sol tímido, calça lee justa, camiseta bege com palavras em inglês à frente, tênis cuja cor não posso distinguir, mas talvez também bege, para combinar. Seu carro é um fiat sem luxo, cor branca e silencioso. Entro no meu carro e acompanho seu trajeto. Evito emparelhar no sinal, e seria fácil alcançá-la porque é motorista prudente ou iniciante: vai devagar pelas ruas, quase caminha. Sabe que eu a sigo e não quer que a perca. Será nosso assunto, amanhã, quando eu ligar entre dez e onze da manhã, meu horário que é costume e sei que ela me espera. Crianças no colégio, marido no trabalho, o sol enchendo o dia, Thereza à beira do telefone, à espera para um alô de pouco som, tímido. O fiat encosta frente a uma floricultura em cujos espaços Thereza entra para sair muito imediatamente, buquê nas mãos, ainda os óculos, mordisca o lábio inferior duas vezes e a sensação que tenho é de tudo um mistério, embora mísero e frágil porque nada de anormal em uma mulher como Thereza ir às flores. No fiat, novamente à própria casa, subir as escadas e eu acompanhar com os olhos até que seus quadris e pernas desapareçam na portaria. Também vejo Thereza dentro de meu carro, a meu lado, cabelo contido numa das mãos porque há vento e estamos numa estrada na qual testo o potente motor de meu carro. Olha-me como se me elogiasse por minha perícia ao volante, embora me peça que vá menos ligeiro, é apenas um passeio, ela diz. Montanhas, mar à vista, pontes, e os carinhos de Thereza que na verdade me atrapalham mas que não desprezo, a mão hábil vasculha meu corpo imóvel, abre o zíper e me encontra em estado pleno de aptidão. Apenas os pés no controle e as mãos no volante. O resto é seu. Para completar, a brisa que me acolhe e os lábios de Thereza em minha barba bem feita. Paro o carro, afasto-me da estrada e, juntos, sobre o capô, olhamos o mar ao longe, e também vejo Thereza rir. Gosto de Thereza rindo, mas sobre o carro prefiro vê-la com os olhos em mim, minha vida na sua, meu gozo que é espuma em seu corpo que é onda.

ELA e EU

“Por que o sorriso?”
“Nada. Sem motivos, nada especial. Que tal?”
“Bonito arranjo, bonitas flores.”
“Gostou? Comprei ontem mas você nem ligou.”
“Não reparei. E então?”
“Então?”
“Os telefonemas.”
“Ligou pela manhã, disse que me viu sair de casa, ir à floricultura. Acompanhou de longe, dentro do carro.”
“Qual o carro dele?”
“Nem tenho idéia, não perguntei.”
“Mais algum poema?”
“Um inteiro, grande desta vez. Falava de mar, flores, carros velozes.”
“E de você, é claro.”
“Claro. Um poema bonito, com rimas. Ele disse que era mais que um poema. Era uma homenagem, uma oração.”
“Ainda quer encontrar você?”
“Neste poema há um encontro. Eu e ele numa praia.”
“E o que acontece?”
“Ele fica me olhando e eu pra ele, e sorrimos. Isso, isso mesmo. Ficamos olhando um pro outro e mais nada.”
“Nenhum toque? Ele não encosta em você?”
“Não há vulgaridade. Se ele está querendo se divertir, consegue o mesmo comigo.”
“Você se diverte?”
“Nada de nocivo nos telefonemas dele. Até me distraio.”
“Espera ansiosa?”
“Não, não. Não posso afirmar que tenho muito prazer em falar com ele.”
“E se ele esquecesse você?”
“Não ia fazer falta.”
“E quanto ao amor?”
“Não existe amor.”

ELE

Thereza é múltipla. Antes eu reservava meus dias para mim, e isso incluía outras mulheres, outros nomes e situações. Hoje não: ligo e volto a ligar e faço disso meu dia, assim como segui-la e vê-la tornou-se meu hábito, mas de nada adianta porque apenas me ouve e nada diz. Acompanha silenciosa minhas palavras ou faz uma outra voz como se o que digo não importasse como importam os almoços que faz para a família, roupas que devem ser lavadas e arrumadas nos armários respectivos. Thereza é múltipla porque funciona de várias maneiras, dentro e fora de meus poemas, meus versos extenuados, vírgulas, minhas metáforas sofridas. Antes, muito antes dela, alfabeticamente, vieram Ana, e depois Fabrícia, Flávia, Helina, Joana – todas que não foram Thereza nem sequer minhas imagens, versos. Dor é imaginar o que agora faz sem mim, num outro mundo, e o que diz e partilha. É um longo dia esse meu, com visões em que Thereza refulge e desaparece, névoa até que o dia se torna noite. Não sabe quem sou nem saberá. Agora anda pela casa, shortinho, blusa com estampa, despojada, cobrindo o terreno pelo qual eu daria longas passadas, estacionando-me sobre. Thereza no banho: rápida ou lenta com a esponja, despreocupada de telefone e campainha, doce no toque do próprio corpo, espuma sobre metal moreno. Ela e sua delícia misteriosa, estranha sensação que é boa ao ouvir na lembrança minha voz que não lhe sai. Um tímido suspiro solitário, depois. Thereza e a toalha, frente ao espelho, como veio ao mundo e como vem a mim, os quadris que observo, os peitos durinhos de soberba, o cabelo molhado, o púbis em fogo e líquido mas a calcinha seu escudo contra mim.

ELA e EU

“E o seu dia?”
“Muito trabalho.”
“Você parece cansado.”
“Bastante. E você?”
“Tudo normal. Reunião na escola das crianças, amanhã.”
“Acho difícil.”
“Tudo bem, vou sozinha.”
“Nenhuma novidade?”
“Ele ligou bem cedo, logo que você saiu, uns vinte minutos depois. Não estava esperando.”
“Mais poemas?”
“É. Falei pra ele que dava pra editar um livro, brinquei. Ele ficou em silêncio.”
“Conversaram muito tempo?”
“Não é exatamente uma conversa. Ele diz alô e eu respondo. Depois ele começa a recitar o poema, os versos do dia. Pergunta se gostei e eu geralmente gosto mas fico em silêncio. Ele se satisfaz. Já insistiu para um encontro, mas desistiu, eu acho. Não digo nada, nada, só ouço. Então não é uma conversa. Acha ele perigoso?”
“O que você acha?”
“Não sei. Acho que não. Um dia pára de ligar, e esquece.”
“Esperemos, então.”
“Está preocupado?”

ELE

Imagino a nudez de Thereza que não é nudez mas uma revelação pura de natureza e plástico. Sob mim, a grama e planícies, o recôncavo. Thereza num poema curtíssimo, de sete letras que são seu nome, suas atitudes, seu gozo feito de planetas desalinhados, em desordem: aos urros está Thereza e aos gritos estou eu, agora seco porque ela me levou tudo, músculos, ossos, saliva e sêmen.

ELA e EU

“Chegou mais cedo.”
“Sem muito trabalho. Acontece.”
“Tudo bem?”
“Tudo.”
“Hoje ele não telefonou.”
“Não telefonou?”
“Não. Até estranhei. Talvez tenha desistido. Isso eu acho bom.”
“Acha mesmo?”
“Claro.”
“Talvez esteja viajando.”
“Pode ser. Mas me sinto aliviada. Todo dia, todo dia.”
“E as crianças?”
“No quarto. Videogame, claro. Não gosto, é o tempo todo nisso.”
“Será que ele desistiu?”
“Quem?”

ELE

Pois é assim que amo Thereza: eu do outro lado da linha e não como agora, eu, ela e filhos. Do outro lado da linha e da cidade, morto de inveja e de estranho medo de que ela me descubra. Não sabe quem sou nem o que faço, nem imagina que sou o mesmo de sempre, seu homem de cama e banho há anos, que só desse modo consegue amá-la, clandestino variando vozes e maneiras, insistindo em encontros porque sei que vai evitá-los mas sorrirá às minhas palavras, rimas. E será sempre a minha Thereza, o mesmo corpo que dilacero à noite, na escuridão. E perfuro seu púbis até vê-la sentir que a amo verdadeiramente. Resumo seu sabor inteiro num momento em que ela implora que eu nunca seja outro, que eu tenha a mesma cor e musculatura e disposição para ouvi-la recitar obscenidades enquanto jorra seu suor de ótimo cheiro e pede que eu faça mais e muito e tanto e sempre. Voltarei ao telefone amanhã, com um álibi inquestionável e um poema de desculpas que mirabolam minha cabeça. Thereza merece poemas, como merece também que eu olhe seu rosto agora, mirando um ponto escuro da janela, o mar à nossa frente, e pensa em mim. Vou até o banho retirar o peso de um dia inteiro e iniciar, sob o chuveiro, o poema de amanhã, porque só assim sou capaz de amá-la, e então enviá-la a planetas distantes e fazê-la voltar à Terra, em pedaços.

Janelas (conto publicado em LICANTROPO, 2001)

Publicado em 07/02/2008, às 19:43, por Grijó


O pior momento para o suicida, isso posso dizer com conhecimento de causa, é a espera. O tempo, para um apologista da própria morte, se resume num sofrimento pior que a morte, se é que ela, no meu caso, implicará sofrimento. Possivelmente não. O suicida é, em geral, um calculista, já que se matar requer planejamento e, é claro, uma boa justificativa, para que seu nome, no futuro, não seja proferido em vão de forma debochada e aleatória. Suicidas de fato, aqueles cujas vidas sempre foram marcadas por capítulos de padecimento amplo em todas as direções, merecem respeito e renome. A morte é a redenção, o epílogo da longa jornada degradante, o instante máximo do ser humano banal.

Meu nome é Fernando. Nando para a ex-namorada, que nada teve a ver com minha decisão de morrer. Nando para os amigos chegados – se é que existem, se é que um suicida pode se dar o luxo de possuir amigos e aproveitar sua intimidade. Neste momento estou no meu apartamento, no 12° andar do edifício Serafini, uma construção erigida há vinte anos, tão sólida quanto mal cuidada, quatro apartamentos por andar. Tenho trinta anos, completados em setembro último. Meus parentes mais próximos são pai, mãe e uma irmã de vinte e um anos. Vejo-os quase sempre, pois moram no mesmo edifício, no 8° andar, fundos, não possuem uma vista como a minha. São amáveis comigo – tanto quanto pode ser amável uma família de classe média que se orgulha de possuir um filho médico, essa profissão que goza de status mas não de renda.

Decidi pelo suicídio às duas da tarde de hoje, mas já pensava nisso há semanas. São oito horas, noite escura e com muitas estrelas, pouco vento, o que me consola. Vou pular e fender o ar sem que haja muita resistência, apenas a gravidade fazendo seu papel. Não há muito que pensar ou ponderar. Considerações acerca do que pensarão sobre minha atitude nada significam para um corpo que em segundos será apenas sangue e ossos partidos, meus órgãos internos se tornarão sopa, meus miolos estarão espalhados pela calçada. Possivelmente, se alguém testemunhar esse fato, haverá gritos e choro, conjeturas e dúvidas. Não faz diferença.

Não acredito em dor física durante o caminho para a morte, neste caso. O suicida – o verdadeiro suicida e não um aprendiz, um diletante – não teme a dor e, se ela existisse, suportaria com certo deleite sua condição. Há um certo formigamento na região pélvica, devo confessar, mas nada que impeça um suicida de enfrentar sua empreitada em direção à morte. Retiro os óculos calmamente. Cheguei a pensar em encontrar a morte com o mesmo vestuário com que vim ao mundo, mas isso seria um gesto fútil, e não quero, nem de longe, parecer um exibicionista. Visto uma camisa clara de tom neutro, calças jeans e sapatos sem meia. Estou devidamente penteado e escovei os dentes há pouco, mas isso também não fará qualquer diferença. De acordo com meus cálculos, minha cabeça se separará do corpo e, com o choque, a arcada dentária será expulsa do crânio de forma espetacular, assim como os olhos. Isso considerando que a primeira parte do meu corpo a chocar-se com o chão não seja a cabeça.

Abro a janela e vislumbro a noite da Praia do Canto. São quase nove horas. Observo parte da avenida Saturnino de Brito, o início da praia de Camburi, a subida para o Sacré-Coeur. Observo também o fluxo de carros e pessoas. Como hoje é sexta-feira, o movimento nas redondezas estará intenso em, no máximo, uma hora. Respiro fundo não para tomar coragem, mas para tomar ar. Talvez precise dele até chegar ao chão, quando tudo será apenas uma legião de curiosos que observam um corpo que se esborrachou contra o cimento. Talvez haja por perto algum conhecido, alguém de minhas frágeis relações, é possível que as hipóteses quanto a meu propósito façam algum sentido, mas isso não importa agora, nem impedirá que eu me lance ao espaço.

Maiakovski entrou em depressão por conta do amor. Apaixonado por Tatiana Yakovleva, e não sendo correspondido, suicidou-se com um tiro no peito, em frente à praça Lubianka, em Moscou. Ernest Hemingway tentou suicídio cinco vezes; numa delas, tentou atirar-se contra as hélices de um avião, mas obteve sucesso pleno ao estourar o céu da boca com uma espingarda de dois canos. Santos Dumont enforcou-se com a própria gravata. A poeta Safo jogou-se de um penhasco. Petrônio, poeta latino, cortou a carótida com um punhal. Tchaikovski se matou bebendo propositalmente um copo de água não fervida durante uma epidemia de cólera que assolava a cidade em que vivia. Estou às vésperas de participar desse esquadrão de insurretos.

A primeira janela pela qual passo, em meu vôo cego, está escancarada, é possível ouvir vozes, eu diria gritos, que cortarão a noite e entrarão pela madrugada. É o apartamento de um homem solitário, como eu, mas que geralmente se faz acompanhar de uma mulher, acredito que uma namorada ou noiva, uma mulher de modos inquietos como os dele, parece nervosa, andando de um lado a outro da sala, as mãos nos cabelos. Senta-se para imediatamente levantar-se, mover a cabeça negativamente, como se não concordasse com o que diz o homem. Sei que se amam e que são violentos – uma união que não dará certo, mas quem pode dizer, na verdade, o que vai acontecer? Não sei seu nome, talvez Francisco ou Frederico, algo assim. O nome dela é Letícia, posso ouvi-lo berrar Letícia cada vez mais alto, e dizer que a ama, que é a mulher de sua vida, que não pode viver sem ela e que as outras mulheres nada significam, essas coisas que somos capazes de dizer enternecidamente, mas que funciona muito melhor aos gritos.

A janela do 10° andar também está aberta. A família se reúne para assistir à telenovela. Não a família completa, porque o filho maior, um adolescente de dezesseis anos, enclausura-se no sarcófago a que ele chama quarto, e passa boa parte da noite entre bandas de rock e revistas proibidas. Há quem reclame no edifício, mas seu pai é o síndico e as coisas se arrumam a partir daí. Na sala (tudo o que vejo e verei são salas) um casal no sofá, pai e mãe de outras duas filhas, menores, que se apóiam uma na outra para ver o galã que se mostra apenas de sunga na tela 29 polegadas. A mãe, uma mulher bem nutrida e de curvas que já foram elegantes, passa a língua disfarçadamente pelo lábio inferior, mas interrompe os maus pensamentos porque não está sozinha e de certa maneira lamenta isso. O marido parece sorrir silencioso porque nada vê, a não ser a imagem de Beth sem sobrenome, apenas Beth, a gostosa do sexto andar, com quem esteve há duas horas, ao chegar do trabalho, dentro do elevador. Ajudou-a a carregar uma grande mala cheia de roupas novas, que ela trouxera de BH para revender. É uma mulher de atributos, ele pensa. Mora sozinha, desquitada há pouco tempo, um mulherão de peitos grandes e ancas úberes, sempre com a barriguinha de fora, como uma adolescente. Qualquer dia vai tentar alguma coisa, porque ela provoca e deve ser daquelas que topam tudo na cama. É interrompido pelo gritinho da filha menor, de doze anos, que se exalta ao ver o galã da novela pular na piscina.

Outros que se insurgiram: Salvador Allende, o estadista chileno, atirou na própria têmpora, quando acuado no Palácio de La Moneda, em Santiago, durante o golpe militar que o deporia, se continuasse vivo. Estava de terno e gravata. Chet Baker, o trompetista, se jogou da janela de um hotel em Amsterdã, após ter entupido seu corpo de heroína. Meu vôo, assim como o de Baker, foi do 12° andar, uma distância razoável com a qual não se pode negociar. É uma sensação estranha, essa de não poder voltar atrás. Não é uma decisão de negócios ou algo contra o qual se possa apelar já que não há apelações nesse caso. A janela do 9° andar é gradeada porque há crianças pequenas que zanzam pela sala. Uma delas posso ver de relance, caminhando, com uma colher na mão, para um cômodo escuro. A babá intervém, levando-a de volta a uma outra parte da casa, no caso a cozinha. Os pais não estão em casa, devem estar numa festa, numa recepção ou apenas num bar fazendo hora até que as crianças durmam e eles possam, então, ficar em paz. Ainda posso ver, numa das paredes da sala, uma gravura com o rosto europeu de Cristo ressuscitado, uma gravura grande com moldura mal feita. A sala está vazia, por enquanto, e assim continuará até que a babá se comunique com os pais, dizendo que o campo está livre.

Há um pintor no edifício Serafini que mora no 8° andar. Não é um pintor profissional e sim professor de Biologia num curso pré-universitário. Talvez por esse motivo aprecie criar telas nas quais se podem ver anêmonas, ouriços e estrelas-do-mar. Conheço-o de cumprimentos, nada íntimo, mas há algo de taciturno em sua forma de andar, um tanto curvado e lento, assim como está agora, andando pela sala e ouvindo música. Uma sinfonia, é possível identificar, acho que Brahms. No fundo gostaria de ser fotógrafo, no fundo traz uma contida frustração em não registrar o mundo submarino de forma mais efetiva. Tem a idéia de expor as fotos que não fez – nem fará – numa universidade ou num centro de ciências, mas isso nunca acontecerá, ele sabe. Sua paixão – até onde sei – é a fauna e também a flora marinhas, e não a bela namorada que irrompe a sala nua e molhada, após o banho. O professor atuante e pintor malogrado toca-a nos quadris, devagar, como se estivesse diante de uma criatura metade peixe. Ela, a namorada (olhos tristes, amargurados, mas bonita), diz algo que não posso ouvir, mas parece sugerir que ele tire a roupa para começar algo que não poderão terminar. Antes de chegar ao 7° andar é preciso registrar que Mark Rothko, o pintor americano, cortou os pulsos numa banheira e, com seu próprio sangue, realizou sua última obra, uma tela intitulada Vermelho e Branco. É mais um para meu exército.

A janela do 7° andar está fechada. Não há moradores no apartamento. Sabe-se que o proprietário é um fazendeiro baiano cujos filhos, quando estudavam em Vitória, no final da década de 80, administravam o local. Um rapaz e uma moça, que retornaram à Bahia para trabalhar com o pai. Alguns vizinhos comentam – e há certa pervertida nostalgia nesses comentários – que os dois jovens proporcionavam aos amigos festas de arromba, música estridente, gritos, risos e bebida à vontade. Não me recordo dessas festas. O apartamento hoje é um sepulcro que não está à venda. Muito raramente, o pai fazendeiro dá as caras por aqui. Passa um ou dois dias na terra que abrigou suas crias e retorna aos bichos de corte, milhares de cabeças de gado, imagino. Não é de muitas palavras, dizem alguns moradores, mas parecia simpático, observou minha mãe, a quem ele cumprimentava sempre. Mas barulho de verdade ouço no 6° andar, no apartamento de Verônica. Pouco se sabe sobre ela, mas posso vê-la de meu ângulo, em queda livre. É uma mulher de beleza inflamada, olhos grandes como frutas maduras, acesos. A cor morena é ressaltada pelo cabelo castanho-claro, que me parece natural, bem diferente dessas afro-brasileiras que se pudessem renasceriam escandinavas. Verônica tem uns vinte e cinco anos, no máximo. Mora com uma tia quase tão bonita quanto ela, chamada Gláucia. Os moradores sequer suspeitam do ofício das duas, mas sei o que fazem porque vejo nesse momento que as duas se aproximam de dois homens, ambos sentados em poltronas coloridas, bastante à vontade, pois há gravatas sobre a mesinha de centro, posta de lado para a ocasião. Um deles está sem camisa. Os dois homens observam o espetáculo, e também eu, voando. Verônica e Gláucia, ambas nuas, dançam ao som de música nordestina. São capazes de milagres anatômicos com esse ritmo; os movimentos da pélvis, cheios de ótimos símbolos, fazem os homens esquecer da própria vida que levam, ao lado de suas prováveis esposas previsíveis e filhos que aporrinham e exigem mais do que eles querem ou podem oferecer. Verônica é um pouco mais alta que Gláucia. Sua ginástica diária – sempre a vejo voltando da academia, toalhinha sobre o ombro – criou no seu corpo um resultado perturbador: seus seios são volumosos e rijos, de mamilos pequenos e escuros, suas pernas são musculosas na medida exata, seus glúteos são de granito puro, com marcas minúsculas de biquíni. Gláucia, por sua vez, é mais velha, uns trinta e cinco, se muito. De costas para seu cliente, esbanja saúde e um desejo incontrolado num corpo magro e sinuoso, que faz seu possível parceiro passar a mão no rosto que começa a suar. Ainda me é possível ver Verônica enfiando a língua na boca do homem sem camisa. Gosto delas e há quem duvide de que sejam tia e sobrinha.

Há quem afirme que a causa do suicídio é quase sempre a frustração. É uma regra que se propõe geral, mas não acontece comigo. Não ansiei altos vôos na minha profissão, não desejei sucesso como clínico, nem almejei nada que eu não pudesse possuir – isso inclui finanças, mulheres e conhecimento razoável sobre política, arte, ciência e filosofia, assuntos que me interessam mas que nunca foram prioridade. Consegui trabalho assim que concluí meu curso de medicina, independi-me financeiramente de minha família, convivi com ela, como já disse, de forma amigável. Tenho alguns parentes mais próximos com os quais mantenho um relacionamento saudável. Encontramo-nos em reuniões familiares e há sempre uma certa reverência por parte deles, talvez porque eu seja o único médico da família e sempre é bom ter um médico por perto. No plano afetivo, tive algumas namoradas de quem gostei o suficiente para não esquecer os bons momentos que passamos juntos, mas apenas isso. A última delas, de nome Mariana, também médica, foi estudar no exterior, mas o relacionamento já havia perdido seu ritmo. Acho que foi bom para ela. Tenho – ou tinha – um bom lugar para morar, alguns bons livros, alguns bons discos, um carro e um emprego. O que um homem pode querer mais?

A possibilidade de sobreviver é nula, eu penso, enquanto caio. Mas pode acontecer. Robespierre, o político francês, tentou o suicídio antes de ser guilhotinado. Atirou-se do alto de uma janela da Câmara, mas sobreviveu. Não tenho essa intenção, mesmo porque Robespierre não iniciou sua investida contra a própria vida tão distante do chão quanto eu. Talvez agora estejamos em pé de igualdade, quando passo pelo 5° andar e vejo vários jovens sentados em volta de uma pequena mesa circular. Sobre ela há um copo vazio de ponta cabeça e vários papéis recortados – também retangulares – que circulam o copo. Estão calados e parecem concentrados, como se estivessem num transe coletivo, rezam em voz alta, uníssonos, convocando ectoplasmas a participar da pequena reunião de luzes apagadas e contatos com o além-túmulo. São sete jovens, três rapazes e quatro moças, devem regular a mesma idade. Começaram a reunião bem cedo pois há cinzeiros abarrotados de guimbas e duas garrafas de coca litro vazias. Uma das garotas, uma ruivinha com sardas – atraente até, começa a chorar. Leva as mãos ao rosto enquanto tentam consolá-la, abraçando-a, mas há os que temem sua reação e se assustam. Um jovem de cabelos encaracolados se levanta, gesticula, caminha até uma parede, aperta o interruptor e a sala se ilumina. A ruivinha chorosa se levanta e novamente se senta, agora sobre algumas almofadas. Estávamos chegando lá, pude ouvir dizer um deles.

O percurso é longo até o chão. O céu continua estrelado, mas observo que algumas nuvens se formam, e por trás de uma delas a lua se mostra. Imagino que, após minha morte violenta – porque assim será –, muitos não entenderão minha opção pela queda. Alguns dirão que optei por uma morte indolor. Não é por isso. Outros, utilizando-se de má poesia, dirão que eu tinha uma alma pássara, como afirmaram sobre o suicídio de Ana Cristina César, a poeta que se jogou do sétimo andar do edifício em que morava. Também não é isso. Cheguei a pensar em envenenamento, como fizeram os filósofos Sócrates e Aristóteles, que ingeriram cicuta, ou como os escritores Walter Benjamin e Jack London, que se mataram com altas doses de morfina. Mas se tivesse optado por ingestão de alguma substância letal, eu estaria agora em um de meus aposentos, estirado sobre o chão ou sobre a cama, tendo minhas entranhas laceradas pelo veneno. Estaria deitado à espera da morte e não contemplando a bailarina do 4° andar. Já passa das nove e o que faz uma garota – dezoito anos de intensa alegria – em casa, numa sexta à noite? Não se veste como uma bailarina, usa um short de lycra azul-marinho e uma camisa larga, alguns números maior do que seu tronco necessita. Não é bonita, mas a graça de seus movimentos lhe confere luz. É suave ao executar os cinco arabesques, o quatrième derrière e também o croisé, o écarté devant, os vários battements. Seu corpo é alegre e vivaz, suas pernas têm a tenacidade macia adquirida por anos de treinamento exaustivo. Não usa espelho, convicta de que suas evoluções, cheias de minúcia, não precisam de testemunha. Se houvesse tempo, eu a aplaudiria como certamente será ovacionada num futuro próximo. Mas há algo que me desconforta: a danseuse do Serafini, numa pirouette, é capaz de me olhar nos olhos, enquanto passo em velocidade por sua janela.

Um casal de velhos vive num dos apartamentos do 3° andar, por onde passo agora, em minha descida. Tinham uma filha, que morreu há dois anos, num acidente de carro, quando voltava de Guarapari, em companhia do noivo, que morreu a caminho do hospital. Minha mãe os conhece e reza por eles, assim como rezou pela alma da filha, uma moça tão nova e tão bonita. Estão sentados, mas distantes. Ela, a velha senhora, limpa os óculos no momento em que a vejo. Diante da televisão, parece absorvida – mas é apenas aparência – pelas atrações de sexta à noite. Tanto faz que seja uma reportagem de interesse ou um desenho animado. Não faz diferença. Desde que a filha se foi seus olhos não se fixam a nenhum assunto, seus ouvidos não querem ouvir, seu corpo franzino continua a funcionar por absoluto costume, acordar, comer, dormir. Seu marido, um homem de olhos fundos e também de óculos, sentado à mesa, joga paciência. Ao lado das cartas que compõem filas, há um copo com água. O silêncio é a infinita dor, ele pensa mas não chega a falar, pois a única voz que a velha senhora ouve, mas à qual não chega a dar atenção, é a de um apresentador de tevê.

A velocidade parece diminuir, mas é apenas impressão, quando chego ao 2° andar. As luzes estão apagadas, o apartamento está para alugar já há algum tempo, mas imagino que o preço esteja alto. A especulação imobiliária inflacionou o preço dos aluguéis. O que será feito de meu apartamento, a partir de amanhã, quando eu for considerado um estranho lunático que se atirou do alto, ou daqui a alguns meses, quando eu me tornar somente uma lembrança para a família? O que dirão meus pais quando se conjeturar que eu posso ter sido lançado ao espaço por uma antiga namorada? Não deixei um bilhete de despedida, esse clichê suicida, nem telefonei aos mais chegados, não deixei pistas que possam revelar o verdadeiro motivo de meu suicídio. O que é pior, na verdade? A morte ou as especulações sobre sua causa? A escuridão do apartamento no 2° andar não me causa boa impressão – mas, a essa altura, o que pode me impressionar?

O 1° andar está a nove metros do chão, aproximadamente. Sei que, da rua, posso ser visto mais nitidamente, embora a velocidade seja maior, ou aparentemente maior, para quem vê. Não importa. Como não sei nadar, poderia ter-me jogado no mar, como fez Florbela Espanca, a poeta portuguesa, ou Frederico I, o Barba-Roxa, que se lançou nas águas do rio Selef, da Cilícia. Teria preservado minha ossatura por alguns dias, até que os peixes me tornassem irreconhecível. Muito próximo do chão, mas ainda assim capaz de perceber, da janela, que uma festa de aniversário se realiza. Impossível identificar se o homenageado é homem ou mulher, criança ou adulto. Conversam animadamente, balançam os corpos ao som de música inaudível, gestos e risos. Vejo um homem de bigode espesso encostar-se em uma loura oxigenada, próxima à janela, mas fracassará em sua tentativa porque ele é velho demais e ela uma ex-ninfeta que já deve andar pelas próprias pernas. Nenhum dos dois me vê porque eles têm algo melhor a fazer. Passo por eles, veloz, assim como chego a ver as portas da entrada do edifício, com vidros jateados, algumas poltronas próximas a Heloíno, o porteiro da noite, de costas para mim.

A morte está próxima. Alguém disse que um suicida em queda livre morre antes de chegar ao chão. Não é verdade. Dizem que o coração não agüenta e que a força do atrito com o ar é de tamanha violência (pelo menos da altura em que me lancei) que os sentidos se interrompem. Também não é verdade. A proximidade da morte, ao contrário, alerta os sentidos, isso eu posso confirmar. Ouve-se melhor, vê-se com mais clareza, o olfato é amplificado. É uma sensação boa, o minuto, o segundo antes da morte, o instante derradeiro. Bem diferente, imagino, da agonia numa cama de hospital. Diferente de cortar os pulsos ou ingerir grande quantidade de drogas. Posso ver a lua quase escondida pelas nuvens. Amanhã, sábado, será um dia diferente para muitos – eu incluído, concluo, enquanto o chão se aproxima.

A Entrevista (do livro TODAS ELAS, AGORA, inédito)

Publicado em 29/09/2007, às 18:16, por Grijó


Sala, mobília, quadros, noite de outono.
Eduarda e Camila sentadas num grande sofá.
Vodca.

EDUARDA
Dê então três adjetivos para ele.

CAMILA
Rude, aleivoso, pernóstico.

EDUARDA
Mas você acredita que a rudeza de um homem não reside na maneira como ele anda, come, nada, cumprimenta ou fala. A rudeza não está no na intenção? Afinal, é você mesma quem diz em sua tese*, um homem não é própria e necessariamente o que ele faz, mas o que ele pensa. Suas atitudes revelam pouco.

CAMILA
A rudeza nele é evidente. Ele concluiu, baseado em suas experiências anteriores, que as mulheres existem para o consumo gonádico, para o equilíbrio seminal, ou seja: elas são depositárias de esperma não-fecundante (ele odiaria ser pai), seja na prática do coito ou na fantasia do auto-erotismo. Ao se masturbar, direciona seu desejo para a imagem feminina, assoberbando-se da sua virilidade jactante. E gosta de ver o resultado do gozo venéreo: a maioria dos homens, durante a ejaculação solitária, abre os olhos, como forma de jubilar-se diante de sua obra de arte. Isso é ser rude, é não ver além do que o olho alcança.

EDUARDA
Você o classificaria como narcisista, egoísta?

CAMILA
São adjetivos indissociáveis. Como todo presumido artista, não importa a área a que esteja ligado. Nada importa além de sua arte. É como uma criança, para a qual as fezes são seu melhor e mais valoroso produto, sua obra máxima, a ser partilhada com quem se aproxima. Escrever um livro, fazer um filme, tocar um instrumento e pintar um quadro equivalem, em última análise, a fazer cocô. Muita gente já disse isso, está comprovado.

EDUARDA
Como vocês se conheceram?

CAMILA
Nós nos vimos pela primeira vez há quatro anos, quando iniciei meus estudos acerca da sexualidade in vitro. A minha teoria, hoje comprovada e que fez de mim uma mulher respeitada, propunha que o sêmen, dentro do organismo masculino, tem vontades sexuais que extrapolam a mera perpetuação da espécie, a reles fecundação. Espermatozóides não lutam entre si apenas para constatar, ao final, quem será o feliz campeão numa corrida rumo a seu destino único, o óvulo. A sua fúria mitocondrial pressupõe mais que isso. Há prazer nessa batalha, um prazer distinto de nossa vida material – carbônica, glicósica, mental –, algo que não pode ser analisado por metodologia freudiana nem por qualquer outra teoria psicológica ou psicanalítica. Somente ele, o prazer amplo, em todos os sentidos, criaria essa batalha tão infernal pelo primeiro lugar. E o macho em formação, a partir de determinada idade, busca repetir essa façanha heróica, e carrega isso para toda a vida, esse processo de aventura e poder, a que eu chamo, em minha tese, de compos sui, ou senhor de si, em latim. Eu expus essa tese e ele riu. Depois eu o convidei para jantar, confrontei-o, e após dois dias estávamos na cama.

EDUARDA
Ele é um estudioso, como você?

CAMILA
Ele se diz um artista, é pintor. Até hoje vendeu cinco ou seis quadros, mas mantém a pose. Fuma cigarro com piteira, seu relógio é de bolso, gosta de citar autores alemães, diz que lê filosofia e ouve jazz porque todo intelectual gosta de jazz ou pelo menos diz que gosta. Usa chapéu fairfax, da Miller, e seu guarda-roupa é despojadamente escolhido, seleção a dedo. É vaidoso com os cabelos e com as sobrancelhas, faz ginástica às escondidas, come pouco e bebe comedidamente, e sei que pretende fazer plástica. Sem trocadilhos, por favor. Quer saber qual o maior exemplo do pernosticismo dele? Ele não conversa sobre pintura, não emite opiniões sobre grandes mestres e despreza o que é dito sobre seus quadros, sobre suas exposições. A pintura, diz ele, é para ser vista, sentida, apreciada e vendida, não para ser comentada. Ele ri dos críticos.

EDUARDA
Você disse que ele debochou de sua tese e acabaram na cama. Seria então um clássico exemplo do sexo como conseqüência do descaso, do riso?

CAMILA
Você é uma mulher bonita, como eu. Homens que riem de nós têm algo a mostrar e muito a esconder. O riso pode ser interpretado como uma expressão contumeliosa, principalmente quando você encara o que faz e o que sente com seriedade. Em meu novo livro*, ainda não concluído e destinado às mulheres, tento comprovar – e ouso afirmar que tenho certo sucesso nisso – que a intolerância das mulheres em relação ao desprezo masculino tem origem uterina. O útero não suporta a solidão, o mênstruo é uma prova disso. Nós não suportamos o descaso. Não temos tanta necessidade assim do companheirismo, mas não lidamos bem com o desprezo. Daí eu e ele termos ido para a cama. Devo concordar que foi bom.

EDUARDA
Fale mais sobre isso.

CAMILA
Ele me fodeu como se eu fosse a última mulher de sua vida. Seu líquido se espalhou pelo meu corpo como um rio torrencial. Ele virou-me ao avesso e depois me trouxe à forma normal, para depois me dobrar e me esticar e me comprimir. Ele fez de mim o que queria. Eu me sentia feita de borracha e de plástico e de cera porque eu me derretia. O pênis dele é a cauda de um dragão, é um monolito indestrutível, suas mãos são hábeis, seus olhos são furiosos e o mais importante, ele mantém a ereção por horas e horas, até o esgotamento feminino. Não conheci homem como ele. Depois, suado mas não destruído, pronto pra outra, ele fuma o cigarro com piteira.

EDUARDA
A manutenção da ereção peniana, tendo como conseqüência a busca do gozo da parceira, não é um exemplo de generosidade e de companheirismo?

CAMILA
Prefiro dizer exibicionismo, arrogância, bazófia. E uma certa contradição: para um homem que vê as mulheres como armazenadoras de esperma, o prazer feminino se torna, no mínimo, uma ironia. Não há necessidade de exibicionismo na cama. Ele já possui os quadros, que são o resultado de todo o seu pedantismo. É reconhecido como um artista talentoso, principalmente por si mesmo. Humildade faz bem, às vezes.

EDUARDA
Você disse que ele é aleivoso. Você se refere a adultério?

CAMILA
Não, claro que não. Não considero o adultério um comportamento vil. Penso que ele seja necessário a ambas as partes como forma de libertação do marasmo quotidiano. A hipócrita moralidade judaico-cristã fez dele uma prática ignóbil e demoníaca, sacralizando a frágil monogamia e condenando o prazer libidinoso. Nunca me importei com os casos amorosos dele. É um pintor, um artista, e aos artistas tudo é permitido. Quer saber? Uma vez voltei mais cedo para casa, à tarde, e uma de minhas boas amigas estava nua, montada em cima dele, no sofá, uivando como uma bruxa na fogueira porque o que ele fazia o marido dela nem sabia que era possível e permitido fazer. Soube depois que ele havia comido todas as minhas amigas próximas, sem exceção, uma por uma, em fila e pela ordem do alfabeto. Para mim nada mudou, e seria conveniente que elas soubessem que não passam de meros reservatórios espérmicos, mas elas não precisam se preocupar porque ele é infértil como uma latinha vazia de refrigerante. Ele abomina a paternidade. Devo confessar – sei que não é para isso que você está aqui, mas talvez seja importante você saber – que senti ciúmes em algumas vezes, mas nada que me fizesse, por exemplo, ficar enfurecida ou querer separar-me dele. Quando eu disse aleivosia, referi-me a seu trabalho e à maneira como ele vê o mundo e as pessoas, sua falta de autenticidade, seu logro. Aquela coisa de citar filósofos alemães sem saber alemão, de cruzar as pernas com a afetação de um sumo-sacerdote, de ludibriar todo o mundo com seu pseudo-conhecimento jazístico. Isso é aleivosia. É zombeteiro porque isso é seu resguardo contra a erudição alheia.

EDUARDA
Há quanto tempo vivem juntos?

CAMILA
Há dois anos. Ficamos um tempo vivendo em casas separadas até que sugeri que ele viesse viver aqui. Esta casa é maior, há espaço para ele pintar os quadros e colocar os livros que ele não lê. Antes ele vivia num furdúncio em que mal cabiam os cavaletes e as tintas, e recebia visitas indesejáveis e fazia muito calor nos dias quentes. Ele veio para cá, estava satisfeito, mas fingia que nada havia mudado. Minha tese estava em vias de publicação e tradução, eu passava muito tempo diante de um computador, escrevendo, trabalhando, tomando notas, pesquisando. E ele não fazia outra coisa a não ser rir e desprezar. Exceção, claro, para o coito. E para as músicas que ouvia, em volume baixo porque, segundo ele, somente os lagalhés ouvem música alta. O jazz, diz ele, é para ser sorvido como uma taça de Hollera monje, um vinho produzido em Tenerife, um tinto de maceração carbônica nascido das uvas Listan Negro, diz ele. Já decorei essa fala, de tanto que ouvi. É engraçado.

EDUARDA
Ele tem vícios?

CAMILA
Ele bebe pouco. Não fuma maconha, não consome drogas ilegais. Ao contrário: pratica ginástica, gosta de nadar e correr, mas faz tudo às escondidas, cuida do corpo e da mente, mens agitat molem, o espírito move a matéria, é o que ele diz. Gosta de usar o latim. Fuma um pouco, mas sempre cigarros, e com piteira.

EDUARDA
Família?

CAMILA
Um irmão, jornalista, com quem não tem muito contato. Nunca o vi, embora tenha conversado com ele por telefone, algumas vezes. Os pais são falecidos. Alguns primos, encontros fortuitos, geralmente em comemorações de fim-de-ano. É um solitário.

EDUARDA
É um homem violento?

CAMILA
Não, em absoluto. De forma alguma.

EDUARDA
Falemos dos casamentos anteriores dele.

CAMILA
Sua primeira mulher foi uma atriz de nome Cibelle, uma tonta que acreditava nele, admirava-o e que insistia em ser mãe, ter um punhado de filhos, daí ele tê-la abandonado. Para não correr riscos, assim que ele se separou dela, procurou um médico seu amigo e esterilizou-se. Ele gosta de saber que seu sêmen irriga o corpo feminino numa quantidade impressionante, isso é verdade, mas quer garantir que não haverá inconvenientes a partir disso. Você não precisa ter esse tipo de preocupação. Imagino que você, na sua idade, não queira ser mãe.

EDUARDA
É uma condição fundamental, não é?

CAMILA
É uma exigência dele, a qual cumpro sem discutir. Voltemos às outras mulheres. A segunda esposa foi Lucinda, uma mulata de corpo esculpido para quem ele gostava de olhar, vislumbrar sua anatomia flexuosa, seu traseiro grande e bem moldado, seus seios pequenos de bicos escuros. Intelectualizada demais, dizia ele, pesquisadora da literatura francesa contemporânea, professora. Renard, Bonnefoy, Prévert, Desnos, Dupin. L’irruption de la nudité, visible par grand vent, ne supporte que le vide et as ponctuation meurtriére. Ele ria dela, também. Viveram juntos pouco mais de um ano. Ela é testemunha de sua natureza dissoluta e de seu exibicionismo sexual. A opção dela foi sair do país, estudar em Paris, ter um outro tipo de vida na qual não seria vítima do riso alheio. Nunca mais ele soube dela. A terceira e a quarta mulheres eram meio aparentadas entre si, e ele conheceu uma a partir da outra, você pode imaginar o desenlace disso, não? Ariana e Maria de Fátima. Até onde sei, Ariana era uma mulher temperamental e insegura. Muito rica e mimada – a família possuía uma rede de hotéis –, apreciava o exotismo de ser casada com um pintor, divertia-se com seu jeito pedante e trapaceiro, admirava sua falsa erudição, a filosofia, o jazz, mas não deu certo porque, diferentemente de mim, ela não soube lidar com a satiríase dele. Ele devorou várias de suas amigas e também a prima distante, Maria de Fátima, com quem ele se casou logo depois. Ariana surpreendeu os dois na cama, na cama dela, durante uma festa de fim de ano, quando todos da família se reuniam em volta da piscina, comendo e bebendo e dançando. Ele e Maria de Fátima realizavam uma sessão acrobática que tirava o fôlego de quem a presenciasse. Foi chamado de sacrílego por uma tia, foi amaldiçoado pelo sogro, um primo ameaçou-o de morte, mas um tempo depois, como se nada tivesse acontecido, estava de volta ao ninho familiar. O casamento com Maria de Fátima durou mais tempo, uns dois anos, talvez um pouco mais. Ela era pequena e magra, um tanto passiva, religiosa, mística, tinha visões noturnas e ouvia vozes. Descobriu com ele uma vida de concupiscência e prazer. Ele a quebrava em pedaços, depois juntava os cacos, montava-a novamente, para depois quebrá-la, sucessivamente. Fez o pequeno corpo dela pegar fogo, como um vilarejo em chamas, mas ela não era feliz. Surpreenda-se agora: ela fez uma viagem, conheceu um homem que compreendia sua natureza quebradiça e simples – e que era também religioso, e também ouvia vozes durante a noite. Casou-se com ele, é feliz e mora em Mato Grosso. Enquanto ele era casado com Maria de Fátima, conheceu-me, riu de mim e terminamos – ou começamos, como queira – na cama.

EDUARDA
E quanto a você?

CAMILA
Devo dizer que sua aleivosia – já citada –, seu pernosticismo e sua rudeza, também anteriormente citados, não são, definitivamente, os motivos de nossa separação. Suas escapadas conjugais, muito menos. Eu simplesmente me cansei de seu jeito, além do fato de ter sido convidada a sair do país e divulgar minha teoria na Europa. Mas não posso deixá-lo só, ele não saberia viver de outra forma. Penso que ele precisa experimentar uma mulher como você, com essa mania particular, que para ele será uma surpresa necessária. Parece-me que você, de todas as que entrevistei – e não foram muitas, como você mesma sabe –, é a mais adequada, não somente por sua índole mas por sua forma de ver o mundo. Confesso que gostaria de presenciar o primeiro coito de vocês. Você vai gostar muito, ele satisfaz as mulheres como ninguém. E tenho certeza de que você vai torná-lo vulnerável, porque isso que você tem, querida, essa força-motriz que faz você ter essa maneira de andar e de olhar, seus gestos – sem contar esse corpo e esse rosto –, tudo isso é um dom, uma dádiva. Ele não espera que haja uma mulher assim, nunca imaginou que existisse uma mulher com esses atributos. Nenhuma das mulheres anteriores, e incluo-me nessa lista, tem esses predicados. Você vai surpreendê-lo e, por conta disso, é possível que o casamento de vocês – se você concordar em se casar com ele, naturalmente – dure mais que os outros e que ele até conheça aquilo a que chamamos felicidade. Isso dependerá de você. Mas confesso que gostaria muito que isso acontecesse.

EDUARDA
Em quanto tempo ele estará aqui?

CAMILA
Ele não demora, eu creio. Deve estar chegando, tome sua vodca devagar, não se preocupe, tudo vai dar certo.

* Sexo in vitro: Masculinidade e Poder, ed. Falkenburg, 2002. Uma tese polêmica acerca da sexualidade masculina e suas implicações orgânicas, filosóficas e políticas. Foi traduzido para quatro idiomas e fez da autora uma referência na área.

* Galateia & Polifemo – A Elipse Sonhadora, título provisório. Ensaios sobre a história da sexualidade feminina, de Safo a Shere Hite.