O pior momento para o suicida, isso posso dizer com conhecimento de causa, é a espera. O tempo, para um apologista da própria morte, se resume num sofrimento pior que a morte, se é que ela, no meu caso, implicará sofrimento. Possivelmente não. O suicida é, em geral, um calculista, já que se matar requer planejamento e, é claro, uma boa justificativa, para que seu nome, no futuro, não seja proferido em vão de forma debochada e aleatória. Suicidas de fato, aqueles cujas vidas sempre foram marcadas por capítulos de padecimento amplo em todas as direções, merecem respeito e renome. A morte é a redenção, o epílogo da longa jornada degradante, o instante máximo do ser humano banal.

Meu nome é Fernando. Nando para a ex-namorada, que nada teve a ver com minha decisão de morrer. Nando para os amigos chegados – se é que existem, se é que um suicida pode se dar o luxo de possuir amigos e aproveitar sua intimidade. Neste momento estou no meu apartamento, no 12° andar do edifício Serafini, uma construção erigida há vinte anos, tão sólida quanto mal cuidada, quatro apartamentos por andar. Tenho trinta anos, completados em setembro último. Meus parentes mais próximos são pai, mãe e uma irmã de vinte e um anos. Vejo-os quase sempre, pois moram no mesmo edifício, no 8° andar, fundos, não possuem uma vista como a minha. São amáveis comigo – tanto quanto pode ser amável uma família de classe média que se orgulha de possuir um filho médico, essa profissão que goza de status mas não de renda.

Decidi pelo suicídio às duas da tarde de hoje, mas já pensava nisso há semanas. São oito horas, noite escura e com muitas estrelas, pouco vento, o que me consola. Vou pular e fender o ar sem que haja muita resistência, apenas a gravidade fazendo seu papel. Não há muito que pensar ou ponderar. Considerações acerca do que pensarão sobre minha atitude nada significam para um corpo que em segundos será apenas sangue e ossos partidos, meus órgãos internos se tornarão sopa, meus miolos estarão espalhados pela calçada. Possivelmente, se alguém testemunhar esse fato, haverá gritos e choro, conjeturas e dúvidas. Não faz diferença.

Não acredito em dor física durante o caminho para a morte, neste caso. O suicida – o verdadeiro suicida e não um aprendiz, um diletante – não teme a dor e, se ela existisse, suportaria com certo deleite sua condição. Há um certo formigamento na região pélvica, devo confessar, mas nada que impeça um suicida de enfrentar sua empreitada em direção à morte. Retiro os óculos calmamente. Cheguei a pensar em encontrar a morte com o mesmo vestuário com que vim ao mundo, mas isso seria um gesto fútil, e não quero, nem de longe, parecer um exibicionista. Visto uma camisa clara de tom neutro, calças jeans e sapatos sem meia. Estou devidamente penteado e escovei os dentes há pouco, mas isso também não fará qualquer diferença. De acordo com meus cálculos, minha cabeça se separará do corpo e, com o choque, a arcada dentária será expulsa do crânio de forma espetacular, assim como os olhos. Isso considerando que a primeira parte do meu corpo a chocar-se com o chão não seja a cabeça.

Abro a janela e vislumbro a noite da Praia do Canto. São quase nove horas. Observo parte da avenida Saturnino de Brito, o início da praia de Camburi, a subida para o Sacré-Coeur. Observo também o fluxo de carros e pessoas. Como hoje é sexta-feira, o movimento nas redondezas estará intenso em, no máximo, uma hora. Respiro fundo não para tomar coragem, mas para tomar ar. Talvez precise dele até chegar ao chão, quando tudo será apenas uma legião de curiosos que observam um corpo que se esborrachou contra o cimento. Talvez haja por perto algum conhecido, alguém de minhas frágeis relações, é possível que as hipóteses quanto a meu propósito façam algum sentido, mas isso não importa agora, nem impedirá que eu me lance ao espaço.

Maiakovski entrou em depressão por conta do amor. Apaixonado por Tatiana Yakovleva, e não sendo correspondido, suicidou-se com um tiro no peito, em frente à praça Lubianka, em Moscou. Ernest Hemingway tentou suicídio cinco vezes; numa delas, tentou atirar-se contra as hélices de um avião, mas obteve sucesso pleno ao estourar o céu da boca com uma espingarda de dois canos. Santos Dumont enforcou-se com a própria gravata. A poeta Safo jogou-se de um penhasco. Petrônio, poeta latino, cortou a carótida com um punhal. Tchaikovski se matou bebendo propositalmente um copo de água não fervida durante uma epidemia de cólera que assolava a cidade em que vivia. Estou às vésperas de participar desse esquadrão de insurretos.

A primeira janela pela qual passo, em meu vôo cego, está escancarada, é possível ouvir vozes, eu diria gritos, que cortarão a noite e entrarão pela madrugada. É o apartamento de um homem solitário, como eu, mas que geralmente se faz acompanhar de uma mulher, acredito que uma namorada ou noiva, uma mulher de modos inquietos como os dele, parece nervosa, andando de um lado a outro da sala, as mãos nos cabelos. Senta-se para imediatamente levantar-se, mover a cabeça negativamente, como se não concordasse com o que diz o homem. Sei que se amam e que são violentos – uma união que não dará certo, mas quem pode dizer, na verdade, o que vai acontecer? Não sei seu nome, talvez Francisco ou Frederico, algo assim. O nome dela é Letícia, posso ouvi-lo berrar Letícia cada vez mais alto, e dizer que a ama, que é a mulher de sua vida, que não pode viver sem ela e que as outras mulheres nada significam, essas coisas que somos capazes de dizer enternecidamente, mas que funciona muito melhor aos gritos.

A janela do 10° andar também está aberta. A família se reúne para assistir à telenovela. Não a família completa, porque o filho maior, um adolescente de dezesseis anos, enclausura-se no sarcófago a que ele chama quarto, e passa boa parte da noite entre bandas de rock e revistas proibidas. Há quem reclame no edifício, mas seu pai é o síndico e as coisas se arrumam a partir daí. Na sala (tudo o que vejo e verei são salas) um casal no sofá, pai e mãe de outras duas filhas, menores, que se apóiam uma na outra para ver o galã que se mostra apenas de sunga na tela 29 polegadas. A mãe, uma mulher bem nutrida e de curvas que já foram elegantes, passa a língua disfarçadamente pelo lábio inferior, mas interrompe os maus pensamentos porque não está sozinha e de certa maneira lamenta isso. O marido parece sorrir silencioso porque nada vê, a não ser a imagem de Beth sem sobrenome, apenas Beth, a gostosa do sexto andar, com quem esteve há duas horas, ao chegar do trabalho, dentro do elevador. Ajudou-a a carregar uma grande mala cheia de roupas novas, que ela trouxera de BH para revender. É uma mulher de atributos, ele pensa. Mora sozinha, desquitada há pouco tempo, um mulherão de peitos grandes e ancas úberes, sempre com a barriguinha de fora, como uma adolescente. Qualquer dia vai tentar alguma coisa, porque ela provoca e deve ser daquelas que topam tudo na cama. É interrompido pelo gritinho da filha menor, de doze anos, que se exalta ao ver o galã da novela pular na piscina.

Outros que se insurgiram: Salvador Allende, o estadista chileno, atirou na própria têmpora, quando acuado no Palácio de La Moneda, em Santiago, durante o golpe militar que o deporia, se continuasse vivo. Estava de terno e gravata. Chet Baker, o trompetista, se jogou da janela de um hotel em Amsterdã, após ter entupido seu corpo de heroína. Meu vôo, assim como o de Baker, foi do 12° andar, uma distância razoável com a qual não se pode negociar. É uma sensação estranha, essa de não poder voltar atrás. Não é uma decisão de negócios ou algo contra o qual se possa apelar já que não há apelações nesse caso. A janela do 9° andar é gradeada porque há crianças pequenas que zanzam pela sala. Uma delas posso ver de relance, caminhando, com uma colher na mão, para um cômodo escuro
. A babá intervém, levando-a de volta a uma outra parte da casa, no caso a cozinha. Os pais não estão em casa, devem estar numa festa, numa recepção ou apenas num bar fazendo hora até que as crianças durmam e eles possam, então, ficar em paz. Ainda posso ver, numa das paredes da sala, uma gravura com o rosto europeu de Cristo ressuscitado, uma gravura grande com moldura mal feita. A sala está vazia, por enquanto, e assim continuará até que a babá se comunique com os pais, dizendo que o campo está livre.

Há um pintor no edifício Serafini que mora no 8° andar. Não é um pintor profissional e sim professor de Biologia num curso pré-universitário. Talvez por esse motivo aprecie criar telas nas quais se podem ver anêmonas, ouriços e estrelas-do-mar. Conheço-o de cumprimentos, nada íntimo, mas há algo de taciturno em sua forma de andar, um tanto curvado e lento, assim como está agora, andando pela sala e ouvindo música. Uma sinfonia, é possível identificar, acho que Brahms. No fundo gostaria de ser fotógrafo, no fundo traz uma contida frustração em não registrar o mundo submarino de forma mais efetiva. Tem a idéia de expor as fotos que não fez – nem fará – numa universidade ou num centro de ciências, mas isso nunca acontecerá, ele sabe. Sua paixão – até onde sei – é a fauna e também a flora marinhas, e não a bela namorada que irrompe a sala nua e molhada, após o banho. O professor atuante e pintor malogrado toca-a nos quadris, devagar, como se estivesse diante de uma criatura metade peixe. Ela, a namorada (olhos tristes, amargurados, mas bonita), diz algo que não posso ouvir, mas parece sugerir que ele tire a roupa para começar algo que não poderão terminar. Antes de chegar ao 7° andar é preciso registrar que Mark Rothko, o pintor americano, cortou os pulsos numa banheira e, com seu próprio sangue, realizou sua última obra, uma tela intitulada Vermelho e Branco. É mais um para meu exército.

A janela do 7° andar está fechada. Não há moradores no apartamento. Sabe-se que o proprietário é um fazendeiro baiano cujos filhos, quando estudavam em Vitória, no final da década de 80, administravam o local. Um rapaz e uma moça, que retornaram à Bahia para trabalhar com o pai. Alguns vizinhos comentam – e há certa pervertida nostalgia nesses comentários – que os dois jovens proporcionavam aos amigos festas de arromba, música estridente, gritos, risos e bebida à vontade. Não me recordo dessas festas. O apartamento hoje é um sepulcro que não está à venda. Muito raramente, o pai fazendeiro dá as caras por aqui. Passa um ou dois dias na terra que abrigou suas crias e retorna aos bichos de corte, milhares de cabeças de gado, imagino. Não é de muitas palavras, dizem alguns moradores, mas parecia simpático, observou minha mãe, a quem ele cumprimentava sempre. Mas barulho de verdade ouço no 6° andar, no apartamento de Verônica. Pouco se sabe sobre ela, mas posso vê-la de meu ângulo, em queda livre. É uma mulher de beleza inflamada, olhos grandes como frutas maduras, acesos. A cor morena é ressaltada pelo cabelo castanho-claro, que me parece natural, bem diferente dessas afro-brasileiras que se pudessem renasceriam escandinavas. Verônica tem uns vinte e cinco anos, no máximo. Mora com uma tia quase tão bonita quanto ela, chamada Gláucia. Os moradores sequer suspeitam do ofício das duas, mas sei o que fazem porque vejo nesse momento que as duas se aproximam de dois homens, ambos sentados em poltronas coloridas, bastante à vontade, pois há gravatas sobre a mesinha de centro, posta de lado para a ocasião. Um deles está sem camisa. Os dois homens observam o espetáculo, e também eu, voando. Verônica e Gláucia, ambas nuas, dançam ao som de música nordestina. São capazes de milagres anatômicos com esse ritmo; os movimentos da pélvis, cheios de ótimos símbolos, fazem os homens esquecer da própria vida que levam, ao lado de suas prováveis esposas previsíveis e filhos que aporrinham e exigem mais do que eles querem ou podem oferecer. Verônica é um pouco mais alta que Gláucia. Sua ginástica diária – sempre a vejo voltando da academia, toalhinha sobre o ombro – criou no seu corpo um resultado perturbador: seus seios são volumosos e rijos, de mamilos pequenos e escuros, suas pernas são musculosas na medida exata, seus glúteos são de granito puro, com marcas minúsculas de biquíni. Gláucia, por sua vez, é mais velha, uns trinta e cinco, se muito. De costas para seu cliente, esbanja saúde e um desejo incontrolado num corpo magro e sinuoso, que faz seu possível parceiro passar a mão no rosto que começa a suar. Ainda me é possível ver Verônica enfiando a língua na boca do homem sem camisa. Gosto delas e há quem duvide de que sejam tia e sobrinha.

Há quem afirme que a causa do suicídio é quase sempre a frustração. É uma regra que se propõe geral, mas não acontece comigo. Não ansiei altos vôos na minha profissão, não desejei sucesso como clínico, nem almejei nada que eu não pudesse possuir – isso inclui finanças, mulheres e conhecimento razoável sobre política, arte, ciência e filosofia, assuntos que me interessam mas que nunca foram prioridade. Consegui trabalho assim que concluí meu curso de medicina, independi-me financeiramente de minha família, convivi com ela, como já disse, de forma amigável. Tenho alguns parentes mais próximos com os quais mantenho um relacionamento saudável. Encontramo-nos em reuniões familiares e há sempre uma certa reverência por parte deles, talvez porque eu seja o único médico da família e sempre é bom ter um médico por perto. No plano afetivo, tive algumas namoradas de quem gostei o suficiente para não esquecer os bons momentos que passamos juntos, mas apenas isso. A última delas, de nome Mariana, também médica, foi estudar no exterior, mas o relacionamento já havia perdido seu ritmo. Acho que foi bom para ela. Tenho – ou tinha – um bom lugar para morar, alguns bons livros, alguns bons discos, um carro e um emprego. O que um homem pode querer mais?

A possibilidade de sobreviver é nula, eu penso, enquanto caio. Mas pode acontecer. Robespierre, o político francês, tentou o suicídio antes de ser guilhotinado. Atirou-se do alto de uma janela da Câmara, mas sobreviveu. Não tenho essa intenção, mesmo porque Robespierre não iniciou sua investida contra a própria vida tão distante do chão quanto eu. Talvez agora estejamos em pé de igualdade, quando passo pelo 5° andar e vejo vários jovens sentados em volta de uma pequena mesa circular. Sobre ela há um copo vazio de ponta cabeça e vários papéis recortados – também retangulares – que circulam o copo. Estão calados e parecem concentrados, como se estivessem num transe coletivo, rezam em voz alta, uníssonos, convocando ectoplasmas a participar da pequena reunião de luzes apagadas e contatos com o além-túmulo. São sete jovens, três rapazes e quatro moças, devem regular a mesma idade. Começaram a reunião bem cedo pois há cinzeiros abarrotados de guimbas e duas garrafas de coca litro vazias. Uma das garotas, uma ruivinha com sardas – atraente até, começa a chorar. Leva as mãos ao rosto enquanto tentam consolá-la, abraçando-a, mas há os que temem sua reação e se assustam. Um jovem de cabelos encaracolados se levanta, gesticula, caminha até uma parede, aperta o interruptor e a sala se ilumina. A ruivinha chorosa se levanta e novamente se senta, agora sobre algumas almofadas. Estávamos chegando lá, pude ouvir dizer um deles.

O percurso é longo até o chão. O céu continua estrelado, mas observo que algumas nuvens se formam, e por trás de uma delas a lua se mostra. Imagino que, após minha morte violenta – porque assim será –, muitos não entenderão minha opção pela queda. Alguns dirão que optei por uma morte indolor. Não é por isso. Outros, utilizando-se de má poesia, dirão que eu tinha uma alma pássara, como afirmaram sobre o suicídio de Ana Cristina César, a poeta que se jogou do sétimo andar do edifício em q
ue morava. Também não é isso. Cheguei a pensar em envenenamento, como fizeram os filósofos Sócrates e Aristóteles, que ingeriram cicuta, ou como os escritores Walter Benjamin e Jack London, que se mataram com altas doses de morfina. Mas se tivesse optado por ingestão de alguma substância letal, eu estaria agora em um de meus aposentos, estirado sobre o chão ou sobre a cama, tendo minhas entranhas laceradas pelo veneno. Estaria deitado à espera da morte e não contemplando a bailarina do 4° andar. Já passa das nove e o que faz uma garota – dezoito anos de intensa alegria – em casa, numa sexta à noite? Não se veste como uma bailarina, usa um short de lycra azul-marinho e uma camisa larga, alguns números maior do que seu tronco necessita. Não é bonita, mas a graça de seus movimentos lhe confere luz. É suave ao executar os cinco arabesques, o quatrième derrière e também o croisé, o écarté devant, os vários battements. Seu corpo é alegre e vivaz, suas pernas têm a tenacidade macia adquirida por anos de treinamento exaustivo. Não usa espelho, convicta de que suas evoluções, cheias de minúcia, não precisam de testemunha. Se houvesse tempo, eu a aplaudiria como certamente será ovacionada num futuro próximo. Mas há algo que me desconforta: a danseuse do Serafini, numa pirouette, é capaz de me olhar nos olhos, enquanto passo em velocidade por sua janela.

Um casal de velhos vive num dos apartamentos do 3° andar, por onde passo agora, em minha descida. Tinham uma filha, que morreu há dois anos, num acidente de carro, quando voltava de Guarapari, em companhia do noivo, que morreu a caminho do hospital. Minha mãe os conhece e reza por eles, assim como rezou pela alma da filha, uma moça tão nova e tão bonita. Estão sentados, mas distantes. Ela, a velha senhora, limpa os óculos no momento em que a vejo. Diante da televisão, parece absorvida – mas é apenas aparência – pelas atrações de sexta à noite. Tanto faz que seja uma reportagem de interesse ou um desenho animado. Não faz diferença. Desde que a filha se foi seus olhos não se fixam a nenhum assunto, seus ouvidos não querem ouvir, seu corpo franzino continua a funcionar por absoluto costume, acordar, comer, dormir. Seu marido, um homem de olhos fundos e também de óculos, sentado à mesa, joga paciência. Ao lado das cartas que compõem filas, há um copo com água. O silêncio é a infinita dor, ele pensa mas não chega a falar, pois a única voz que a velha senhora ouve, mas à qual não chega a dar atenção, é a de um apresentador de tevê.

A velocidade parece diminuir, mas é apenas impressão, quando chego ao 2° andar. As luzes estão apagadas, o apartamento está para alugar já há algum tempo, mas imagino que o preço esteja alto. A especulação imobiliária inflacionou o preço dos aluguéis. O que será feito de meu apartamento, a partir de amanhã, quando eu for considerado um estranho lunático que se atirou do alto, ou daqui a alguns meses, quando eu me tornar somente uma lembrança para a família? O que dirão meus pais quando se conjeturar que eu posso ter sido lançado ao espaço por uma antiga namorada? Não deixei um bilhete de despedida, esse clichê suicida, nem telefonei aos mais chegados, não deixei pistas que possam revelar o verdadeiro motivo de meu suicídio. O que é pior, na verdade? A morte ou as especulações sobre sua causa? A escuridão do apartamento no 2° andar não me causa boa impressão – mas, a essa altura, o que pode me impressionar?

O 1° andar está a nove metros do chão, aproximadamente. Sei que, da rua, posso ser visto mais nitidamente, embora a velocidade seja maior, ou aparentemente maior, para quem vê. Não importa. Como não sei nadar, poderia ter-me jogado no mar, como fez Florbela Espanca, a poeta portuguesa, ou Frederico I, o Barba-Roxa, que se lançou nas águas do rio Selef, da Cilícia. Teria preservado minha ossatura por alguns dias, até que os peixes me tornassem irreconhecível. Muito próximo do chão, mas ainda assim capaz de perceber, da janela, que uma festa de aniversário se realiza. Impossível identificar se o homenageado é homem ou mulher, criança ou adulto. Conversam animadamente, balançam os corpos ao som de música inaudível, gestos e risos. Vejo um homem de bigode espesso encostar-se em uma loura oxigenada, próxima à janela, mas fracassará em sua tentativa porque ele é velho demais e ela uma ex-ninfeta que já deve andar pelas próprias pernas. Nenhum dos dois me vê porque eles têm algo melhor a fazer. Passo por eles, veloz, assim como chego a ver as portas da entrada do edifício, com vidros jateados, algumas poltronas próximas a Heloíno, o porteiro da noite, de costas para mim.

A morte está próxima. Alguém disse que um suicida em queda livre morre antes de chegar ao chão. Não é verdade. Dizem que o coração não agüenta e que a força do atrito com o ar é de tamanha violência (pelo menos da altura em que me lancei) que os sentidos se interrompem. Também não é verdade. A proximidade da morte, ao contrário, alerta os sentidos, isso eu posso confirmar. Ouve-se melhor, vê-se com mais clareza, o olfato é amplificado. É uma sensação boa, o minuto, o segundo antes da morte, o instante derradeiro. Bem diferente, imagino, da agonia numa cama de hospital. Diferente de cortar os pulsos ou ingerir grande quantidade de drogas. Posso ver a lua quase escondida pelas nuvens. Amanhã, sábado, será um dia diferente para muitos – eu incluído, concluo, enquanto o chão se aproxima.