O Jantar (conto publicado em UM OUTRO PAÍS PARA ALICE, 1989)
sim, Marilyn é uma ótima garota, sempre digo isso para mim mesmo, como se quisesse me convencer sobre algo de que já desconfio, e tudo fica mais fácil, tão fácil a ponto de levá-la para jantar em minha casa, a despeito de todos os protocolos e insanidades. É uma ótima garota, sei, cabelos louros, o maxilar corrigido por uma cirurgia que custou alguns meses de meu salário, pernas firmes, andar levemente falsificado, percebo, após uma tarde entre telas e história. Finge estar sempre muito bem, é rigidamente dietética em sua alimentação, fala devagar e raciocina também da mesma maneira, com certa dificuldade sedutora, dessas que pedem auxílio para pronunciar o nome Delacroix várias vezes, enquanto se espanta (mas não me surpreende) por não entender que motivo levou Jackson Pollock a vomitar novas fórmulas para a plástica. Desculpe-a por isso, Mr. Pollock! Gosto quando arremessa seus muito bem distribuídos cinqüenta e sete quilos para a frente, e os alicerça com a ponta dos dedos dos pés, esteja ela descalça ou usufruindo desse tórrido prazer que é calçar salto alto. Poucas mulheres sabem usar a expressão oh querido com a mesma suavidade inesperada, e nas horas ainda mais impróprias, como da última vez em que saímos para saborear soufflé de algas, e o garçom excitou-se, a olhos nus, quando ela fixou o olhar em meus lábios e disparou uma sofrida repreensão por esquecer-me de que os guardanapos existem e têm uma função.
É uma ótima garota, e diz estar cansada numa determinada tarde, mas concede, sem que eu insista, um ou dois minutos a mais de sua forma e de sua cama. Volta e meia estamos juntos, dialogamos sobre assuntos que ela desconhece, ou melhor eu falo e ela escuta, sei que é sua natureza ouvir e é sua natureza esquecer. Agora que estou sozinho - e sob essa chuva que ainda está calma e não me desespera -, apresso o passo até chegar a seu apartamento. Certamente ouvirei sua voz vinda do banheiro, e mais uma vez pronunciará querido interjeitivamente, dizendo que estará pronta em poucos minutos, e jogará por terra a toalha que esconde a imensa língua loura que é seu cabelo. Olá, querido, ela diz, e, sem deixar que eu a cumprimente, ocupa minhas gengivas e meus dentes com seu beijo. É claro que está bonita, ainda mais numa noite como esta, especial para mim, para ela e para minha esposa, que nos espera com sua maquiagem pesada feito uma armadura.
Claro que Marilyn está bonita e é claro que é uma ótima garota, como poucas, que ainda tentam subsistir num país onde as amantes são irremediavelmente condenadas. A verdade é que tenho uma ligeira vontade de não ir, ou de aguardar um pouco mais, esperar que fique suada após vinte minutos de ação sobre o edredom; assim, um outro banho será necessário, mais uma hora ou tantas passaremos juntos, somente os dois, lacrados entre quatro paredes, uma cama, um belíssimo e recheado guarda-roupa e pernas que se confundem e desafiam Newton e suas leis. Fato é que não precisa de nenhum ornamento como esse que lhe dei e que complementa seu pescoço, nem precisa fingir que espera um telefonema, tentando, utilmente, despertar minha curiosidade. Não é necessário dizer que um de seus joelhos dói só para que eu observe que estão ainda mais arredondados, resultado da ginástica transcendental de nome impronunciável inventada por um usurpador que não aparece em público.
Descemos pelo elevador e, enquanto finjo controlar minha claustrofobia, ela comenta sobre minha roupa, fala sobre a combinação de gravata vermelha e terno azul, eu nunca soube que cores tão distintas combinassem tão bem, ela diz, e foram as dez únicas palavras que ela pronunciou até chegarmos a minha casa. Não, não foi mal-educada ou evasiva, chegou a murmurar, por duas vezes, hum-hum e uma vez oh exclamativo, surpresa por presenciarmos uma colisão entre uma bicicleta e um passat. Moro no terceiro andar de um edifício parcialmente destruído pelo tédio, é o que digo a ela, e não espero que faça comentários sobre essa dolorida piada ensaiada há semanas, nem espero que sorria, não quero elogios, sem culpas por não ter prestado atenção, vivo tentando exercitar seus neurônios a fim de comprovar que a proposição evidente e anticartesiana não penso logo, não existo não combine com ela. Sente-se um tanto inquieta, eu diria até arrependida por estar tão provocante neste vestido branco, ou talvez decepcionada por perceber que vestidos brancos não combinam com esta estação do ano. Chegamos.
Minha mulher é minha mulher há doze anos, não temos filhos por opção e disciplina, temos gostos diferentes, hábitos e propósitos completamente opostos. Em comum só a triste ciência de resistir um ao outro. É uma mulher interessante, apesar. Como previsto, suas células faciais estão sufocadas, mas não consegue, apesar de todo o pó, esconder os sacos lacrimais tão próximos das orelhas. Cumprimento-a com um beijo ligeiro na parte menos retocada de sua cabeça: os cabelos. Minha mulher (seu nome é Regina), educada presbiterianamente, cumprimenta Marilyn com avidez, como se quisesse homologar a repartição do pão que já reparte há dois anos. Regina é uma anfitriã agradável, requintada, esse é seu melhor e mais útil papel, gosta de muitas pessoas em casa, diverte-se em servir doses múltiplas de bourbon e suco de pitanga, misturados tão obsessivamente que se tornam uma bebida suportável. Não chego a me espantar com a relação cordial que se institui a partir daquele momento, um minuto após Marilyn ter ingerido a primeira dose de uísque (rejeita, por enquanto, as aventuras etílicas de Regina). Ela é uma mulher dócil, diz Marilyn calmamente (é difícil suportar vê-la pronunciar certos fonemas e não me aproximar ainda mais), logo que Regina rumou para a cozinha a fim de resgatar os canapés.
É nesse momento que Marilyn me desespera, ajeitando o vestido, colando-o ainda mais às coxas e levantando as nádegas num pulinho adolescente. Depois, ao libertar-se do copo de uísque, mistura seus dedos aos cabelos, sem desfazer a arquitetura que levou tanto tempo para projetar. Regina volta, os canapés numa das mãos e na outra nosso álbum de lua-de-mel, essa é uma maneira de ridicularizar você, ratinha, imagino que Regina esteja pensando essas mesmíssimas expressões, e nessa ordem, pois seus olhos estão voltados para o decote da intrusa, e, em segundos, estarão pousados nos tornozelos e depois tentarão perceber alguma falha no nariz aristocraticamente sutil de Marilyn. Tentativa estéril, mas quem entenderá as esposas, senão os ginecologistas, que vivem e se alimentam os deslizes matrimoniais? Curiosamente, ou mais que isso, Marilyn devora minhas fotografias de doze anos passados, e, é claro, repara que ganhei centímetros de abdômen e perdi cabelo, bem, frase feita ou não, doze anos não são doze segundos. Aqui, em Bruxelas, diz Regina apontando uma das fotos, e este, veja, é ele, em frente à catedral Saints Michel-et-Gudule, o céu estava muito bonito, é claro, essas fotos já têm doze anos, concluiu, e eu sei que seu objetivo ao pronunciar sem erro o francês é humilhar Marilyn, que poucas vezes saiu de casa quando menina e, desconfio, nunca saiu do país. É o mercado de flores, não é, querido?, como é mesmo o nome? Ah, Grand’Place. Olhe, aqui estamos sobre o Semoy, ficamos numa linda casa em Bouillon, já esteve na Bélgica? É o preço por ser amante, penso, agüentar um discurso mais que utrapassado sobre um desejo atual. Vamos jantar, interrompo a ambas, tomando o álbum e ajeitando meu terno. Concordam, cada um a seu modo: Marilyn ensaia um gritinho e diz algo que não compreendo; Regina, além de não parecer frustrada por ser interrompida no primeiro round, sorri elegantemente, uma surpresa, pois sempre escancara os caninos de forma animosa.
Vou até o aparelho de som e agradeço a Art Tatum por ter sido tão gentil em I Know that You Know. Sentamo-nos à mesa, maionese como entrada, salada de folhas verdes, e depois serão a carne e o vinho, ótima safra que adquiri para mim e para Marilyn, mas que será bebido a três, não importa, desde que eu possa imaginar que prazer milagroso terá esse líquido ao penetrar Marilyn mais fundo do que eu. Quanto a Regina, bem, espero que se embebede e se angustie, a ponto de ir para a cama mais cedo, e, quem sabe, dormir por milênios. Foi um erro trazer Marilyn a este pequeno covil. Trouxe-a muito mais por insistência de Regina do que por outra razão. Após ter visto algumas fotografias de Marilyn em minha carteira ou desordenadamente distribuídas nas paginas de meus livros, foi implacável: quero conhecê-la, traga-a para jantar na quinta, e espero que ela seja mais bonita do que aparenta – isso ela disse, ou penso que disse. Foi o que fiz e ainda não me arrependi. Vários erros são cometidos e o maior deles foi ter deixado a carne queimar – e então, claro, rimos os três.
E agora?, pergunto a Regina, como se esperasse dela uma resposta sensata, realmente pergunto a ela, mas meus olhos estão voltados para Marilyn, que caçoa, silenciosa, da imperícia de minha esposa. Talvez possamos sair e jantar – eu digo –, há bons restaurantes perto daqui e moramos num bairro infestado por adeptos da gastronomia. Podemos recomeçar o jantar, diz Marilyn, sempre suave, como se estivesse pronunciando oh querido! Regina concorda. Quanto a mim, não há problemas, posso esperar, e depois a rua estará ainda mais deserta, poderei conduzir Marilyn pelo meio-fio, poderemos observar as pequenas construções de lama até chegarmos a seu apartamento (cujo aluguel pago). Sem me importar com a possibilidade de estarem no observando, posso infantilmente beliscar seu glúteos e presenciar como se comporta seu vestido ao passarmos sobre o escapamento de ar do metrô, poderemos andar como dois desajustados pela rua, o príncipe e a corista.
E que tal atacar novamente de Tatum? Não, melhor Mulligan e o bom e velho Chet em The Lady is a Tramp. Enquanto vasculho a estante, ouço conversarem tranqüilamente na cozinha, estão animadas, escorre pela minha cabeça a possibilidade de serem amigas e conviverem fraternalmente, conversando sobre assuntos que possam interessar às duas, indo ao cabeleireiro, fazendo observações a meu respeito, e então, querida?, como ele está com você?, oh, atualmente ele tem trabalhado mais do que o normal, mas vivo insistindo – e nisso ele me atende – para não trazer serviço para casa. Reparou como ele anda inquieto?, mas ainda continua o mesmo homem, não acha?, sim, claro que percebi, os olhos estão meio fundos, cansaço, eu acho, e ele continua firme?, a mesma agilidade e disposição de doze anos?, não, não, é claro que eu acredito, bem, Regina está na dianteira, dez anos a mais, sem contar o tempo de namoro.
Sinto que ela poderia ajudar significativamente meu convívio com Marilyn, vai preveni-la sobre minhas manias, meus desejos e perversões, enquanto Marilyn poderá ajudá-la em seu infrutífero processo de rejuvenescimento, levando-a para experimentar líquidos contra rugas e perfumes íntimos. Uma utopia que aprovo – ah, aqui está o disco: gravação de 53, um escrete: Carson Smith, Chico Hamilton, Chet Baker e Gerry Mulligan, e o primeiro golpe – acho – foi com a faca para peixes, e depois outro, simultâneo e articulado, dirigido ao abdômen, o tempo de me virar e não distinguir se Marilyn ou Regina, qual das duas teve a idéia, qual delas utiliza tão bem a faca para pães, os dentes aguçados, bem construídos e, entre murros e pontapés, começar a ver embaçado, e ainda algo mais pesado se aproxima e é dolorido como uma coronhada, sinto minha têmpora direita anestesiar.
É preciso limpar o sangue, querida, vamos, eu ajudo você, também conheço bem esse peso, é melhor não deixar marcas, nem um fio de cabelo, lembra do filme – ou era um poema? -, não sei, não importa, oh, meu abajur londrino, minha relíquia, calma, calma, tudo por uma causa razoável, eu arrumo o sofá enquanto você se encarrega de, veja, há sangue na parede e no chão, vamos, você me ajuda a tirar os pêlos da panturrilha?, gosta mesmo dessa parte?, que tal o peito?, gosto muito de carne do peito, pode ser desfiada e misturada ao arroz, hum, conheço uma receita ótima, arroz, ervas e carne do peito, mas, bem, escolha você, a casa é sua. A propósito, posso desligar o som ou você aprecia esse tipo de música?
maio 2nd, 2008 às 12:02
Gostei do conto “O Jantar”(até então, nunca lido). A linguagem é sofisticada, com algumas citações e sequências incrivelmente construídas sobre imagens. Seu texto brinca com os sentidos. Sensualíssimo. O humor negro - sutil como as farsas cotidianas -
revela o que é surpreendente, e ao mesmo tempo comum, na natureza humana: a dualidade. Só pergunto ao autor: Por que as louras? Por que sempre os mesmos estereótipos da amante (vazios, vulneráveis, e até ardilosos
como os de quem seduz e mata)?
Um abraço!
Ana Cristina
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maio 2nd, 2008 às 12:12
Por que o meu comentário não foi aprovado? Quem seleciona os comentários? Não são abertos ao público leitor? Não recebo as obras por e-mail? Esse “deletar” continua uma incógnita para mim.
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maio 2nd, 2008 às 17:20
Acho que foi um dos contos mais mórbidos que já tive o prazer de ler. Se eu senti prazer com o final? Muito. Totalmente inesperado, desconcertante e inteligente. E ele já pensando em como uma poderia completar a outra, heim? hehehe
Você arrasou, Grijó.
Bjos.
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maio 2nd, 2008 às 19:00
Ana, seu comentário, - claro - foi aprovado. Todos são.
A questão é que, sendo feriado, acabei deixando o blog “descansar” um pouco de mim.
Cá estou, de volta.
Quanto às louras, bem, tinha de ser assim. Marilyn Monroe era loura - ou pelo menos se tornou. Há alguns dados sobre ela no conto. Mas, pelo jeito, quem elaborou o plano de matar o indivíduo foi a esposa - e não amante.
Aliás, nem sei direito. Deixo o leitor decidir.
Outro abraço.
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maio 3rd, 2008 às 2:51
caramba.
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maio 4th, 2008 às 23:29
Texto muito bom. Narrador em evidência. Parabéns!
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maio 7th, 2008 às 13:22
Olás…
Vim checar…diferente….mas sabe que adorei?
Vou continuar lendo todo seu blog.
bjs
NAt
http://intimoepessoal.wordpress.com
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maio 8th, 2008 às 16:58
Muito bom!O texto prende e vamos imaginando o que virá pela frente…final inesperado mesmo, gostei bastante! Como sempre, Grijó, excelente!
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maio 8th, 2008 às 17:09
Fiquei relendo o último parágrafo, esse final é terrível, lembrei de alemães na internet…Realmente inesperado e impressionante! Viva a cumplicidade das mulheres,mas …
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maio 9th, 2008 às 17:26
Venho lendo algumas obras sua em segredo, mas dessa vez não pude me furtar em comentar…
Imaginei desde o inicio que esse jantar terminaria em morte, mas o paralelo com o Dr.Hannibal Lecter foi de fato, surpreendente!
Fabiano Zorzal
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maio 10th, 2008 às 0:46
Grijó, gostei muito!!! de todos os contos que li,fui até a Siciliano e lá, num terminal, procurei por obras suas, mas nada foi encontrado! Onde posso encontrar seus livros?
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maio 10th, 2008 às 5:13
Maria A., esse é o grande problema do autor de uma cidade em que se lê pouco: os livros não chegam ao leitor.
A distribuição é ruim.
Mas vc encontra em qualquer livraria de Vitória.
Se vc quiser, envio a vc meu último livro.
Será um prazer.
Envie um mail para mim com endereço
franciscogrijo@gmail.com
Abraços
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maio 24th, 2008 às 1:58
HUmmm… Um bom conto. Foi o primeiro que li e apreciei, embora ainda ache que cumplicidade entre mulheres não exista.
Tomara que minha opinião chegue a lustrar o seu ego.
Só encontro em Vitória? Que pena.
M.L.
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maio 28th, 2008 às 18:38
Se vivo meu irmão fosse, certamente iria gostar de conhecer suas linhas (se é que não conheceu).
Fora escritor, além de jornalista (incrível como invariavelmente uma coisa puxa a outra). Publicou livros também: romances, contos, poemas, participou de “coletâneas” e ganhou alguns prêmios literários.
Vi semelhanças na estrutura deste texto seu com os que ele escrevia…
Uma construção muito sólida, tanto das frases quanto da ambientação, fechando num final surpreendente que “lava a alma” do leitor.
Está de parabéns, como sempre!
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junho 21st, 2008 às 1:52
Vc tinha razão, adorei o texto!
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