Não Pare de Fumar
Não, não é uma ironia. Nem uma piada.
Também não é uma manifestação indireta de repúdio aos fumantes e tampouco um incentivo para que morram mais cedo. Mesmo porque essas coisas fazem parte do repertório apocalíptico daqueles que enchem o saco dos outros para que parem de fumar -- o que não é o meu caso, pois estou dizendo justamente o contrário. E, novamente, não é uma ironia.
As pessoas adoram mandar nas outras. No caso do tabaco, eu ouço apenas dois tipos de imperativos diferentes: o dos chatos que bradam o clássico “pare de fumar” e o dos donos de empresas do setor que, também inconvenientes, gritam o seu “fumar é legal.” Quer dizer, agora eles apenas sussurram por aí, meio que subliminarmente, nas padarias e nos botecos, já que foram afastados da onipotência televisiva.
E como qualquer pessoa normal, este que vos fala também é acometido por certos ímpetos totalitaristas, mas que, felizmente, revelam-se efêmeros e quase indolores. Pode não parecer, mas sou uma pessoa mais ou menos boa.
Enfim, apesar de soar como uma ordem, o título não-irônico deste texto pode ser entendido mais como um conselho amigável do que como um terceiro imperativo -- muito embora ele tenha suas semelhanças com o que repetem as grandes empresas. Profiro-o, pois, justamente para dar ao leitor fumante uma alternativa mais agradável e plausível, condizente com a realidade dos que fumam porque gostam nesse mundinho tão hostil e intolerante.
Eu, por exemplo, fumo esporadicamente. Naquelas madrugadas longas e silenciosas, escorado na janela e olhando para o Nada, um cigarro cai bem. Um maço, comigo, dura vários dias. Poder-se-ia até dizer que sou como um fumante semi-passivo (ou semi-ativo), como um proto-fumante, um quase-viciado, um semi-dependente, um fumista parcial, um (por que não?) incompleto “idiota”. Eu sei, leitor mal-cheiroso, mais ou menos como você se sente.
No entanto, o meu imperativo, sem fins lucrativos ou homicidas, é pra ser entendido como um belo e sonoro “fodam-se”. Aos chatos, claro. Pois me incomoda essa preocupação excessiva que as pessoas têm com a saúde alheia: se eu fumo, se eu bebo, se eu uso drogas, se passo o dia inteiro vidrado na Rede Globo, se eu me alimento apenas com fast-food ou se tudo o que leio são “livros” de auto-ajuda, isso é um problema exclusivamente meu.
(Ok, nem tanto. Ler auto-ajuda passa a ser um problema para as pessoas próximas também, uma vez que os leitores dessas coisas tornam-se tão chatos quanto os Testemunhas de Jeová que costumavam me acordar no sábado de manhã. Citei esses panfletos apenas pela força do exemplo, espero que compreendam.)
O que eu quero dizer é que a exaltação ao bem-estar e a busca desesperada por qualidade de vida (seja lá o que isso realmente signifique) deveria ser voluntária e pessoal, e não motivo de campanhas e histeria coletiva. Deixem os fumantes fumarem, ora! Se isso lhes dá prazer, se lhes faz sentir bem, ótimo. Prazer é “qualidade de vida” também, não é? Quem acha que esse prazer não compensa os riscos à saúde, simplesmente não fuma. Por que havemos de complicar as coisas?
Continuem, pois, fumando tranqüilamente: cada um faz o que quer -- e eu sei que esta é uma frase já calejada e pouco original, mas alguns se esquecem ou ignoram até mesmo as constatações mais triviais.
E ainda, o que acho curioso, tem gente que se empenha, por motivos ocultos, em decorar discursos anti-tabaco, em citar estatísticas e pesquisas, em falar de câncer, de problemas cardio-respiratórios e outras tantas complicações -- vocês conhecem esses tipos -- mas que acabam se revelando pessoas infelizes e, claro (e talvez por isso mesmo), incômodas. Ao invés de gozar de seus prazeres, atrapalham o gozo alheio. O que é, para dizer o mínimo, uma baita sacanagem.
Sei que há aquele argumento hipocondríaco dos fumantes passivos, que afirmam estar morrendo aos poucos. Paciência, colegas, todos nós estamos. E o cigarro não é lá um ícone muito importante em nosso avantajado panteão de problemas -- a não ser que surjam com um estudo científico dizendo que os fumantes são os principais responsáveis pelo aquecimento global; daí eu me rendo e aceito as pedradas.
Para os que chegaram até aqui sem fazer cara feia, um vídeo, que nesses tempos digitais também vale mais do que um punhado de palavras, do comediante ianque Bill Hicks (falecido, sim. Câncer. No pâncreas):
Trecho da apresentação chamada Sane Man.
Se lhe agradar, ela está disponível no iutube também.
* * *
Texto inspirado, numa madrugada longa e sem cigarros, por este bom artigo da Ariadne Rengstl. Ou melhor, por um dos comentários deixados por lá.


8 comentários
#1. Caito, 10/01/2008, 18:42
Não sei nem como agradecer. Bem... aceita um cigarro?
#2. NB, 11/01/2008, 18:49
Excelente post.
#3. B.Cardoso, 11/01/2008, 20:17
NB, obrigado.
Caito, aceito sim. E, abusando da sua gentileza, uma cervejinha cairia bem também.
#4. Aninha, 28/01/2008, 20:18
confesso que foi com muita tristeza que li seu post.
Entendo que você escreveu todas essas linhas para defender essa coisa de livre arbítrio, mas acredito que se esqueceu de alguns pontos cruciais sobre o cigarro.
Defendo o fumante solitário, que curte seu vício sem incomodar absolutamente ninguém! Mas o defendo se ele for psicologicamente maduro, além de informado sobre TODAS as substâncias presentes no cigarro e o mal que cada uma faz! Defendo aquele fumante que nunca tentou largar o vício por não estar nem aí pro mal que faz! Defendo todos os fumantes que nunca se arrependerão de ter fumado quando se descobrirem com câncer no pulmão, enfisema, etc etc etc...
Esses eu defendo com unhas e dentes!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
E quanto às outras drogas... Vc já viu um bebê com abstinência??? Nunca queira...
E um adolescente viciado que espanca todo mundo dentro de casa?
Infelizmente essa é a realidade...
Não deixe de pensar nisso que eu disse...
Um abraço
#5. B.Cardoso, 28/01/2008, 20:37
Não entendi o porquê de tanta tristeza se você defende “com unhas e dentes” as mesmas pessoas que eu.
E não tenho nenhum interesse em ver um bebê com abstinência (?) ou um adolescente com chiliques. Não estou levantando a questão de outras drogas ou da irresponsabilidade no consumo, tanto que parto do pressuposto de que quem fuma sabe muito bem o que está fazendo e sabe dos seus limites e dos cuidados que deve tomar (com a saúde e para não incomodar os outros). Cada um pode fazer o que quiser desde que tenha responsabilidade e, nesse ponto, acho que concordamos, não?
Quais são os “pontos cruciais sobre o cigarro” que eu esqueci? (e que você parece ter esquecido de dizer também).
Obrigado pelo comentário, Aninha.
#6. Aninha, 30/01/2008, 02:24
Os pontos cruciais eu escrevi logo depois. Talvez eu devesse ter numerado. Quer que desenhe? Brincadeira, foi só pra te irritar, porque qdo irritado, vc escreve ainda melhor!!!
Talvez eu não tenha sido clara mesmo... Os pontos que citei são a quantidade de gente viciada que não consegue parar e que eu acredito ser muito maior do que as de pessoas que fizeram realmente uma escolha; o fato de muitos adolescentes fumarem sem saber exatamente o que o cigarro causa; e essa questão de quem fuma saber exatamente o que está fazendo... Sei lá, acho isso complicado e improvável.
Acho que você defende um grupo mínimo de fumantes, e não deixa isso muito claro no texto.
Pode ser papo de enfermeira... Mas ainda acho, como você disse, que tudo isso forma mesmo um repertório apocalíptico. Poderia te dar mil razões aqui, mas vc iria ironizar todas elas e eu ia acabar parecendo a mais chata de todas as suas leitoras.
Não chegaríamos nunca a um consenso... Poderia discutir aqui com você em milhoes de comentários...
Mas o pior é que gostei do seu blog... E quando vi que você respondia aos comentários das pessoas (que normalmente estão metendo o pau no que vc escreveu), me deu uma vontade imensa de achar um post que mexesse na minha ferida, só para criticar e vc responder... Ando carente de discussões ultimamente...
Um abraço
obs: todos os argumentos que escrevi para condenar o cigarro, não são na realidade aqueles que mais me motivam. O real mesmo é que eu odeio chegar da night com um cheiro de cigarro insuportável no cabelo e espirrando de um em um minuto!!!! rs
#7. B.Cardoso, 30/01/2008, 02:59
Se eu entendi direito, Aninha, você é uma enfermeira sádica. Então acho que vamos nos dar bem.
Na verdade, como já te disse, eu parto do pressuposto de que quem fuma sabe o que está fazendo, mas não me interessa se essas pessoas realmente têm consciência dos malefícios do cigarro ou se não passam de uma meia dúzia de infelizes. Pra mim tanto faz.
Você poderia vir com as mil razões e eu iria mesmo me esforçar para ironizá-las caso eu não tivesse mais o que fazer, justamente porque o que eu defendi no texto não é uma questão de saúde, mas sim de prazer.
Resumidamente, eu escrevi para os que fumam por prazer e acham que isso compensa os riscos. Só.
Eu gosto desse tipo de gente.
Um abraço, Aninha.
#8. Aninha, 30/01/2008, 14:29
enfermeira sádica é ótimo!!!! sabe q eu sempre pensei que todo enfermeiro tem mesmo um pouco disso, pois se sente bem num ambiente onde todo mundo está estrupiado...rs
mas eu sou boazinha, acredite...
então viva o prazer...
isso me lembra vinicius de moraes, que vivia cada segundo para satisfazer seus prazeres...está certo, é uma escolha de vida...
só não venha fumar perto dos meus cabelos!!! ahhaha
abraço
Escrever um comentário
Se quiser comentar este post, basta preencher os campos abaixo:
* Campos obrigatórios
Você pode usar estas tags XHTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>.
2 trackbacks
Para notificar uma menção em seu blog a este post, habilite a notificação automática (Opções > Discussão no WordPress) ou especifique esta url de trackback: http://navalha.opensadorselvagem.org/nao-pare-de-fumar/trackback/