Nem tudo são plantas psicotrópicas
Com o ligeiro receio de que isso aqui vire um “portal da maconha” ou qualquer coisa assim (ainda que esta seja uma discussão muito mais útil e relevante do que qualquer outra coisa que vocês possam encontrar neste blog), vou mudar de assunto. Mesmo porque, para um não-usuário (acreditem), já falei bastante. Por ora, pelo menos.
Tanto faz.
Acontece que -- e a partir de agora irei “citar-me a mim mesmo” algumas vezes e de modo obscuro, para o deleite do leitor atento -- acontece que as coisas parecem-me muito mais claras em movimento do que quando estou sentado junto à máquina ou ali perto da janela ou cama. Enfim, a paisagem precisa correr e eram umas cinco da manhã de ontem quando eu despertei de um sono literalmente trepidante, correndo a 80km/h sobre a esburacada Régis Bittencourt, já em solo paranaense e cada vez mais próximo do perímetro da capital; foi nessas circunstâncias, pois, que despertei assim, sem mais nem menos, para encontrar alento através da janela, naquela escuridão rápida que ia ficando pra trás, muito mato e asfalto e caminhões, ficando todos lá para trás. Estrelas plenamente visíveis, embora o reflexo do vidro tirasse boa parte de seu brilho, e não consigo me esquivar da sensação nostálgica que tenho (bem sutil, no entanto) quando olho para o céu e vejo aquele punhado de estrelas bem brilhantes, pois aqui o céu noturno é quase sempre nublado e reflete a luz da própria cidade, ficando, então, ligeiramente avermelhado. Cansa. E entre cada solavanco mais forte do ônibus eu saia de um pensamento e saltava para outro, levando comigo o que podia para ir juntando as peças depois, costurando qualquer coisa com os olhos focados no cruzeiro do sul.
Resta-me uma teia esburaca, mas complexa. E inconstante; -- solavanco.
Pois vejo blogs e afins como coisas inúteis, sabe?, mas no bom sentido da palavra, alguns deliciosamente inúteis e hospedeiros de causos e insatisfações e impressões e alegrias bobas, como pessoas muito simplificadas, idealizadas num conjunto de pixels e sem propósito nenhum. É interessante. A inexistência de uma pauta acaba fazendo com que as coisas fluam para um determinado lado e nada impede que os textos passem a apontar para outra direção assim, sem aviso. Coisas sem regra, sem rumo, espontâneas e randômicas, me atraem. Muito.
E eu não acredito em deus, tampouco em Blogosfera. Muito menos em blogueiro-repórter. Mas foda-se.
Em frente. (E me peguei esses dias dizendo “sim, sim” inconscientemente, como resposta para tudo, o que é engraçado.)
Eu começo as coisas pelo meio e procuro um início que as satisfaça, pois começar pelo início é mesmo muito difícil, seja lá do que estejamos falando agora. “Era uma vez” não é nada trivial. E geralmente é pouco interessante. Aqui, estou pulando começos que não quero forjar e condensando tudo, vejam só, pois é mais fácil e o impacto é semelhante. Introduções costumam chatas (vide primeiro parágrafo).
Depois de termos ultrapassado o septuagésimo caminhão, notei que “bonito” é uma palavra horrorosa. E o é justamente por lembrar um diminutivo, percebam, um diminutivo feio e errado de “bom”. Não sei bem porque pensei nisso, mas de fato não costumo dizer que algo é bonito, ou que alguém é bonita. Escrevo, sim, mas não falo. Opto por um extremo qualquer e digo logo que a garota da foto ao lado é linda (e não menos do que isso) ou que tal desenho é bonitinho, bem feitinho. Não sei de onde “bonito” realmente vem, mas aposto que não tem nada a ver com diminutivos.
Aliás, há uma série de coisas que não digo. Se me perguntam se estou bem, por exemplo, respondo que sim e pronto. Não consigo questionar o outro: “...e você?” soa artificial demais para mim. Na maioria das vezes isso acontece porque realmente não me importo. Entretanto, opto, quando necessário, por uma saída mais despojada e que funciona bem. “Tudo bem... e aí?” Feito. Absolutamente qualquer coisa responde essa pergunta. Tata-se do questionamento mais conciso e o mais próximo de uma grande interrogação solitária. Funciona, implicitamente, como ponto final, fim de frase, sinal verde para o outro, algo como o “câmbio” utilizado nas comunicações via rádio: “essa foi a minha resposta, sua vez de novo.”
Desconfio, por motivos análogos, que também não sei demonstrar afeto. Mas este, no entanto é um terreno muito impreciso. Se alguém resolve expor o sente por mim (em qualquer grau de intensidade, seja lá por qual razão) e se a recíproca for verdadeira, minha resposta é sempre “eu também”. Mesmo que no fundo seja muito mais do que isso. E se for menos, eu sorrio incomodado e nada digo -- o silêncio que se segue costuma ser desagradável. Essas coisas são estranhas. Sei que depois deste parágrafo qualquer boa moça que nutria por mim alguma simpatia vai perder o belo sorriso e jamais voltará a me ler. Paciência.
(As moças más que ainda sorrirem maliciosa ou sarcasticamente, por favor, entrem em contato.)
Bem, havia mais. A troca de música, aqui, fez-me esquecer o restante, o gancho. Talvez seja culpa do humor, que varia junto. É o que costuma acontecer.
E aí?


1 comentário
#1. Pablo Pamplona, 08/05/2008, 20:17
Você não precisa de plantas psicotrópicas, viaja por si só.
E sabe que bonito é mesmo uma palavra assaz feia? Curioso.
Mais um post muito bom, mas sem maiores comentários de minha parte.
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