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No Gabinete do Ministro

-- O Senhor quer ser diretor do Serviço Geológico da Bruzundanga? -- pergunta o ministro.

-- Quero, Excelência.

-- Onde estudou geologia?

-- Nunca estudei, mas sei o que é um vulcão.

-- Que é?

-- Chama-se vulcão a montanha que, de uma abertura, em geral no cimo, jorra turbilhões de fogo e substâncias em fusão.

-- Bem, o senhor será nomeado.

Mais uma da Bruzunganda.

Os Samoiedas e o Status

Hoje pela manhã, puxei da estante os Bruzundangas, de Lima Barreto. E logo nas primeiras páginas deparei-me com um trecho interessantíssimo que reproduzo abaixo, com grifos meus:

O que caracteriza a literatura naquele país [Bruzundanga] é uma curiosa escola literária lá conhecida por "Escola Somoieda"

Não que todo o escritor bruzundanguense pertença a semelhante rito literário; os mais pretensiosos, porém, e os que se têm na conta de sacerdotes da Arte, se dizem graduados, diplomados nela. Digo "caracteriza", porque, como os senhores verão no correr destas notas, não há na maioria daquela gente uma profundeza de sentimento que a impila a ir ao âmago das coisas que fingem amar, de decrifá-las pelo amor sincero em que as têm de querê-las totalmente, absorvê-las. Só querem a aparência das coisas. Quando (em geral) vão estudar medicina, não é a medicina que eles pretendem exercer, não é curar, não é ser um grande médico, é ser doutor; quando se fazem oficiais do exército ou da marinha, não é o exercer das obrigações atinentes a tais profissões, tanto assim que fogem de executar o que é próprio a elas. Vão ser uma ou outra coisa pelo brilho do uniforme. Assim também são os literatos que simulam sê-lo para ter a glória que as letras dão, sem querer arcar com as dores, com o esforço excepcional, que elas exigem em troca. A glória das letras só a tem quem a elas se dá inteiramente; nelas, como no amor, só é amado quem se esquece de si inteiramente e se entrega com fé cega. Os samoiedas, como vamos ver, contentam-se com as aparências literárias e a banal simulação de notoriedade, umas vezes por incapacidade de inteligência, em outras por instrução insuficiente ou viciada, quase sempre, porém, por falta de verdadeiro talento poético, de sinceridade, e necessidade, portanto, de disfarçar os defeitos com pelotiquices e passes de mágica intelectuais.

Ora, aposto este velho jeans no qual minhas pernas estão envoltas que o leitor deve conhecer um ou mais tipos como os samoiedas lá da Bruzundanga.

Após a leitura, lembrei-me instantâneamente do meu colegial e dos tantos "aspiras" a médicos e advogados que estudavam comigo. Muitas vezes a ânsia por tais carreiras sequer advinha dos desejos profissionais dos meus colegas, afinal, os pais desses infelizes não escolheram para eles uma profissão que lhes agradasse, mas sim optaram por ter um doutor ou um juiz na família. É algo que impressiona o vizinho, os amigos, orgulha os parentes, dá status.

Seja hoje, lá em 1922 ou em qualquer outro ponto da linha histórica que o leitor escolher, nunca foi necessário ser alguma coisa para gozar das glórias que o fingimento proporciona. Quem se satisfaz com as aparências não está atrás da experiência ou conhecimento que supostamente deveria deter, mas de suas conseqüências e repercussões. E quem se ilude e hipervaloriza tais tipos bruzundanguenses, ou enaltece a mera idéia de ser o que não é, os alimenta justamente com os frutos que querem comer.

O famoso "torna-te quem tu és" de Nietzsche é um imperativo que passa longe dos ouvidos dos nossos samoiedas. E se por descuido acaba sendo escutado por eles, é prontamente pervertido no já usual "mascara quem tu és" ou algo que o valha.

Recordo-me, agora, de uma máxima que já ouvi em diversas ocasiões e que deve ser mais uma peça de genialidade anônima que enriquece nosso repertório popular e diz respeito ao status. É, em verdade, uma definição para a palavra e se não me falha a memória é algo como:

Status é comprar o que você não precisa, com o dinheiro que você não tem, para mostrar a quem você não conhece o que você não é.

Nada mais correto, mesmo sendo voltado especificamente para o ponto de vista econômico -- no entanto, o que todos querem é convergir exatamente aí, na grana, pois ter o que se finge ter também é legal.

Aliás, um desses futuros advogados de colegial que se sentava próximo de mim, andava, na época, até empolgado e já havia se convencido de que o direito seria mesmo uma ótima escolha para ele. Justificava seu destino afirmando que no julgamento de um homicida ou traficante -- não me recordo exatamente qual era o criminoso em questão -- dava pra conseguir alguns milhares de reais "por fora" do que fora previamente acordado para que ele, um legítimo parlamentar infante, exercesse sua função de forma primorosa e conseguisse livrar a cara do sujeito.

Eis aí mais um espécime dessa corja que anda se multiplicando com velocidade assombrosa. Não quer exercer o ofício que "escolheu", não tem o mínimo de interesse por sua futura profissão e deseja, única e exclusivamente, enriquecer (calculando até o quanto poderia ganhar ilicitamente a cada processo).

E quero aproveitar para salientar que não é só na medicina ou no direito que isso ocorre, claro. O fato é que são as opções preferidas dos papais frustrados, formados nessas áreas e/ou que gostam de ostentar. Seus filhos sofrem um pouco mas acabam gostando. E estes, depois, repetem o feito com sua prole.

Para concluir, fico aqui pensando, com um certo incômodo, quem é o mais sem-vergonha na história: o que finge e chafurda nas aparências ou o que lhe dá atenção e prestígio?

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