Algumas razões para amaldiçoar o jornalismo
Não há remédio. Jornalismo é o reino da superficialidade e do fingimento. Muitas vezes, é confundido com merchandising e entretenimento, o que me tira do sério. A linguagem e o vocabulário da mídia eletrônica é paupérrimo.
Se alguém que quiser seguir carreira no jornalismo vier pedir a opinião desse habitante das bibliotecas que vos escreve, direi: caia fora, enquanto é tempo. Se o interlocutor não der ouvidos a mim e resolver estudar Jornalismo, recomendarei então: seja humilde!
Além disso, sempre acreditei que os cursos de Jornalismo não deveriam perder tanto tempo ensinando técnicas, lead, pirâmide invertida e outras coisas que são introjetadas quando se cai no mercado. Lembro-me que, no meu terceiro ano na Cásper Líbero (hoje povoada de professores picaretas e oportunistas que topam qualquer negócio), um dito cujo veio nos ensinar técnicas de como fazer entrevista. É pra rir ou pra chorar?
As escolas deveriam priorizar o ensino teórico, para que o aluno saia de lá com canudo e com uma boa cultura geral, que o permita tocar de ouvido, chutar com as duas pernas. Deveriam encorajar a leitura dos clássicos da literatura universal, de – sei lá – Machado, Eça, Paulo Mendes Campos, Joel Silveira, os grandes pensadores do Brasil – Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro. Deveriam estimular que os graduandos conhecessem a Constituição e o Código Penal, talvez. Que lessem a coleção de Hélio Silva – monótona mas aconselhável para que não saiam por aí reproduzindo absurdos sobre História do Brasil. Deveriam ensinar Semiótica – sim, eu disse Semiótica, detestada por nove entre dez alunos de Jornalismo, porque não é lecionada de maneira decente, de maneira criativa (professores limítrofes, com cultura de orelha de livro, obrigam o estudante a enfrentar uns textos de Teoria da Comunicação que fazem qualquer um mergulhar num sono cataléptico…).
Nos meus quatro anos de graduação na Cásper, raramente faltava às aulas, no mais das vezes a serem digeridas com café e com coca-cola (cápsula de guraná vai a gosto…). Em compensação, vivia vagando pelos corredores, jogando conversa fora , cortejando algumas sinhás e fazendo uma miniatura de política estudantil…
Se um aspirante a jornalista ainda insistir em me pedir um conselho, diria: Se resolver pelo curso de Jornalismo, faça paralelamente outra Faculdade. Vá por mim…
Ou então, aconselharia, impetrando minha boa ação do dia: faça literatura!!!! Literatura é arte; jornalismo, não. Longe disso. Escritores escrevem para o amanhã, jornalistas, para o hoje. Escrever livros é uma forma de se eternizar. Mesmo que você publique um livrinho e apenas três pessoas lerem, fique certo que sua obra não será perecível, ela durará. Amanhã, quem sabe, quando você estiver debaixo de sete palmos de terra, seu bisneto, curioso, há de tirar aquele volume empoeirado, esquecido no canto da prateleira. Já a reportagem que o peão de redação se descabelou para fazer, amanhã, servirá de embrulho de peixe, se me permitem o clichezão…
Não ignoro que a faculdade de jornalismo seja atraente para o vestibulando hesitante quanto ao futuro da carreira, por não ser um curso burocrático. Não é técnico como, sei lá, Direito, Ciências Contábeis ou Odontologia. Tem disciplinas bem variadas. Mas também não ignoro que jornalistas em início de carreira - e até alguns com anos de janela - trabalham num regime semi-escravocrata, produzindo em série, levando um arremedo de vida, sem sequer refletir minimamente sobre o fazer jornalístico.
Notem que os jornalistas geralmente morrem de enfarte, tem famílias dilaceradas (vários casamentos, inclusive…) e não raro são alcoólatras.
A mesmice dos jornalões tem me cansado. O que me atrai ainda, em meio ao rame-rame das coberturas pouco imaginosas, são os colunistas. Os artigos acabam sendo o diferencial.
O epicentro do “jornalismo literário” no Brasil, Joel Silveira, sempre esculpiu suas luminosas reportagens sem dar a mínima para o “quem, onde, porque…”
As entrevistas do saudoso “Pasquim” eram publicadas praticamente sem edição. A conversa era transcrita da maneira como se deu, sem copidesque. Parecia um papo de botequim. E eram interessantíssimas, verdadeiras aulas.
Viva o “nariz de cera”!!!