
Numa conferência da Universidade de Belgrano, o extraordinário contista (e ensaísta) argentino Jorge Luis Borges afirmou que Edgar Allan Poe, antes de ecolher o corvo como ave maldita de seu não menos extraordinário poema, havia pensado num papagaio, já que necessitava de um pássaro falante. Mas um papagaio não pode dizer “never more”. Entenda-se: é uma ave incompatível com a magnitude da poesia. O velho Edgar optou pelo corvo porque lia, no instante em que escolheu o estribilho de seu poema mais famoso, o poema Barnaby Rouge, de Charles Dickens, no qual aparece a figura de um corvo. E foi pensando no amor - esse sentimento nobre e maldito - que chegou à figura do poeta-amante e de seua saudosa amada-inacessível Lenore (a perfeita rima para never more).
Allan Poe é uma avis rara como seu próprio personagem alado. É o romântico por excelência, amplo, que infelizmente foi reduzido - reduzido? - à alcunha de “pai do romance policial”. Baudelaire louvou-o, assim como o fizeram Machado e Pessoa, seus tradutores. Releio passagens de O Corvo em voz alta, na versão para o português, mas sei que nas letras originais (aquele distinto inglês da costa leste) a métrica e o ritmo são outros, a entonação é um tanto estranha a maus ouvidos, como os meus.
Acompanho Edgar desde 1986, quando adquiri sua obra (quase) completa pela Nova Aguilar, capa dura azul, 1023 páginas. Seus poemas, ensaios e sua ficção, com texto introdutório do simbolista Baudelaire, O Homem e A Obra, que assim se inicia “É um prazer bem grande e bem útil comparar os traços fisionômicos dum grande homem com suas obras.” Poe era um homem triste, amargurado, bem ao estilo dos ultra-românticos, cuja literatura revelava-se melancólica, apesar de expor certo humor em algumas passagens. Seu histórico foi miserável e trágico, feito de idas e vindas, de medos que povoavam seu dia-a-dia e de sonhos que, sabia ele, não se tornariam fato, e que, desse modo, qual a saída senão vertê-los para a literatura, para a escrita?
Edgar Allan morreu há exatos 159 anos, num dia 7 de outubro, após dias de delírio e desespero. Ao que consta, após repousar, moveu a cabeça e disse “Senhor, ajudai minha pobre alma!” Eis a essência do que é a poesia ultra-romântica. Talvez tenha sido ele, mais do que Byron ou Musset, seu maior personagem.
Aqui você pode ler no original e ter acesso à tradução de Fernando Pessoa.