São Paulo, 06 de outubro de 2008.

6 de outubro de 2008

E a segunda-feira chegou com chuva e temperatura mais baixa. Deixando de lado (por favor) o assunto eleições, o que preenche as conversas de cafés, padarias, escritórios, escolas, enfim, nosso ambiente de trabalho, é o esporte, mais especificamente o nosso futebol.

 

Copa do Mundo de Futsal/2008. Brasil e Itália são os únicos com aproveitamento de 100%. Levando-se em conta que a seleção da Itália tem 5 brasileiros naturalizados, então diríamos que o Brasil continua absoluto no torneio. No último sábado, mais um passeio sobre a boa equipe da Rússia, com um sonoro sete a zero, e a confirmação da boa fase e motivação da nossa equipe. Na próxima quarta-feira, enfrentamos a fraca Cuba, com promessa de mais uma goleada, que pode ou não acontecer. Acho que entre Brasil, Espanha, Itália, Argentina e Paraguai, sairá o campeão. Mas pode não ser, e daí nossa paixão pelo futebol, em qualquer modalidade, imprevisível.

 

Série B. O que não faz a desmotivação. E não é fácil. Já está garantido o acesso à série A, e os adversários são fracos, como sempre foram, não estão este ano melhores ou piores que os anos anteriores, e não podemos esquecer que o Corinthians formou uma excelente equipe para a disputa do certame. E assim, o torcedor corinthiano não vê a equipe jogar há duas semanas, nos dois últimos empates. Mas a diferença continua enorme, e briga boa mesmo está acontecendo na disputa das três outras vagas de acesso, bem como o temível rebaixamento à série C. Entre Vila Nova (2º) e Bahia (11º), há boas chances de classificação. Com exceção do CRB, último lugar com 13 pontos a menos que o penúltimo lugar, entre o Paraná (12º) e o Marília (19º), paira o fantasma do rebaixamento. E rebaixamento para a série C significa praticamente a desprofissionalização do departamento de futebol da equipe, poucos sobrevivem.

 

Brasileirão/2008. Destaques:

 

Em linhas gerais, as cinco primeiras equipes fizeram seu papel, distanciando-se num bloco único. As disputadas vagas da Libertadores e o título serão, salvo incríveis zebras, disputados entre estes cinco (Palmeiras, Grêmio, São Paulo, Cruzeiro e Flamengo), que agora devem mostrar realmente a que vieram.

 

Fluminense 1 x 1 Goiás. Só destaco esse jogo pela conseqüência pós-jogo. Lá vai o Cuca, como diria o Milton Verme, lá vai o Hardy (ó dia, ó azar), descansar e apagar essa fama de azarado conformado. E o Flu amarga mais uma rodada na zona do rebaixamento, segundo meu irmão Marcio, até o final. Inexplicável…

 

Cruzeiro 1 x 0 Sport.  Difícil o jogo, como todos contra o Sport, mas aos trancos foi o Cruzeiro. O técnico Adilson é conhecido em Minas por mexer errado na equipe. Pois o substituto Jajá acabou de entrar e colocou a bola na medida para Gerson Magrão, outro substituto, marcar o único gol da difícil partida. Único destaque negativo da partida, a contusão do bom volante e líder Fabrício (no Corinthians não jogava nada), que deixa a equipe por mais de 40 dias.

 

Ipatinga 1 x 3 São Paulo. Mesmo sem um futebol empolgante, o tricolor paulista venceu o Ipatinga, que até agora não divulgou a arrecadação e público. Talvez para passar pelo menos uma única rodada sem ser o menor público. Vinte e oito rodadas na zona de rebaixamento não credenciam a equipe mineira a um comentário positivo. E O São Paulo não desgruda dos líderes, botando sua pressão.

 

Vasco 2 x 4 Figueirense. Falar o que do Vasco? Dentro de casa, lotação completa, adversário de médio porte, ou seja, tudo para uma boa arrancada rumo à fuga da região da degola. Só faltou o time marcar no início arrasador. Sem nada com isso. O Figueira inteligentemente esperou, se defendeu, e na base do contra-ataque e da instabilidade emocional do adversário, chegou a marcar 4 a 0. Torcida revoltada, e a amarga herança que o inocente Roberto Dinamite carrega, mas carrega porque quer, não é?

 

Náutico 0 x 2 Flamengo. Como o Flamengo gosta de vencer os pernambucanos fora de casa, não é? O Flamengo, dos dez próximos jogos, tem nada mais nada menos que seis em casa, sinônimo de Maracanã lotado. E quem não colocaria este time atormentando até a última rodada? Segundo o leitor Gugala, pintou o campeão… Veremos…

 

Coritiba 4 x 2 Internacional. Não consigo entender o Inter, embora nunca seja fácil contra o Côxa no Couto Pereira. Seria a tão falada vaidade? Seria Tite que não tem pulso com estrelas? Seriam os astros, o preço do dólar, ou a Bolsa de Tóquio? O que sei é que o Inter não embala, e está longe de um mínimo esperado para a qualidade de seu elenco, isso sem contar o gol bizarro da dupla Clemer/Índio.

 

Santos 4 x 0 Atlético-PR. Olha, não quero nem comentar o jogo, o resultado, a classificação dos dois. Apenas assistam ao primeiro gol da equipe da Vila. Só isso já paga metade do campeonato. E o Santos foge do rebaixamento e já sonha com Sul-americana (que nem dará importância no ano que vem). Já o furacão, tornou-se uma leve brisa, rumo à segundona.

 

Sem Novidades na fronteira da guerra: Vitória 3 x 1 Portuguesa (a simpática lusinha paulista rumo a mais um ano na série B). Grêmio 2 x 1 Botafogo (lição de casa para não desgrudar do líder Palmeiras). Palmeiras 3 x 1 Atlético-MG (Passeio verde em casa, depois do susto atleticano).

 

A próxima rodada inicia-se daqui a dois dias, e será pulverizada até sábado, por conta do domingo sagrado da seleção brasileira de milionários descomprometidos. Até!

 

Abraços, boa semana a todos.

Fantasma sai de cena, de Philip Roth

6 de outubro de 2008

Aos 71 anos, Nathan Zuckerman pode estar impotente, pode estar usando fraldas para conter a incontinência urinária — resultante de uma operação para a retirada de um câncer de próstata –, sua memória pode estar falhando, porém os livros do dono do alter ego permanecem esplêndidos, mesmo que não chegue ao nível dos anteriores. Em Fantasma sai de cena, novo livro de Roth, parece haver como nunca uma separação entre Roth e Zuckerman. Enquanto este vê sua memória falhar e sua obra decair, aquele nos chega com uma prosa exata e fluente, colocando-nos situações cheias de significados. Têm razão aqueles que apontam certa despretensão neste livro, mas a qualidade de Roth para discutir sem o menor receio fatos temidos pela maioria dos autores basta para distingui-lo da enorme massa de vulgaridade da literatura atual.

E quais seriam estes fatos? Ora, a “rebelião fisiológica” da velhice, a inveja da juventude, o desinteresse pelo mundo.

Após longo período de retiro voluntário, Zuckerman volta à Nova Iorque a fim de tratar sua incontinência. Negocia com um jovem casal uma troca temporária de residência. Ele ficaria em Nova Iorque e eles passariam um ano no exílio de Nathan. Porém, paradoxalmente a sua situação urológica, ele apaixona-se como um menino pela inatingível mulher do casal, Jamie. Ela é linda, tem 32 anos e é uma aspirante — ainda sem obras — a escritora. Nathan, apesar de abordá-la de forma um tanto patética, refugia-se na fantasia para dar alguma forma àquela relação impossível. O contraponto à Jamie é dado por Amy, ex-mulher de seu tutor literário Lonoff, a qual procura recuperar-se de um câncer no cérebro. Amy, septuagenária e com enormes lapsos de memória, também foi uma paixão de Nathan quando jovem… OK, quem me lê já deve ter notado que é um livro sobre a mortalidade. Para piorar, há um jovem bonito e cheio de energia que deseja escrever a biografia de Lonoff, relatando fatos constrangedores da vida pessoal do autor. Nathan e Amy não suportam a idéia de tal exumação.

Como atração especial, há a descrição de como o casal recebe a reeleição de Bush em 2004. Zuckerman observa impassível o mundo deles acabar para sempre…

Não é o melhor Roth, mas o panorama literário é tão pobre que sinto enorme vontade de dizer: leiam, haverá pouca coisa atual e melhor, não percam, não deixem de ler…

Em tempo: excelente tradução de Paulo Henriques Britto.

O SUBPENSAMENTO VIVO DE MARCONI LEAL (13)

6 de outubro de 2008

Analisando o nível da educação atual podemos constatar que o comunismo atingiu seu fim último: acabou com a História.

***

A social-democracia é um sistema perfeito: todo cidadão tem direito a saúde, moradia, educação, previdência e uma loira com dois peitões.

***

A pior característica do adolescente não é sua chatice incorrigível, mas sim o fato de que, passada essa fase, ele se transformará em um ser humano completo.

***

A insônia, como a civilização, é um exemplo da vitória da cultura sobre a Natureza. E uma prova de que a Natureza, na maioria das vezes, está certa.

***

Os pessimistas acham que a vida é uma dor só. De minha parte, agradeço o fato de que a dor é uma vida só.

***

Confesso: não amo o próximo como a mim mesmo. Sou um sujeito caridoso.

***

Segundo seus defensores, a arte conceitual vai contra clichês. Concordo. O clichê de que, para bom entendedor, meia palavra basta, por exemplo.

***

Literatura é o que bons escritores fazem quando querem ganhar dinheiro. Os que desejam salvar o mundo devem praticar tricô.

***

A crise americana era previsível. Nenhuma sociedade passa impunemente em menos de três séculos, pelo menos de Cole Porter a Madonna.

***

Bobagem essa história de que propaganda de bebida estimula o consumo de álcool. Prometo parar de beber toda vez que assisto a uma campanha da Brahma.

Leia também:

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6 de outubro de 2008

Analisando o nível da educação atual podemos constatar que o comunismo atingiu seu fim último: acabou com a História.

***

A social-democracia é um sistema perfeito: todo cidadão tem direito a saúde, moradia, educação, previdência e uma loira com dois peitões.

***

A pior característica do adolescente não é sua chatice incorrigível, mas sim o fato de que, passada essa fase, ele se transformará em um ser humano completo.

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A insônia, como a civilização, é um exemplo da vitória da cultura sobre a Natureza. E uma prova de que a Natureza, na maioria das vezes, está certa.

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Os pessimistas acham que a vida é uma dor só. De minha parte, agradeço o fato de que a dor é uma vida só.

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Confesso: não amo o próximo como a mim mesmo. Sou um sujeito caridoso.

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Segundo seus defensores, a arte conceitual vai contra clichês. Concordo. O clichê de que, para bom entendedor, meia palavra basta, por exemplo.

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Literatura é o que bons escritores fazem quando querem ganhar dinheiro. Os que desejam salvar o mundo devem praticar tricô.

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A crise americana era previsível. Nenhuma sociedade passa impunemente em menos de três séculos, pelo menos de Cole Porter a Madonna.

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Bobagem essa história de que propaganda de bebida estimula o consumo de álcool. Prometo parar de beber toda vez que assisto a uma campanha da Brahma.

Leia também:

Z.Preisner (1955 - ) – Requiem for my friend, Rewakowicz, Kasprzyk, Sinfonia Varsovia.

5 de outubro de 2008


Caros leitores, anunciei Preisner e estou a cumprir com o prometido. Porém, um breve excurso: tal como o meu amigo e colega FDP Bach, ando descontente com certos comentários proferidos no blog; a esses comentários, faço minhas as palavras do nobre colega: a minha colaboração é feita no sentido de divulgar uma paixão que – tal como os meus cinco quatro colegas, já para não mencionar esse grande cão, Blue Dog… – nutro, a música clássica, nas suas vertentes de erudita e contemporânea.
Uma segunda razão está na origem da minha colaboração com este blog: como portuguesa, é sempre bom o motivo que possa comprimir e estreitar os laços de dois povos separados pelo ingente oceano Atlântico. Se é verdade que temos motivos para nos orgulharmos com a receptividade do blog no Brasil – neste momento, contabiliza-se 60.000 acessos, certamente contamos com a presença de muitos bloggers portugueses que também fazem questão de visitar o PQP, dada a sua qualidade. E os links que o PQP ostenta nalguns blogs portugueses também são um cabal e indefectível facto de júbilo.
Recentemente, ouvi uma grande actriz brasileira, Natália Thimberg, afirmar que Brasil e Portugal são um só: Falamos a mesma língua, somos da mesma escola, afirmava a veterana actriz.
Por isso, ilustres visitantes, este trabalho é feito, altruisticamente, em nome de uma paixão, a música, sem nenhum dividendo; tendo em conta esse facto, também os nossos comentários reflectem e reflectirão sempre os nossos afectos pela plêiade de compositores dilectos (ou não), mas não somos engenheiros de almas, como aventava Estaline sobre a missão dos escritores – os nossos escritos não são tecnicistas, mas sempre e apaixonadamente amadores. Disse.
Já falei num ingrediente necessário para se entender a música dos polacos: o misticismo e a religiosidade que caracterizam este povo, não? Preisner não é excepção, mas, por’ora, quero elencar (santo deus, este verbo parece que é de minha propriedade!) alguns dados contextuais, que estão na génese da minha descoberta de Preisner.
Polónia, terra de surpreendentes contrastes: tutelada por duas potências dois blocos, ex aequo, União Soviética e Alemanha (e mesmo hodiernamente, pós-integração na União Europeia, não escamoteemos esse tão impolítico, mas correcto facto!), foi pátria fértil de artistas que adoro, especificamente, no cinema, com Wadja e Kieslowski.
Kieslowski foi uma descoberta dos meus 17 anos, com a sua – hoje – consensual trilogia Bleu, Blanc, Rouge, uma homenagem aos ideais republicanos franceses e que (parte de supremíssima inportância para o público masculino) revelou ou consolidou ícones dramáticos femininos como Juliette Binoche e Irène Jacob (quanto a mim, plástica e dramaticamente superior a Binoche, mas you’re the boss, preclaro público). O impacto desse realizador foi de tal sorte grande na minha pessoa que, recorrendo a um esquema de des-va-lo-ri-za-ção do meu capital de então, adquiri os três filmes, importando os mesmos de França, na defunta versão VHS… estando os mesmos ainda em cartaz!
Z. Preisner consegue, a meu ver, matar “três coelhos com uma só cajadada” (olhem só a subtileza das minhas metáforas, alicerçadas em ditos populares…), com esta obra:
a) Exprimir o sentimento de religiosidade/misticismo que é o ADN do imaginário polaco, lui – même, – e isso está patente na própria estrutura e função que preside ao Requiem;
b) Fazer uma síntese de uma genealogia, de uma brilhante genealogia, da sua genealogia musical polaca e não só, transmitindo para a sua obra a influência flagrante de Gorécki,, visível nas duas versões da Lacrimosa, de Pendérecki – notem bem o violino arrepiante do Offertorium e até do meu Rasputine musical, Pärt, nos sinos do mesmo Offertorium e ecos da Berliner Messe, em Dies Irae;

c) oferecer um tributo que se nega a tributo a Kieslowski, com a primeira parte, o Requiem per si, - ah, sim, o piano e a flauta de Kai Kairos a evocar a dita trilogia – e a segunda parte, “Life”, a assegurar os lçaos indestrutíveis (ou parceria indestrutível) entre os dois amigos.

Z.Preisner (1955 - ) – Requiem for my friend, Rewakowicz, Kasprzyk, Sinfonia Varsovia, Varsóvia: Erato, 1999.

1. Part One Requem: Officium
2. Part One Requem: Kyrie Eleison
3. Part One Requem: Dies Irae
4. Part One Requem: Offertorium
5. Part One Requem: Sanctus
6. Part One Requem: Agnus Dei
7. Part One Requem: Lux Aeterna
8. Part One Requem: Lacrimosa
9. Part One Requem: Epitaphium
10. Part Two Life: Meeting
11. Part Two Life: Discovering The World
12. Part Two Life: Love
13. Part Two Life: Kai Kairos
14. Part Two Life: Ascende Huc
15. Part Two Life: Veni Et Vidi
16. Part Two Life: Qui Erat Et Qui Est
17. Part Two Life: Lacrimosa - Day Of Tears
18. Part Two Life: Prayer

BAIXAR AQUI (DOWNLOAD)

Clara Schumann

O Tigre Fortuito

5 de outubro de 2008

Certo dia, pouco depois de despertar e antes de tomar o café-da-manhã, descobri que havia um tigre em meu apartamento. Não sei como ele chegou lá. Dormia aninhado na roupa suja, ao lado da máquina de lavar. Talvez tivesse se desgarrado de um circo, talvez fosse o mascote extraviado de um dono irresponsável. Com o coração disparando no peito, recuei no maior silêncio possível, e sai.

Passei o dia todo pensando no tigre. Pensei que era mentira, ou alucinação. Duvidei de minha capacidade intelectual, e depois dos meus sentidos. Temi ser devorado. Depois, experimentei a mais peculiar animação: quantas pessoas podem dizer que tiveram um tigre em suas casas? Ali, nas roupas sujas, ao lado da máquina de lavar?

Não chamei polícia, nem bombeiros. Iam me considerar louco, na melhor das hipóteses. Na pior, poderiam achar que o tigre era meu, que tentava apenas me livrar do animal agora que o ônus de criá-lo se tornara fardo pesado demais. Tigre é animal silvestre, eu podia ser preso, multado, sabe-se lá o que mais. Não. Resolvi calar. Esperar que o tigre fosse embora, se é que havia mesmo um tigre e não somente um truque de minhas percepções. Em todo caso, passei no açougue antes de voltar para casa. Não queria meu hóspede faminto.

Abri a porta, entrei, o saco de 10 quilos de coxão duro pesando úmido nos meus braços. Eu ofegava. Então, perdi o fôlego. O tigre ainda estava lá. Como um rei, se esparramava sobre o sofá da sala. Virou devagar a cabeça para mim, quase desinteressado. Nossos olhares se cruzaram pelo mais breve instante e então ele piscou, e virou o rosto. Não se importava comigo, não queria saber de mim. Mas ainda assim preferi não arriscar. Lançei o coxão mole sobre o piso, deixando-o desabar barulhento no centro da sala, e enquanto o tigre avançava sobre a carne recém-chegada, corri para o meu quarto, onde me tranquei.

Por todo um fim-de-semana vivi trancado no quarto, refém do meu tigre. As pessoas ligavam e eu inventava desculpas no telefone para não encontrá-las. Perdi reuniões e amigos. Através da porta podia ouvir sua respiração, o som de suas garras rasgando o assoalho, de seus passos por todo meu apartamento. Ele brincava, derrubava coisas, parecia estar se divertindo enquanto eu me encolhia em agonia. Chegou segunda-feira, e eu tinha que ir trabalhar. Abri a porta devagar, dei uma espiadela… o tigre ressonava sereno no meio do corredor, sobre os destroços de meus livros e discos, de meu computador. Uma facada sutil de dor passou pelo meu peito, mas respirei fundo e segui em frente, sobre os restos mortais de Caio Fernando Abreu e Clarice, de Lou Reed e dos Beatles. Canções que eu não conseguiria mais ouvir calçavam o caminho até o tigre, que pisei com o cuidado exigido pelo silêncio. Pé ante pé me aproximei e quando já me aproximava da fera, seus olhos se abriram. Sem fazer nenhum movimento, ela apenas rosnou, contrariada. Parei, dei meia-volta e retornei para o quarto, de onde liguei para o emprego avisando que estava doente. Por um bom tempo.

Não dormi direito aquela noite, como já não dormia mais. Exausto, passava as madrugadas rolando na cama, imaginando que a qualquer momento seria devorado. Me erguia, súbito, tomado por acessos de pavor, para verificar se a porta do quarto estava trancada. Via que estava, relaxava. Ao deitar, me perguntava como aquele fina lâmina de madeira compensada poderia resistir às vontades de um grande felino de meia tonelada, e o terror voltava. Lá fora, a sinfonia da noite, as buzinas e carros apressados, os cães latindo, os sons de bêbados voltando para casa, se misturavam ao barulho de minha geladeira sendo derrubada como uma presa recém-conquistada, ao som do meu computador sendo destroçado, mastigado por uma mandíbula prenha de dentes, feroz. Eu chorava. E me perguntava qual seria o ato, o passo em falso, que o faria me matar.

Consegui então dormir. Estava exausto demais, minha mente fervia com a febre trazida pela preocupação. Nem percebi o sono chegar. Só o notei porque, na profundeza da madrugada, quando todos os ruídos já se cansaram e o mundo inteiro dorme, pudi ouvir distintamente o som de suas patas adentrando meu quarto. Prendi a respiração, meu coração explodiu no peito. Cada pedaço de mim se contraiu em temor. Meus olhos, arregalados, não divisivam nada nas trevas. Mas eu podia sentí-lo, com meu medo, com esse pavor que se extendia além de mim e abarcava todo o quarto, podia perceber o ar abafado sendo deslocado pelas movimentações de seu corpo enorme, podia apalpar com minha apreensão a temível simetria de seus músculos, sentir o corte de suas garras, a beleza de suas listras, a força de suas presas. Fechei os olhos para conter as lágrimas e senti seu hálito, quente e impiedoso, caindo sobre minhas costas e meu pescoço. E me queimava.

Eu talvez tenha desmaiado. Ou ainda, tudo pode ter sido apenas um sonho, vívido e cruel. Mas quando abri os olhos já era dia, os primeiros e hesitantes raios de sol já pedindo licença para atravessarem as venezianas e iluminarem o recinto. Me levantei com calma, evitando os movimentos bruscos, e percebi que não havia tigre ao meu lado. Minha porta estava fechada, firme e trancada. Receoso, encostei nela e investiguei os ruídos do lado de fora. Não ouvi os sons do tigre, nem seus passos, nem seu ronronar dorminhoco. Abri uma fresta, me preparando para mil emboscadas. Não havia nenhuma. Com cuidado, pensando cada passo, fui avançando por meu apartamento. O tigre não estava mais lá. Desaparecera no ar, de forma tão gratuita e mágica como quando surgira.

Sentei sobre o sofá rasgado da sala, e observei o que ele me deixara… minhas coisas quebradas, destroçadas, destruídas. Alguns dos meus livros marcados, alguns para sempre inutilizados. Meus álbuns e dvds, quebrados, mastigados, comidos. Muito da minha vida arrasada. E chorei. Chorei em meio às ruínas do que restara. O tigre tinha partido. Mas de certa forma, eu o amava.

Jean-Philippe Rameau (1682- 1764) - Aberturas

5 de outubro de 2008

Aqui acaba a breve chateação couperiana. Para tirar o gosto da postagem anterior, posto um dos melhores CDs já gravados de música barroca francesa, um verdadeiro espanto. Curvo-me ante Christophe Rousset. Quem faz um registro deste nível merece os maiores elogios. Nada menos que genial. Sete compradores analisaram o disco na Amazon e, nem precisaria conferir, todos deram-lhe a nota máxima. Temos aqui 17 aberturas de óperas de Rameau, algumas de óperas cômicas, outras de tragédias, outras de “pastorais heróicas”.

Rameau foi um grande gênio não apenas na música, mas também na matemática. Como tal, deu especial atenção à estrutura das coisas que compunha, algo que certamente fugiu ao irritante Couperin — do qual declaro-me inimigo desde a audição do CD postado abaixo… (Por que meu pai gostava de Couperin, meu Deus?) Bem, voltemos ao grande Rameau. Ele escreveu um famoso tratado de harmonia. Era também muito conhecido como professor de cravo e sua técnica só foi modificada por Johann Sebastian Bach — dá-lhe papai! No final de sua vida, tornou-se “compositor do rei”. Ao falecer, teve todas as honras da nobreza e funeral público com grande pompa.

CD absolutamente imperdível!

Jean-Philippe Rameau (1682- 1764) - Aberturas

1. Les fêtes de Polymnie - Overture 2:41
2. Les indes galantes - Overture 4:05
3. Zaïs - Overture 5:16
4. Castor et Pollux - Overture 4:16
5. Naïs - Overture 3:49
6. Platée [ou Junon jalouse] - Overture 3:40
7. Les fêtes d’Hébé - Overture 4:22
8. Zoroastre - Overture 4:04
9. Dardanus - Overture 4:08
10. Les Paladins - Overture - Menuet - Air gai 3:59
11. Hippolyte et Aricie - Overture 2:54
12. Le temple de la gloire - Overture 3:53
13. Pygmalion - Overture 4:36
14. Les surprises de l’Amour - Prologue (le Retour d’Astrée) 2:29
15. Les Fêtes de l’Hymne et de l’Amour (ou Les Dieux d’Egypte) - Overture 4:04
16. Les surprises de l’Amour / Act 1 (Enlèvement d’Adonis) - Ouverture - II Adagio - III - 5:20
17. Acante et Céphise, ou La sympathie - Overture: Voeux de la Nation

Les talens lyriques
Christophe Rousset

BAIXE AQUI - DOWNLOAD HERE

PQP

François Couperin (1688-1733) - Les Nations

5 de outubro de 2008

Ah, esses franceses. Costumo gostar muito dos discos do Musica Antiqua de Köln, mas algo deu errado aqui. Couperin, sem dúvida! Achei o CD sem graça, fiquei indiferente. É tudo moderadamente bonitinho e bastante homogêneo. Meio chato. Trata-se de um “barroco estático”… Há quem goste. Para tirar o gosto ruim deste CD, daqui a pouco posto um Rameau salvador, OK?

Couperin: Les Nations, 1726

Premier Ordre: La Francoise

01. Sonata [6:18]
02. Allemende. Sans lenteur [3:37]
03. Premiere Courante. Noblement [1:23]
04. Seconde Courante. Un peu plus viste [1:18]
05. Sarabande. Gravement [2:00]
06. Gigue. Gayement [1:15]
07. Chaconne ou Passacaille. Moderement [2:33]
08. Gavotte [0:56]
09. Menuet [1:08]

[20'15"]

Second Ordre: L’Espagnole

10. Sonata [7:45]
11. Allemande. Gracieusement [2:55]
12. Courante. Noblement [1:42]
13. Second Courante. Un peu plus vivement [1:37]
14. Sarabande. Gravement [1:41]
15. Gigue louree. Moderement [2:16]
16. Gavotte. Tendrement, sans lenteur [0:56]
17. Rondeau. Affectueusement [2:28]
18. Bourree. Gayement [0:51]
19. Double de la Bourree precedente [0:53]
20. Passacaille. Noblement et marque [4:30]

[27'30"]

Troisieme Ordre: L’Imperiale

01. Sonata [9:49]
02. Allemande. Sans lenteur [2:21]
03. Courante [1:26]
04. Seconde Courante. Plus marquee [1:31]
05. Sarabonde. Tendrement [2:16]
06. Bourree. Gayment [1:01]
07. Gigue. D’une legerete moderee [1:10]
08. Rondeau. Gayement [2:07]
09. Chaconne [4:31]
10. Menuet [1:07]

[27'10"]

Quatrieme Ordre: La Piemontoise

11. Sonata [8:16]
12. Allemande. Noblement et sans lenteur [2:37]
13. Courante [1:24]
14. Seconde Courante. Un peu plus gayement [1:50]
15. Sarabande. Tendrement [2:31]
16. Rondeau. Gayement [2:02]
17. Gigue. Affectueusement, quoy que legerement [1:56]

[20'36"]

Performers:
Reinhard Goebel, Hajo Bas (violin);
Wilbert Hazelzet, Philippe Suzanne (flute);
Jaap ter Linden (viola da gamba);
Henk Bouman (harpsichord)

Musica Antiqua Koln
Reinhard Goebel, dir.

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PQP

O Prêmio Anti-Nobel de 2008

5 de outubro de 2008

Não, não é brincadeira. Ou melhor, talvez seja, porém o Prêmio Anti-Nobel (ou Ig Nobel) é dado por instituições sérias, tais como a Universidade de Harvard e outras. A lista completa está aqui, mas traduzo a meu modo e destaco a seguir algumas premiações fundamentais.

Medicina:

O médico norte-americano Dan Ariely publicou um alentado estudo no Journal of American Medical Association provando que a “medicina falsa e cara” funciona melhor que a “medicina falsa e barata”. Prêmio Ig Nobel para ele!

Biologia:

Marie-Christine Cadiergues, Christel Joubert e Michel Franc, da Facultade de Veterinaria de Toulouse, demonstraram, em artígo publicado na Veterinary Parasitology, que as pulgas saltam mais sobre os cães do que sobre os gatos.

Química (prêmio compartilhado):

Os químicos norte-americanos Sheree Umpierre, Joseph Hill e Deborah Anderson, descobriram que a Coca-Cola é um espermicida efetivo. Publicaram sua pesquisa no New England Journal of Medicine.

Enquanto isso, em Taiwan, C.Y. Hong, C.C. Shieh, P. Wu y B.N. Chiang descobriram justamente o contrário em estudo estampado na revista Human Toxicology. Prêmios Ig Nóbeis para todos.

Sem palavras (minhas) II

5 de outubro de 2008

*by Angeli

Hobsbawn para principiantes

5 de outubro de 2008
Eric Hobsbawn - A crise do capitalismo e a importância atual de Marx (Marcello Musto, do Sin Permiso) Uma ótima entrevista do historiador Eric Hobsbawn, em sintonia com a tempestade econômica dos...

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Opções demais

5 de outubro de 2008

_____Conheço gente que, na hora de escolher um vereador, age da seguinte maneira:

_____Tenho nojo dessas pessoas.