EDIVANDRO e GABRIEL

Por RICARDO MONTERO - rickmoon@gmail.com

Eu estava fotografando o São Vito quando conheci os entrevistados de hoje, Edivandro e Gabriel. Antes da transcrição de nossa prosa, gostaria de falar sobre o São Vito.

Conhecido como “treme-treme” , o Edifício São Vito fica no centro de São Paulo, quase incrustado no Parque Dom Pedro. Ladeado por movimentados viadutos e pelo fétido rio Tamanduateí, o prédio fica em área das mais decadentes, em frente ao Mercado Municipal. Entregue em 1959, tem 624 quitinetes distribuídos em 26 andares residenciais. Mal conservado, autêntica favela vertical, foi esvaziado para reforma pela prefeitura em 2004. Na ocasião, abrigava 1200 pessoas.

Desde então, São Paulo teve três prefeitos – Marta Suplicy, José Serra e Gilberto Kassab – e o São Vito continua abandonado, fantasmagórico e sem revitalização. Em 2007, as famílias perderam a bolsa-aluguel e anunciou-se um novo plano: a prefeitura pretende demolir o edifício, e também o vizinho Edifício Mercúrio (24 andares, 1000 moradores) para a implantação de uma esplanada. Ao que parece, inexiste qualquer programa habitacional para aos antigos moradores dos edifícios.

Apresentado o São Vito, apresento agora a vocês Gabriel (sem camiseta) e Edivandro (com camiseta).

Quais os seus nomes?
Edivandro… Gabriel.

V&I: Quantos anos vocês têm?
Edivandro: Dez.
Gabriel: Dez.

V&I: Vocês estudam? Estão em que ano?
Edivandro e Gabriel: Quarto.

V&I: O que vocês querem ser quando crescerem?
Gabriel: Eu quero ser advogado.
Edivandro: Jogador de futebol.

V&I: Você joga bem, Edivandro?
Edivandro: Jogo. Sou atacante.

V&I: Gabriel, por que você quer ser advogado?
Gabriel: Poque eu quero ajudar as pessoas.

V&I: Qual de vocês morava no São Vito?
Gabriel: Eu. O treme-treme… [Apelido do edifício.]

V&I: Você morou até fecharem o prédio?
Gabriel: Eu morei lá desde 1999 até fechar. Aí prefeitura ficou pagando um apartamento. Eles falaram que iam reformar o treme-treme todinho e depois dar a casa sem pagar.

V&I: Não reformaram o prédio e depois a prefeitura parou de pagar o aluguel.
Gabriel: Foi.

V&I: Vocês não devem gostar nem da Marta, nem do Serra e nem do Kassab.
Gabriel: Não.
Edivandro: Até no Mercadão estão fechando os boxes onde a gente trabalha.

V&I: Vocês ajudam seus pais com o trabalho?
Edivandro e Gabriel: É.

V&I: Seus pais trabalham no Mercado.
Gabriel: É, trabalham.

V&I: Quantos apartamentos o prédio tinha?
Gabriel: Espera aí, eu sei.

V&I: Quantos andares?
Gabriel: Vinte e quatro. [Na verdade, vinte e seis]

V&I: Quantos apartamentos por andar?
Gabriel: Quinze. [Na verdade, vinte e quatro.]

V&I: Então, 360 apartamentos. [Errado, são 624.] Enorme. E falam que vão demolir, não é?
Gabriel: Se demolirem, vão demolir também o Mercúrio.

V&I: Vocês moram no Mercúrio?
Gabriel: Não, naquele prédio ali. [Apontam para um prédio de uns cinco andares, separado do Mercúrio por uma rua estreita.]

V&I: Você gosta mais de onde você mora hoje?
Gabriel: Eu gosto mais de onde moro hoje. No treme-treme tinha muito ladrão, muito nóia [gíria para viciado em crack], jogavam lixo nas escadas. Tinha homem se beijando na escadaria…

V&I: Homem com homem?
Gabriel: É. Traveco também. Tinha também muito cara que fumava maconha.
Edivandro: Mas a polícia pegou também.
Gabriel: A polícia pegou foi um tiroteio, vixe. Matou um monte.

V&I: Isso foi quando foram esvaziar o prédio?
Edivandro: Foi.
Gabriel: Acertou no meu tio, aqui. [Aponta para o braço.]

V&I: Bala perdida?
Gabriel: É. Mas depois, quando teve o tiroteio, quase todo mundo desceu. Só ficaram os traficantes. Subindo lá não tinha água…
Edivandro: Jogaram sofá.
Gabriel: Fizeram uma fogueira, queimaram colchão, sofá…
Edivandro: Jogaram lá de cima pra baixo: pá!

V&I: Onde o sofá caiu?
Edivandro: Ali.
Gabriel: No meio da rua. E já morreu cara aí se jogando.
Edivandro: Se jogou do terceiro andar.
Gabriel:Até podia sobreviver, mas pegou numa quina e morreu.
Edivandro: Estourou as costelas todinhas.

V&I: O que vocês esperam do futuro?
Edivandro: Um futuro melhor.
Gabriel: Honestidade, paz, amor.

V&I: O que você acham do Brasil?
Gabriel: País bom pra viver.

V&I: As coisas estão melhorando?
Gabriel: Não, não estão.
Edivandro: Com esses prefeitos, também…

V&I: Gostam do Lula?
Gabriel: Do Lula eu gosto um pouquinho. Agora, o Serra, o Kassab, tudo ladrão. O Lula tinha roubado não sei quanto do governo. Agora, ele está melhorando.

Fiz então as fotos dos educadíssimos e simpáticos meninos: eles largaram suas bicicletas no chão e posaram para mim. Anotei os endereços e ainda nesta semana envio as fotos pelo correio.

Quando me despedi, lembrei da canção do Caetano dedicada à Sampa:

Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas

Mais uma vez a história se repete: sob o pretexto da recuperação urbanística de uma região, removem-se os pobres para longe e promove-se a especulação imobiliária em favorecimento de uns poucos. Por que não recuperar os prédios localizados em frente ao mercadão e destiná-los para programas de habitação popular?

De todo modo, ao menos por enquanto o São Vito continua em pé. Em ruínas, mas… imponente.

JOÃO

Por RICARDO MONTERO - rickmoon@gmail.com

Apesar de estar a menos de três quilômetros do centro de São Paulo, eu nunca havia visto aquela igreja e decidi fotografá-la. Na rua com pouco trânsito, muito me chamou a atenção o homem que alimentava pombos sob a sombra de uma árvore: estatura média, corpo magro, roupas gastas, saco plástico na cabeça fazendo as vezes de chapéu; por certo um morador de rua. Aproximei-me e puxei conversa.

Qual é o seu nome?
João.

V&I: Eu estava vendo você dar de comer para os pombos.
João: Sempre que eu posso, eu dou alguma coisinha para eles: sementes, pedacinhos de pão…

V&I: Eles já conhecem você e chegam perto.
João: É, eles já me conhecem.

V&I: De onde você é, João?
João: Sou alagoano. Sou de Ana Dias.

V&I: Está há muito tempo em São Paulo?
João: Estou há cinqüenta e um anos!

V&I: Com quantos anos você está?
João: Estou com sessenta e nove. E olha que já tentaram me queimar três vezes.

V&I: Três vezes?
João: É. Uma com tiro. Bateram em mim duas vezes. Também tive uma veia na perna que estourou, mas eu escapei.

V&I: Você parece ter menos que sessenta e nove. Você tem o corpo forte.
João: É que eu lutava boxe. Eu ainda faço os meus treinos todos os dias.

V&I: Você lutava boxe?
João: Lutava. Eu era médio-ligeiro.

V&I: E você lutou muito tempo?
João: Lutei até os trinta anos.

V&I: Quantas lutas você ganhou?
João: Ah, ganhei muitas, mas o número eu não sei. Só vendo na federação pra saber.

V&I: E quem é o melhor boxeador que você já viu?
João: Éder Jofre. Ele era um gênio. E olha que são poucos os gênios [do boxe].

V&I: Por exemplo, o Muhammad Ali, Cassius Clay?
João: Não, o Cassius Clay, não.

V&I: E por que você parou de lutar?
João: Eu parei de lutar porque senti a necessidade de estudar a espiritualidade. Eu estudei muito. Nessa época, eu parei de lutar e fui ser vendedor.

V&I: E o que você vendia?
João: Eu trabalhava na feira, vendia frutas nacionais e importadas. Fiquei mais de vinte anos na feira.

V&I: Você casou, teve filhos?
João: Não casei e nem tive filhos. Eu fiquei esperando aparecer alguma mulher decente… Difícil isso.

V&I: Não casou, mas namorou bastante, não é?
João: Ah! Eu namorei bastante. Mas eu nunca casei porque sempre tive muita proteção [espiritual]. Tinha mulher que era aproveitadora. Tentaram me amarrar três vezes, magia negra. Por isso que eu não casei: porque tenho muita proteção.

V&I: E hoje, o que você faz?
João: Eu durmo nessa casa de convivência [aponta para um casa, alguns metros adiante]. Na casa eu trabalho na horta, almoço quase todos os dias, e também estudo. Eu já estou na quarta série.

V&I: E você gosta de ler?
João: Não, eu não gosto. Eu até saí de Alagoas porque não gostava de estudar. Meu pai pegou uma daquelas espingardas de dois canos e me pôs pra fora de casa.

V&I: A sua família ficou toda em Alagoas?
João: Éramos onze irmãos nascidos vivos… Meu pai era agricultor e trabalhava com comércio na cidade. Mas tinha muita terra: plantava mandioca, cana, abóbora… Com dezoito anos eu fui para São Paulo. Nunca mais soube deles.

Já havíamos conversado por mais de vinte minutos quando João disse que precisava ir, pois tinha horário a cumprir na casa de convivência. Como havia reclamado de uma dorzinha de cabeça, ofereci uma aspirina que eu trazia no carro; ele recusou, dizendo que ficaria bom depois que mascasse fumo e fizesse uma oração. Insisti em minha oferta e perguntei se ele tinha certeza; ele agradeceu e mais uma vez recusou, alegando que “remédios queimam os músculos”. Quem sou eu para discutir ante os sessenta e nove anos de João?

MARCOS

Por RICARDO MONTERO - rickmoon@gmail.com

A noite nem era das mais frias e eu estava fazendo fotos no Centro de São Paulo. Já passava das onze, um horário em que não se vê turistas no Pátio do Colégio, mas apenas moradores de rua. Foi então que conheci Marcos.

Qual é o seu nome?
Marcos.

V&I: Pelo seu sotaque, você é do sul.
Marcos: Sou gaúcho.

V&I: O que você está fazendo nesta noite de quinta-feira, aqui no Pátio do Colégio?
Marcos: Eu sou um missionário de rua, eu trabalho na evangelização de moradores de rua. Eu também encaminho esses moradores para nossas casas de acolhida, onde oferecemos toda a assistência que eles precisam, tanto médica quanto espiritual, assim como em relação a outras coisas como emprego e roupas.

V&I: Atividades filantrópicas.
Marcos: Isso mesmo, o nosso trabalho é um trabalho filantrópico. A gente não tem recursos, a gente conta com a providência de Deus.

V&I: Para qual entidade e há quanto tempo você faz esse trabalho?
Marcos: Para a Missão Belém. Eu sou consagrado há três anos.

V&I: Explica para mim: o que significa “ser consagrado”?
Marcos: Ser consagrado? Significa que eu dedico minha vida a trabalhar para Deus.

V&I: Você é leigo ou tem formação teológica?
Marcos: Eu estou fazendo teologia, sexto semestre. Em dezembro eu pretendo começar meu noviciado e me tornar seminarista.

V&I: Vai se tornar padre?
Marcos: Não, vou me tornar frei, pois eu sou franciscano.

V&I: Qual a diferença de um padre e de um frei?
Marcos: O estudo do frei é diferente do estudo para o sacerdócio. Mas a primeira coisa que nós, franciscanos, abandonamos, são os bens materiais. Temos voto de pobreza. Um franciscano não tem mais de duas calças e duas camisas. Nós vivemos mais para o irmão do que para nós mesmos.

V&I: Qual a estrutura da Missão?
Marcos: Nós somos trinta missionários, dois padres e duas freiras.

V&I: Quantas pessoas são atendidas por esse projeto?
Marcos: Em São Paulo nós temos dezesseis casas, desde Bragança [Paulista] até Rio Grande da Serra, com um total de seiscentos irmãos acolhidos.

V&I: Você passa ao dia todo se dedicando a esse trabalho?
Marcos: O dia inteiro. Estou dormindo na rua há dez dias. É difícil, é preciso ter muita força de vontade. Hoje eu tinha dinheiro para almoçar, mas tinha um irmão para levar até a comunidade. Eu não almocei, eu levei o irmão. Às vezes a gente tem que renunciar às coisas em prol de um irmão.

V&I: Parabéns pelo trabalho, meus votos de sucesso.
Marcos: Obrigado.

V&I: E se algum leitor quiser conhecer esse trabalho?
Marcos: Quem quiser pode nos visitar. Estamos na rua Nélson Cruz 10, ao lado da Febem do Tatuapé.

Marcos se despediu e saiu na direção de um grupo de moradores de rua. Antes, pedi para fotografá-lo; gentil, mas firmemente, alegou que não podia se deixar fotografar. Por isso, excepcionalmente, as tradicionais fotos do entrevistado foram substituídas por esta foto que fiz no Pátio do Colégio em 2006.

Em tempo, uma curiosidade: achei um sítio bílingüe (italiano e português) da Missão Belém. A página inclui umas poucas fotos (clique aqui para ver).

VERÔNICA

Por RICARDO MONTERO - rickmoon@gmail.com

Após uma decadência que perdurou por décadas, a rua do Comércio ostenta iluminação por lampiões estilizados, piso de paralelepípedos e tráfego de bondes. Graças aos incentivos fiscais oferecidos pela prefeitura de Santos, muitos dos velhos casarões foram restaurados e hoje são ocupados por comércio e serviços. Persistem ainda alguns pardieiros habitados por gente muito pobre, além de várias construções em ruínas. Foi nesse cenário em que a vi: apesar do frio e da atadura em um dos joelhos, dava passos rápidos, e o tempo inteiro cantarolava uma canção que eu não conhecia.

V&I: Que música você está cantando?
Ela: É um hino da Igreja Universal do Reino de Deus.

V&I: Você freqüenta essa igreja?
Ela: Não, a minha mãe que é de lá. Às vezes eu também vou. Você já foi lá?

V&I: Não, eu nunca fui.
Ela: Você devia ir. É legal!

V&I: Qual o seu nome?
Ela: Verônica.

V&I: O que você faz da vida?
Verônica: Eu sou casada, mas saí de casa. O meu marido me batia… Aí eu saí de casa com meu filho de oito meses.

V&I: E onde você está morando?
Verônica: Peguei vaga nesse hotel. [Aponta para um hotel decadente, a fachada despedaçada.]

V&I: Você trabalha?
Verônica: Não, agora eu estou parada.

V&I: E o que você fazia?
Verônica: Eu era encarregada de recicragem. [Sabe que falou errado e tenta consertar.] Re-ci-cra-gem… Não adianta, eu não consigo falar.

V&I: Tenta de novo, bem devagar: re-ci-cla-gem.
Verônica: Não, eu não consigo. Desde pequena, na escola…

V&I: Você é do interior?
Verônica: Não, sou daqui de Santos mesmo.

V&I: É que você tem um sotaque meio caipira… Não parece santista.
Verônica: Eu sou daqui. Só não consigo falar algumas palavras…

V&I: Você está procurando emprego?
Verônica: Estou, mas está difícil porque eu estudei pouco.

V&I: Até que série você estudou?
Verônica: Só até a quinta série. Por isso fica difícil conseguir trabalho.

V&I: O que o seu marido faz?
Verônica: Ele é frentista.

V&I: Por quanto tempo você ficou casada?
Verônica: Esse é meu segundo casamento. O primeiro durou quatro anos; esse, três anos. O problema é que ele bebe e depois quer bater… Quem não sabe beber não pode beber.

V&I: E você teve esse filho com ele.
Verônica: Isso, esse de oito meses. E tenho um outro do primeiro casamento, está com dezesseis anos.

V&I: Quantos anos você tem?
Verônica: Trinta, quase trinta e um.

V&I: Parece que tem menos. Você casou nova.
Verônica: É, casei nova.

V&I: E como você está se virando sem trabalho?
Verônica: Eu peço ajuda às pessoas. Hoje eu já consegui dinheiro para o leite em pó do Guilherme. [Mostra na mão um punhado de moedas e de notas amassadas.] Estou indo comprar. Preciso agora arrumar dinheiro pra vaga, vence amanhã.

V&I: Quanto custa a vaga?
Verônica: Doze reais por dia.

V&I: Quanto dura uma lata de leite?
Custa sete e oitenta e dura três dias. Eu misturo como maisena pra render mais.

V&I: Quantas mamadeiras por dia?
Verônica: [Parou fazer as contas antes de responder.] Nove.

V&I: Você não está mais amamentando?
Verônica: Tive que parar logo. Eu tive pneumonia…

V&I: Teve pneumonia e teve que parar por causa dos antibióticos.
Verônica: Isso mesmo.

Verônica parou de falar por um instante e olhou na direção da esquina. Por engano, pensou ter visto o bebê acompanhado do filho mais velho. Disse que precisava ir, pois ainda ia comprar leite para o Gilherme. Antes de me despedir, fiz menção ao futuro; Verônica, sorridente, respondeu que todos os dias precisava conseguir o dinheiro para dar de comer ao filho, e que até agora tem conseguido. Pedi para fotografá-la, fiz as fotos e nos despedimos. Quando ela saiu, não mais cantava, mas nem por isso parecia menos feliz do que antes de nossa conversa.

IVANA

Por RICARDO MONTERO - rickmoon@gmail.com

As três mulheres desciam a avenida Brigadeiro Luís Antônio apressadas. A luz da tarde de domingo ressaltava o cuidado delas com as roupas, com a maquiagem, com os adereços. Abordei uma delas quando as outras duas já subiam as escadas do Cartola Club, um dos mais famosos salões de baile de São Paulo.

Qual é o seu nome?
Ivana.

V&I: Pelo visto, hoje é dia de festa. Você sempre sai para dançar?
Ivana: Sempre. Todos os domingos e todas as sextas-feiras, com elas [aponta escada acima].

V&I: Elas são amigas, parentes?
Ivana: Uma é minha filha, a outra é minha amiga.

V&I: Que ritmos você mais gosta de dançar?
Ivana: Adoro bolero, samba…

V&I: Você dança há muito tempo?
Ivana: Ah, já há uns vinte anos.

V&I: E como você aprendeu a dançar?
Ivana: Sozinha!

V&I: Mas como que se aprende a dançar sozinho?
Ivana: Os parceiros ensinam!

V&I: Você tem parceiro fixo?
Ivana: Não. A cada vez que a gente vem, dançamos com pessoas diferentes. Sempre tem gente nova.

V&I: Funciona à moda antiga? É o cavalheiro quem tira a dama para dançar?
Ivana: Exatamente. Ainda é assim.

V&I: Bolero é sua especialidade?
Ivana: Sim. E samba também.

V&I: Algum ritmo mais difícil de dançar, alguma coisa que você tentou e não conseguiu?
Ivana: Tango. [Faz uma pausa e parece suspirar.] Tango é uma arte…

O baile já tinha começado e mesmo da calçada onde eu me encontrava a música era audível. Não apenas minha interlocutora, mas também as pessoas que chegavam mostravam-se nitidamente apressadas, ansiosas por dançar; por isso, não me estiquei em mais perguntas. Pedi para fotografá-la; ela chamou a filha para as posar com ela e enfim Ivana pôde subir as escadas para entrar no baile. E eu, que sou completamente desconjuntado quando tento dançar, fiquei ali pensando que, inegavelmente, o tango é uma arte.

***

Esta foi a primeira entrevista que fiz baseada não no acaso de encontrar as pessoas nas ruas, mas sim em uma pauta pré-definida. A idéia de conversar com frequentadores dos salões de baile foi da Maray, do Che Caribe. Em breve, pretendo voltar ao Cartola Club no final do baile, um horário com dançarinos menos descansados e com mais tempo para o exercício da prosa.

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