Ciência e Humanidades - Berros de Cassandra

Nada se parece, aos meus olhos, mais com a melancolia bucólica dessa nossa parva estratificação social que a vida encontrada na rotina inquestionada e quase contínua das classes abastardas. Mais que uma novela capaz de mostrar o sórdido aos olhos famintos do povo, pela desgraça e finais felizes, não está presa a telinha da TV ou aos antigos folhetins a miséria vivida por essa gente, a miséria de vida repleta de riquezas materiais.
Crianças perdidas em diálogos monossilábicos, olhos vidrados em telas, mentes desprezadas e abandonadas do aconchego do que antes essa mesma sociedade chamava de lar; afinal não havia lugar como o lar. Tecnologias que açoitam o dia-a-dia dessa gente invertendo valores, apagando almas, roubando vidas. Não posso, e nem devo, dizer que a tecnologia é a culpada, somos reféns dessa fome insaciável pelo novo, pela ausência de distancias e nos perdemos nos corredores das grandes casas, jardins impecáveis e apartamentos luxuosos.
A tela substituiu a conversa, o telefone o colo, e os amigos distantes o afago carinhoso de um boa noite, um abraço sincero e um debate acalorado. Não há mais porque se revoltar, são crianças que não compartilham em casa ou confrontam gerações; são filhos da tecnologia viciante do frenético prazer de consumir e substituir os olhares por...pelo que mesmo?
Infâncias sem jogos lúdicos, onde confrontos são problemas de convivência, diferenciais patologias e vidas controladas por e-mail, SMS e cartões de acesso. Amedronta os amantes da velha coversa ao amanhecer, da troca de conhecimentos e confronto de idéias. Não falaremos mais, será evolução perdemos as cordas vocais?
Um tanto apocalíptico, eu sei, mas tenho medo. A sociedade não se divide mais simplesmente pela distribuição de renda, trabalho e geografia; nos dividimos por interesses preservando as crianças e adultos do caloroso debate, risos e dúvidas que tanto alimentaram nossas almas e olhares curiosos ao longo do tempo.
Se quebrou, hoje substituímos a ferramenta de socializar por outra mais moderna. As mudanças internas não se encaixam mais dentro da rotina da família abastarda; são todos relacionados por ferramentas maquinarias, como se a máquina desejante de Deleuze e Guatarri não coubesse mais em nossos corpos.
Seriamos então ciborgues forçados pela necessidade da máquina desejante? Ou apenas desaprendemos a lidar com a que possuímos “de série”? O esquizoide é o novo padrão de relacionamento social, e o tão amado Édipo de Freud deixou sua trindade cegou-se e tornou-se um oráculo. Resta, pra mim, a esperança de que sua filha deixe sua tecnologia de lado e não terceirize os cuidados de seu pai. Alimente-o, afinal oráculos também precisam comer.
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