Ciência e Humanidades - Instantâneos Sociológicos

Há algumas semanas, entrei no Facebook. E saí do Facebook. Resisti uns dez dias. Sentia-me profundamente invadida, vigiada em cada palavra ou ação. Toda informação que eu adicionava – por mais impessoal que fosse – levava o sistema a me sugerir amigos, grupos, páginas e anúncios. Cada toque no teclado era um byte de informação sobre minha localização, preferência, personalidade. Sentia-me voluntariamente aprisionada, fugi assustada.
Por coincidência, nesse mesmo período, o Facebook foi estrela de acontecimentos mundiais: foi importante para mobilizar manifestantes na Tunísia e, exatamente por isso, logo conquistou o posto de inimigo de autoridades do Egito e da Síria, porque poderia prestar o mesmo serviço aos cidadãos descontentes desses países.
Achei curioso que o Facebook, que acabava de se mostrar politicamente relevante para pessoas cuja liberdade de expressão ainda é um direito a ser alcançado, se mostrasse a mim, que felizmente vivo em um país democrático, como uma espécie de mordaça. Passei a enxergar o Facebook como um potencial espaço revolucionário. Mas logo vi que, onde as liberdades individuais são vigiadas, há pouco espaço para as liberdades de expressão, associação e manifestação.
Confesso que não acompanho estudos da sociologia das redes sociais. Meus interesses e caminhos são outros. (Mas para quem se interessa pela área, sugiro o blog http://www.bodyspacesociety.eu). Ainda assim, esse descompasso entre o indivíduo e a multidão no ambiente virtual me pareceu algo que a sociologia (sem complementos) pode ajudar a pensar.
Partindo do fato mais simples: é impossível demonizar o Facebook. Em meus interesses de indivíduo, as preocupações predominantes são a privacidade e com a colaboração involuntária com um sistema capaz de me controlar sem que eu pudesse vislumbrar os limites desse controle. Mas as multidões têm outros objetivos e metas e o ambiente do Facebook é para elas um local de encontro, não de vigilância. A rede de relações em um ambiente virtual é um capital social para todos os tipos de usuários, mas nesse contexto de liberdades ameaçadas, é talvez a principal opção de se estabelecer vínculos mais duradouros e úteis.
Acredito que a mobilização via Twitter e Facebook pode ser o caminho de resistência para populações vigiadas em suas vidas cotidianas, subjugadas em seus direitos, que vivem a supressão de suas liberdades mais elementares e a necessidade de escapar dessa violência.
A rede social se constitui, nesses contextos, como uma ferramenta legítima de resistência. Mas esse é um efeito “colateral” das redes sociais. Sua própria estrutura não é voltada para a mobilização, mas para o conformismo; não é planejada para o contato e comunicação entre os diferentes, mas entre os iguais (seja amigo dos amigos de seus amigos, amplie sua rede de amizades sem sair do universo que você conhece e domina, consuma o que seus amigos consomem).
Acho que essa é a verdadeira diferença do uso do Facebook por indivíduos e multidão: é na liberdade individual que seu sistema de controle se faz eficaz. Os cidadãos de países democráticos, mais livres, mais protegidos da vigilância estatal, menos atemorizados pelos seus próprios vizinhos e colegas de trabalho são mais dispersos, menos coesos, menos controlados pela própria estrutura social e pelas redes de relacionamento da vida real.
O Facebook sabe os links que você acessa, as palavras que constam das postagens que você curte, sabe quantas pessoas na rede têm o nome de Maria, mas se você for procurar por sua amiga Maria, ele trará o nome dela primeiro, entre milhões de Marias, cruzando suas informações com as de todas as outras pessoas da rede.
Para ser eficaz nisso, o sistema se cerca de ferramentas para garantir que as pessoas que usam seu serviço são pessoas reais – confirmam o e-mail, o número do celular, a existência do nome, das instituições em que o usuário diz trabalhar ou estudar, e também das outras pessoas se dizem ligadas as essas instituições. Tudo isso de um modo quase imperceptível, divertido, rápido, fácil. Ao final, vai sugerir algo para você comprar, jogar, visitar, sobretudo, desejar. O Facebook sabe mais sobre você do que você mesmo e vai lhe revelar seus desejos.
Fica claro que o Facebook está em busca de consumidores, não de revolucionários. Uma certa dose de revolução em suas páginas – assim como no Twitter ou no Google – é até positivo para o negócio, torna o ambiente simpático e atrativo. Mas não é para isso que ele está ali. Não é por acaso que os governos egípcio, sírio e tunisiano usam o próprio Facebook para identificar seus cidadãos “subversivos”. Nessa rede, formada por indivíduos, a multidão tem seu poder e seu espaço, mas a coerção recairá sobre o cidadão isolado, sem a proteção de sua rede de relações (pois todos estão igualmente visados).
Por outro lado, uma rede social é o uso que damos a ela. Se for possível usá-la para a mobilização, a manifestação política, a troca de conhecimentos e habilidades, a resistência às imposições do capital e do mercado, devemos fazê-lo. Apenas não nos cabe a ingenuidade de acreditar que nesse ambiente, como indivíduos ou como multidão, estaremos livres do controle.
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