Da Guerra e da Morte

Ciência e Humanidades - Outros Critérios

Avatar

A civilização produz ilusões. Essas podem ser mantidas a despeito de eventos traumáticos como as guerras, mas podem, igualmente, sofrer desmantelamento. Existe ilusão com ou sem guerra: a natureza da ilusão é diferente em função da crença a que os eventos históricos nos forçam. Da mesma forma, existe ilusão com ou sem civilização.

Da Guerra e da Morte

A civilização produz ilusões. Essas podem ser mantidas a despeito de eventos traumáticos como as guerras, mas podem, igualmente, sofrer desmantelamento. Existe ilusão com ou sem guerra: a natureza da ilusão é diferente em função da crença a que os eventos históricos nos forçam. Da mesma forma, existe ilusão com ou sem civilização. Contudo, a civilização produz alguns modos de ilusão que se mantidas desmantelam as bases da civilização. A civilização conta com a ilusão da passividade, mas se não é capaz de interrogar as causas profundas da violência, não é capaz de manter a paz. Eventos históricos são produtores de crenças, muito embora também possam ser produzidos por crenças. As ilusões também podem ser produzidas pela história e podem fomentar modificações.


As crenças são distintas das ilusões. A distinção se opera no tipo de ato psicológico que é mobilizado para: o crer e o se iludir. A crença é um ato de conhecimento que se espelha no hábito (ou costume). No fato de que a experiência nos permite confiar que determinados fenômenos continuarão a produzir os mesmos efeitos que produziam no passado. A crença pode tanto ser relacionada a um fenômeno ordinário, quanto a uma descrição conceitual. Assim, creio que haverá aula na próxima hora, da mesma forma como sou capaz de crer que poderei votar nas próximas eleições. Os objetos da crença, nos casos citados, são diferentes, mas o ato de crença é o mesmo.
A ilusão possui estrutura muito semelhante à crença. Contudo, a ilusão provoca pontos de cegueira frente aos mecanismos da indução. A ilusão apresenta como generalização sobre induções, elementos que são apresentados de pronto, de modo dogmático. A crença faz com que uma confiança epistemológica realize efeitos próximos às impressões. A ilusão prescinde da confiança epistemológica e se funda apenas em um simulacro de impressão. Assim, a ilusão é bem sucedida quando consegue impregnar a sensação de crença. A crença é bem sucedida quando consegue impregnar uma sensação de verdade.


A moralidade é fundada em crenças. Principalmente na crença de que se estabelecermos, socialmente, mandamentos que facilitem o convívio social, a sociabilidade será melhor. Essa crença é fundada na percepção (na experiência) de que se observamos alguns preceitos, os outros também os observam, assim a vida pública é mais pacífica para mim e para outrem. A civilização não consegue estar fundada apenas em crenças. Algumas crenças são necessárias e outras são perniciosas para a sociabilidade. Assim, produz algumas ilusões para que possamos aderir a certos enunciados. A ilusão é que seremos recompensados pelas nossas renúncias pulsionais. Seremos compensados pela abdicação de certos instintos com a violência e a poligamia. Assim, se deixarmos de sermos violentos seremos recompensados com uma vida pacífica e se não formos polígamos seremos recompensados com o amor. Essa sentença civilizacional tende a produzir a sensação de uma crença, mas é constantemente quebrada pelo fato de que possa ser pacífico e ter uma morte violenta e ser monogâmico e não ter amor. A ilusão de que nossa consciência moral é fundada no sedimento de que somos partícipes da humanidade, pode ser facilmente dissolvida pela percepção de que a moralidade é uma ilusão que nos evita sofrimentos. Se expusermos todas essas situações ao exame básico da indução, perceberemos que precisamos de ilusões para que possamos renunciar a preceitos que não são necessários. É necessário, para a civilização, que renunciemos a certas pulsões, mas não é necessário que elas sejam recompensadas. A crença na civilização só é admitida em uma ilusão da civilização.

"Acolhemos as ilusões porque nos poupam sentimentos desagradáveis, permitindo-nos em troca gozar de satisfações. Portanto, não devemos reclamar se, repetidas vezes, essas ilusões entrarem em choque com alguma parcela da realidade e se despedaçarem contra ela".

Para Freud um dos motivos da ilusão está atrelado ao fato de que para os homens civilizados, submetidos à educação, não existe mal. Freud encerra toda a discussão metafísica que envolvia a questão do mal. Não é mais questão se o mal é metafísico ou se é moral, se o mal moral é produto do mal metafísico, ou se o mal moral se dá a despeito do metafísico, mas é questão que o mal assume feições diferentes em momentos distintos da civilização. Assim, para os homens civilizados (há certa ironia) o mal não é questão, pois uma vez que seguimos os preceitos da moral e do direito, não há porque se colocar o problema. E os desvios são apenas desvios. Assim, o ressurgimento agressivo do que associamos ao mal é sempre muito surpreendente. Com efeito, Freud encerra toda a tradição metafísica de questionamento do mal porque afirma que o mal é uma percepção de que determinados atos não são suportáveis. Assim, o mal não pode ser relativizado, muito menos esquecido, como faz o homem civilizado, pois a insuportabilidade se recoloca constantemente. A pesquisa psicanalítica demonstra que “... a essência mais profunda da natureza humana consiste em impulsos instintuais de natureza elementar, semelhantes em todos os homens e que visam à satisfação de certas necessidades primevas ”. Os impulsos instintuais não são o mal por essência, mas na sociabilidade.


O mal não existe em si. Da mesma forma como não há nenhum mal que seja metafísico. O mal existe em uma determinada realidade social. Reflete o conflito entre paixões, sensações e convenções. Freud diz que os instintos não podem ser classificados como bons ou maus. Esses seguem as necessidades e as conveniências da sociabilidade. As classificações são produzidas pela aceitabilidade de certas expressões instintuais . Assim, abordar a opacidade do mal pelo prisma freudiano é bastante desejável. Pois não é o fato de se produzir uma ilusão, onde não exista o mal, que extingue que regimes de insuportabilidade da vida não sejam produzidos. O tema do mal sempre se recoloca, com as novas formas de insuportabilidade, mas a ilusão civilizacional também procura se recompor: tornando o acesso a dor do outro impossível, ou não desejável. Tornando o outro uma instância mortificada: opaca ou translúcida. O outro se torna opaco quando sua dor não é mais passível de interesse (toma-se o outro por esfera tão complexa e inacessível que não vale a pena lançar o olhar em sua direção). E o outro se torna translúcido quando absolutamente simplificado. Quando as descrições da natureza humana se tornam tão rasas que não vale a pena indagar sobre crenças, valores, paixões etc., mas tão somente sobre regularidades.


O erotismo, para Freud, é responsável pelos instintos egoístas e pela dimensão do anseio pela sociabilidade. A valorização de sermos amados faz com que tendamos a não querer o sacrifício de certas vantagens sociais. A idéia da renúncia libidinal encontra abrigo nesse ambiente, onde somos recompensados, com a civilização, pelo fato de não realizarmos nossas pulsões. O mal-estar na civilização não pode ser resolvido. Pode apenas ser atualizado em novas formas. Assim, da mesma forma com a civilização vienense do século XIX possuía formas muito particulares de mal, o mundo contemporâneo possui formas bastante distintas. Sendo comparáveis, outrossim, apenas pelo fato de que despertam o mal-estar.


A sociabilidade, para Freud, é influenciada pela história cultural. Assim, aprendemos, no contexto onde estamos inseridos, princípios que se modificam e são transmitidos pelas gerações. Contudo, a sociabilidade também é motivada por aspectos bastante singulares da natureza humana, como a libido. A incorporação de preceitos da cultura acontece de modo bastante conflituoso, pois os “benefícios” da renúncia não são evidentes. Assim, singularmente resistimos à cultura. “[O]s estudiosos da natureza humana e os filósofos de há muito nos ensinaram que nos enganamos ao considerar nossa inteligência uma força independente e ao negligenciar sua dependência em relação à vida emocional ”.


As estratégias de submissão da singularidade à cultura são muito variegadas, de modo que não importa, para as instituições, se nossas ações são amparadas por motivos aprováveis ou reprováveis. Importa, apenas, o resultado do conflito entre libido e instituições. Assim, pelo ponto de vista da instituição, a renúncia libidinal é um fenômeno necessário e inexplorável .

"[A]parentemente, as nações ainda obedecem a suas paixões muito mais prontamente do que a seus interesses. Estes lhe servem, na melhora das hipóteses, como racionalizações de suas paixões; elas exprimem seus interesses a fim de poderem apresentar razões para satisfazerem suas paixões".

Freud, com a possibilidade de se pensar a própria morte, é cético. No fim, somos sempre espectadores da morte alheia, como percebia Epicuro. Espectadores em júbilo frente à morte do inimigo e espectadores em pesar pela morte dos amigos. Assim, psicanaliticamente, Freud defende a impossibilidade inconsciente de se perscrutar a mortalidade. Contudo, a guerra possui uma capacidade deveras singular: tornar a morte uma impressão vívida. Tornar a morte um evento sem contorno. Sem que esteja restringida a um espaço territorial ou a algumas pessoas. Na guerra somos forçados a acreditar na morte . A morte, no cenário da guerra, não é mais companheira do fortuito, da velhice, da doença ou do acaso. A morte, no cenário da guerra, assume a figura de um espectro encarnado. “A vida, na realidade, tornou-se interessante novamente; recuperou seu pleno conteúdo ”. Essa sentença, aparentemente paradoxal, afirma o pacifismo de Freud. Mas como pode haver uma sentença pacifista em uma proposição que liga a guerra ao conteúdo pleno da vida? A guerra devolve o interesse à vida na proporção em que nos obriga a permitir que uma ilusão seja destruída. A guerra é filha dessa ilusão. A guerra permite que essa ilusão seja desmantelada. A derrocada das ilusões nos permite superar a guerra e devolver o conteúdo pleno da vida. Sem ilusões. Por certo, que essa foi à ilusão de Freud. A ilusão de que a derrocada de uma ilusão não seria capaz de produzir uma série de outras, ainda capazes de gerar guerra e mortandade. O elemento conceitual que retiramos: a batalha às ilusões não pode ser interrompida.


A seqüência, do argumento de Freud, é a seguinte: a civilização produz ilusões, dentre elas, a ilusão da ausência da morte. A guerra impede que a ilusão da ausência da morte se torne pregnante. A intensidade da guerra faz com que a morte encontre o seu estatuto de crença. Mas a civilização produz novas ilusões sobre a crença na morte, como a ilusão do heroísmo, da conquista, da memória em glória etc. A reflexão sobre a guerra e sobre a morte identifica nosso desejo de guerra, para o qual estabelece proibições. A guerra, em sua desejabilidade, impõe que sejam estabelecidas proibições. Por isso, indica Freud: o que não há alma humana para desejar não precisa ser proibido de nenhuma forma. A engendra da guerra é bastante sutil: em sua ilusão faz parecer que não é desejada, mas produzida. No argumento de Freud a identificação do desejo de guerra nos permite poder proibi-la. Permite que possamos matar os nossos mandarins e não uns aos outros.


Tuer son mandarin – Balzac, em Le Goriot, faz alusão a Rousseau. Rousseau, no trecho usado por Balzac, pergunta ao leitor qual seria sua atitude se pudesse, por mero ato de vontade, sem sair do lugar, e com grande lucro pessoal, matar um mandarim. Para Balzac, Rousseau dá a entender que não se importaria muito com a vida do Chinês. Donde se depreende: inconscientemente, todos nós matamos, ou deveríamos matar, nossos mandarins. A guerra nos impede de matar nossos mandarins. A guerra nos impele a matar outros homens. Muito embora a crença na morte seja muito intensa, inconscientemente estamos em condição de onipotência, não possuímos qualquer reação pulsional que remeta ao medo da morte. A estratégia inconsciente é ser capaz de produzir a ausência da morte para que se possa matar outrem. Se a destruição de si é atual não é possível exterminar o outro.


O anestesiamento empreendido pela guerra não consegue impedir a crença, mas consegue barrar a pulsão. A questão, para Freud, é que um certo regime da civilização oblitera a experiência da morte, afastando todos os seus elementos, mas a mortandade não permite que a proximidade com a destruição, não produza uma crença. Nesse momento, Freud invoca a potência da psicanálise para pensar a crueldade (sua crudelis meditatio) e indaga:

"Não somos nós que devemos ceder, que nos devemos adaptar à guerra? Não devemos confessar que nossa atitude civilizada para com a morte estamos mais uma vez vivendo psicologicamente acima de nossos meios, e não devemos, antes, voltar atrás e reconhecer a verdade? Não seria melhor dar à morte o lugar na realidade e em nossos pensamentos que lhe é devido, e dar um pouco mias de proeminência à atitude inconsciente para com a morte, que, até agora, tão cuidadosamente suprimimos"?

O herói não crê na morte (em sua própria morte). E transforma o estrangeiro em inimigo. Deve procurar a morte do estrangeiro e aceitar a morte com bravura. Em suma: a civilização se pretende adversária da morte, ainda que se torne, em muitos momentos, uma máquina de morte. Uma máquina de morte porque não crê na morte.


Para que sejamos capazes de tolerar a vida devemos compreender a guerra. Não se trata da desejabilidade da guerra, mas da perscrutação de que os homens realizam eventos destrutivos pela guerra. E isso fala um pouco da natureza humana. Tornar a vida tolerável. Suportável. Envolve a capacidade de crer na morte e reagir a ela. Pensar a guerra, para ter paz. Pensar a morte, para suportar a vida. Essa é a crudelis de Freud.



Bibliografia

FREUD, Sigmund. Reflexões para os tempos de guerra e morte. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição Standard brasileira. Traduzido do alemão e do inglês sob direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996.




Adicione esta página ao seu Marcador Social favorito
Digg! Reddit! Del.icio.us! Google! Live! Facebook! StumbleUpon! Yahoo! Joomla Portal
Comentários (0)
Escrever um comentário
Your Contact Details:
Comentário:
[b] [i] [u] [url] [quote] [code] [img]   
Security
Por favor coloque o código anti-spam que você lê na imagem.
Avaliação do Usuário: / 0
PiorMelhor 

Login

             Sem conta?

Sua Opinião

Latest Message: 13 hours, 6 minutes ago

Guests are shown between [].

Only registered users are allowed to post

Nossos parceiros

 

Compre na Livraria Cultura e no Submarino. Uma pequena comissão da sua compra ajudará a manter os custos do servidor que hospeda O Pensador Selvagem.

Assine o OPS! por mail

Assine o OPS! por e-mail:

Entregue por FeedBurner

Assine o feed

RSS do OPS!
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons

OPS! no Orkut

Parceria

girafa_trevo

var gaJsHost = (("https:" == document.location.protocol) ? "https://ssl." : "http://www."); document.write(unescape("%3Cscript src='" + gaJsHost + "google-analytics.com/ga.js' type='text/javascript'%3E%3C/script%3E"));