
os convido a ler outra crítica: http://www.amalgama.blog.br/03/2009/jose-bechar.... Consiste numa análise de outra série de trabalhos do artista.
Um forte abraço,
Cesar Kiraly
Ciência e Humanidades - Outros Critérios

A casa é um objeto-fenômeno difícil de ser definido. Ela não é simplesmente um conglomerado de materiais, como também se distingue de um conglomerado de afetos. Não é simples ter uma casa. Não é simples construir uma casa.
José Bechara: da casa aos estilhaços de açúcar-imagem
A casa é um objeto-fenômeno difícil de ser definido. Ela não é simplesmente um conglomerado de materiais, como também se distingue de um conglomerado de afetos. Não é simples ter uma casa. Não é simples construir uma casa. Não é simples destruir uma casa. Assim, o processo que vale a pena investigar é a casa pictórica. Antes de José Bechara não fazia muito sentido estabelecer um discurso sobre a pictorialidade da casa. Nesse contexto duas são as dinâmicas pelas quais podemos investigar a casa: a primeira é a instituição da casa e a segunda a constituição da casa. Instituir uma casa é inscrever a sua adesão: antes do porquê, antes do qual e antes do onde. Instituir uma casa é inscrever a sua modalidade, os sistemas de crenças que a tornam possível e o seu ver como. Não é preciso parecer casa para ser casa, mas antes é preciso ser possível ver como casa. O cancioneiro pictórico contemporâneo nos permite ver homens-casa, entulhos-casa, multidões-casa etc. Para constituir uma casa é preciso que se conceda preferências ao seu modo de funcionar, cores aos objetos, formas aos desejos, é preciso aprender a falar à língua que foi inventada com a instituição e as suas necessidades.
Para abordarmos a instituição de uma casa, antes de tudo é preciso notar a intensa potência de desconforto que a motiva. Inscrever uma casa, o tipo de esforço que nos permite gritar com o seu aparecimento, depende que a casa nos provoque alguma sorte de claustrofobia. Não há porquê transfigurar a casa em objeto de cor se antes de fazê-lo não somos tomados pelo profundo mal-Estar das divisões de uma casa: o qual pode ser descrito pela cisão entre dentro da casa e o fora da casa. Mas por que da porta para dentro temos uma casa e da porta para fora temos a não-casa? A distinção entre dentro e fora não nos ajuda a compreender uma casa. Em 2002 convidado para habitar uma casa em Pinhão no Paraná – e não podemos denominar de “uma decisão” – Bechara expulsa os objetos da casa pela janela. Com efeito, é possível compreender que a instituição de uma casa depende de um ato de violência contra a sua constituição. Uma vez que temos todos os objetos dispostos, sem que uma experiência de disposição tenha tido curso, não somos capazes de tê-los como casa, mas apenas como objetos dispostos. Toda casa começa com uma forte destruição dos objetos dispostos. Na instituição de uma casa pictórica Bechara alia os objetos aos seus processos de individuação e violenta as janelas. A cama, os colchões, mesas, bancos etc. todos são expulsos de dentro da casa pelas janelas. Poderíamos compreender como uma ação de expulsão, pela janela, dos objetos de dentro, ou, como disse Bechara, como uma espécie de cuspe ou vomitório, mas basta olhar um pouco os objetos para compreendermos que não se trata de um diálogo entre o que pode habitar dentro e o que deve compor de fora – os objetos para que pudessem ser expulsos deveriam ser tidos como nunca pertencentes a qualquer divisão. Os objetos não precisam ser cuspidos para que o posicionamento do lado de fora se cumprisse, eles poderiam chegar de fora, nunca tendo estado dentro, eles poderiam ser colocados na janela, sem que a disposição interna fosse necessária. Os objetos não são vomitados da interioridade da casa, mas são as instituições de uma intimidade para a casa. Agora, e antes não era possível – e não há possibilidade senão pictórica – a casa pode ser vista como casa, porque a casa pode expressar o que quer. Ela não é mais um fenômeno da hospitalidade dos anfitriões, ou um arroubo da ambientação do artista, agora a casa é uma coisa outra. Uma vez que a casa expulsa seus objetos – e ninguém expulsa por ela – ela não pode mais ser compreendida como um dentro que abriga de um fora que ameaça. Essa casa se torna um todo de crueldade. Essa casa – pela interioridade concedida – pode se compreender, sobretudo como imagem.
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Não se trata de transformação da casa, Bechara poderia optar interromper o desconforto com a diferença essencial entre o dentro e o fora ateando fogo na casa, ou quebrando as suas paredes, permitindo o seu envelhecimento, mas não, o desconforto não toma ares de essência, mas de imagem, cabe dizer que Bechara empreende a transfiguração da casa. Permite o exercício da violência, em formas e cor, e concede ao objeto uma interioridade expressiva. Uma vez instituída a casa – os seus sistemas de crenças – ela precisa ser constituída.
A instituição da casa de Bechara é violenta e rápida. Logo após a descoberta dessa imagem o artista passa a constituí-la. Ele deixa de afirmar a relação entre a imagem e a intimidade para explorar até o infinito as regularidades desencadeadas por essa dissolução do dentro e do fora. Ele não mais transfigura casas prontas. Mas torna o espaço vazio uma casa. No vazio existe uma casa em potência. Abdica dos móveis com placas azuis de patrimônio para colecionar os seus próprios móveis, para construir os próprios móveis, para fornecer o cromatismo que deseja – abandona o forte tracejado preto que inscreve instituições. Uma vez inventada essa nova imagem, essa nova voz, essa nova gramática da casa, Bechara coloca-se no caminho de aprender a falá-la com precisão. Da instituição feita – violentamente consolidada pelas janelas – ele torna o seu trabalho pictórico a investigação de modos de constituição da casa. Até que constrói as próprias casas no vazio.
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O esforço de regularidade afirma a sua gramática do minimalismo e as casas diminuem de tamanho – mas o vazio é sempre infinito. Não importa o volume com que se fale uma vez encontrada a natureza do grito. As casas se tornam pura cor. As casas assumem os contornos de pura forma. As casas passam a brincar do jogo da metamorfose: as casas passam a se transfigurar em sólidos e cubos.
Mas um problema se manteve aberto. Mas o que Bechara fez com as janelas, não com o contorno das janelas, mas com o vidro das janelas? Não existe solução completa do problema do dentro e do fora sem que sejam explicados os ardilosos jogos de transparência. O que Bechara faz com o vidro das janelas? O vidro das janelas ao mesmo tempo em que se tornou uma nova instituição, depois das casas Bechara institui a transparência enquanto suporte e inscrição, faz do vidro o plano sobre o qual reinventa a constituição de sua arte.
A obra paisagem doméstica ou não me lembro do que dissemos ontem estabelece um marco substancial na obra de Bechara, se antes fazia transformações, agora lida apenas com imagens e transfigurações, a instituição feita pela obra citada continua com a constituição de um fazer com imagens em Área de Serviço, Duas Margaridas e uma Aranha, Comendo Margaridas e A Casa. Área de Serviço e A Casa são o regular – uma linguagem bem falada – de paisagem doméstica, mas Duas Margaridas e uma Aranha e Comendo Margaridas são uma outra coisa; apontam para as janelas. A casa “vazio” presente em Aranha é ainda mais brutal e as Duas Margaridas apontam para a janela. As individuações de Bechara começam a se unir. Mas ainda não estamos diante do vidro, suas transparências, e capacidade de devorar as essências da arte*. Antes disso o vidro é espectral. Ele nos olha ainda onde não está presente. As Duas Margaridas na janela olham a Aranha, mas não fazem uma nova instituição e os devoradores de margarida ainda não são os vidros, mas fazem surgir uma intensa ansiedade de transparência.
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Essa ansiedade inventa uma nova instituição e ela se chama Gelosia. Consiste num jogo de transparências-vidro, com um retângulo cinza, à parede, a dar a sutil opacidade de que precisam as imagens em translucidez. Ela compõe a exposição Sobremirada: o ar e a cega. Sobremirada é composta por Gelosia, Sem título e Gorda comigo. O ar é uma série de desenhos que exploram a temática da casa, a qual não abordaremos aqui e a cega é a exploração do sentido regular das casas, do qual já falamos. Em Sobremirada nada é aleatório: é preciso percorrer uma ordem exata para que a nova instituição-vidro possa ser percebida. É preciso ver primeiro Gelosia – e carregá-la no espírito – para notar a que tipo de transfiguração as janelas das casas estão a indicar. E só depois podemos ver Sem título e Gorda comigo. A Gelosia agrupa todos os elementos pictóricos da obra de Bechara. As oxidações – que serão retomadas depois da transfiguração das transparências – as casas – em virtude da relação: instituir a casa e a instituir a transparência, os vínculos entre o dentro e o fora, e a dissolução, parecem poder ser resolvidos apenas pelas janelas – e um certo tipo de boreal em açúcar. Dois dos vidros transparentes são repletos de faixas de oxidação – espectro de Gorda comigo – uma espécie de vidro-imagem-oxidação-ferro. O outro vidro é pura transparência, em reflexo, e está em jogo com a sutil opacidade do retângulo cinza. Mas a imagem boreal em açúcar é ainda mais sutil, ela se encontra em todos os vidros, mas não é evidente em nenhuma das transparências.
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A imagem açúcar é mais delicada, porque não é visível ou invisível. O atributo dessa imagem açúcar é ser uma visualidade, alguma coisa sem a qual a imagem não possui significação: sem a qual uma imagem é apenas uma impressão. Ela pode ser encontrada na sola dos sapatos, porque as placas de vidro são muito delicadas, e se tornam estilhaços, pequenas fissuras no chão, então se trata de uma imagem em fragmento que se tornará não mais uma essência de transformação em óxido, mas uma imagem cuja possibilidade é se tornar oxidável. Porque se antes de Gelosia Bechara oxidava em superfícies, agora, Bechara oxida imagens, as permite envelhecer e encontrar boreais. Por certo, encontrar a imagem-açúcar na sola dos sapatos é apenas uma das possibilidades, porque se estivéssemos descalços, então, encontraríamos imagens açúcar-sangue. Não parece ser esse o caso, o que Gelosia abre é o pensamento exclusivo por imagens, numa imaginação-imagem, e em imagens relativamente limpas, ainda que feitas em fragmentos: as imagens em Bechara ainda se encontram sem vísceras.
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Então, dessas imagens-ferro e dessas imagens-açúcar temos o uso completo e novo das oxidações. Quando a oxidação não é uma imagem, não há muito para se falar sobre ela, consiste apenas numa transformação. Mas a oxidação se torna uma imagem, pelo processo de invenção das casas e depois da transparência das janelas, não se trata mais de transformação, mas de transfiguração. As imagens passam a ter uma potência de óxido; uma potência de envelhecimento; uma potência de se tornarem emboloradas; uma potência de se tornarem vívidas etc. Por isso, Sem título é o frente a frente de um universo boreal açúcar – com contornos de risco e de derretimento – com a oxidação-ferro bastante fechada. São os fragmentos de uma experiência de visualidade, os pequenos pedaços de vidro a soltar da delicadeza das grandes transparências, com a opacidade de uma imagem bem constituída. Mas essa imagem bem constituída pode se tornar uma imagem-solo ou uma imagem-solo-secura, desafiando a opacidade, por rios de elementos boreais e ferrosos.
Cesar Kiraly, crítico de arte e cientista político, é pesquisador e coordenador executivo do laboratório de estudos sobre a república brasileira e do laboratório de estudos hum(e)anos do IUPERJ. Edita o blog Modos de Fazer Mundos n’O Pensador Selvagem.
*Paisagem doméstica ou não me lembro do que dissemos ontem é o registro fotográfico do projeto A casa que abriga a instalação promovida na Faxinal do Céu e as formas escultóricas maiores, bem como, as representações minimais das casas.
Referência:
Bechara, José. A casa. Rio de Janeiro: Barléu Edições, 2006.
Créditos dos registros das imagens na ordem em que aparecem:
1. Dedina Bernardelli. Paisagem doméstica. Paraná: Faxinal das Artes, 2002.
2. Dedina Bernardelli. Paisagem doméstica. Paraná: Faxinal das Artes, 2002.
3. Vicente de Mello. A casa. Rio de Janeiro: MAM, 2004.
4. Vicente de Mello. Duas margaridas e uma aranha. São Paulo: Instituto Tomie Ohtake, 2004.
5. Vicente de Mello. Duas margaridas e uma aranha. São Paulo: Instituto Tomie Ohtake, 2004.
6. Ana Letícia Rivero. Gelosia. Rio de Janeiro: Lurixs, 2008.
7. Ana Letícia Rivero. Gelosia. Rio de Janeiro: Lurixs, 2008.
8. Ana Letícia Rivero. Sem título. Rio de Janeiro: Lurixs, 2008.
9. Ana Letícia Rivero. Gorda comigo. Rio de Janeiro: Lurixs, 2008.

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