Fim de tarde em Porto Alegre. (Um diálogo sobre educação).

Tarde ensolarada em Porto Alegre. Em um café/bar ao lado de um clássico sebo, amigos se reúnem, após uma manifestação do sindicato dos professores estaduais, para trocar algumas ideias sobre questões políticas e filosóficas, em especial a situação da educação pública no RS, durante mais uma greve do magistério em resposta aos ataques do governo.

-Situação complicada esta; o governo parcelando salários do funcionalismo público, este mês uma parcela miserável de 350 reais apenas, isso é mais do que humilhação, é quase regime escravista já! (Disse a professora Rosa).

-Sim, lamentável, já há colegas passando fome! Imagine, quem tem filhos e depende apenas desse salário! (Completou a funcionária de escola Vitória).

-Vi, ontem, nas redes sociais, relatos sobre pessoas que estão em depressão por conta dessa situação, e uma moça revoltada contando, em um grupo, que seu pai havia sofrido um ataque cardíaco em um banco, por conta da falta de dinheiro, e veio a falecer. Terrível tudo isso! (Leonardo).

-Espero que essa greve se fortaleça e traga resultados; não pode servir apenas para desgastar governo, como pensam alguns grupos preocupados apenas com a eleição de 2018! (Disse Alexandre).

-Podíamos ir até um bar ou café para trocarmos algumas ideias, aproveitando que os colegas do interior estão presentes. Sei que o pessoal está “mal de grana”, mas precisamos conversar sobre isso tudo que está rolando. (Pedro sugeriu).

-Tranquilo, dividimos tudo, ficará leve para todos e o importante é a troca de ideias, precisamos de um lugar apenas. (Disse Rosa)

Saindo da manifestação, que entrava em um clima já enfadonho, dados os discursos repetidos, gritos, proferidos sobre o caminhão de som estacionado na frente do Palácio Piratini e Assembleia Legislativa (discursos esses com pouca profundidade e apenas para agitar o público); os colegas de trabalho (Pedro, Rosa, Alexandre, Vitória e Leonardo) se dirigem até um café/bar, algumas quadras da praça, ao lado de um sebo repleto de antigos livros empoeirados.

Chegando ao café/bar “Akracia”, os amigos procuram uma mesa disponível próxima à calçada, para observar, também, o movimento da cidade ainda banhada pelo sol do fim da tarde.

-Este é um bom lugar. Esta mesa aqui está bem localizada. Ali ao fundo não me parece uma boa, aquelas figuras parecem “coxinhas” conservadores, então, melhor ficarmos aqui mesmo. (Falou Pedro, em voz baixa para Rosa).

Todos se acomodam ao redor da mesa de madeira escura.

-Vou pedir um café, mais alguém quer? (Disse Vitória).

-Eu vou de cerveja, Vitória. Mais alguém, também, quer uma ceva? (Falou Alexandre).

-Beleza, também vou na ceva, então. (Respondeu Rosa).

Leonardo, também, apostou na cerveja e Pedro foi de café com leite, pois, desejava economizar e café puro o deixava mal do estômago.

-Bom pessoal, aqui estamos, mais uma vez, enfrentando uma greve, dessa vez em uma situação que me parece ainda mais grave que as anteriores. (Pedro).

-Para os partidos que estão no controle do governo do RS hoje, a educação pública é apenas mais uma pedra no caminho de um projeto Liberal Econômico e de implantação de um “Estado mínimo” forçado. Para convencerem a população, de que tal infame projeto tem justificativa em uma “suposta crise”, recebem o auxílio dedicado de uma “mídia privada de massa” bancada com o próprio dinheiro público. (Alexandre).

Mas, o que vocês acharam dessa manifestação hoje? (Disse Pedro).

-Ah sim, maldita mídia burguesa, essa emissora da rede Bobo deve milhões em impostos aqui e ainda recebe grana pública para fazer propaganda desse governo! Mas, sobre essa manifestação na praça; foi razoável, pelo número de pessoas, tirando o fato da direção do sindicato monopolizar tempo de fala sobre o caminhão de som (dividindo o tempo entre membros das correntes que estão na direção), transformando o ato quase em uma “micareta” com músicas e discursos que não ajudam em nada em esclarecer a população, muito menos fortalecer a categoria no que diz respeito a necessidade de formação política. Mas, pelo menos, rolou alguma coisa na praça da matriz, mesmo diante das ameaças do governo que havia “proibido”, de forma autoritária, que o sindicato realizasse a assembleia no local. (Disse Leonardo)

-É, as falas da base e de integrantes de outras correntes são muitas vezes boicotadas pela direção. Os discursos poderiam ser mais sérios, também. Não concordo com essa simplificação tosca das coisas com a desculpa de que será mais facilmente compreendido pela maioria. Não podemos “nivelar por baixo” a coisa. (Falou Pedro)

-O que precisa ficar bem claro para a população é que esse governo apenas representa interesses de grandes empresas as quais visam abocanhar (como “oportunidades” de mercado) o que o Estado, aos poucos, abandonar, após a sabotagem dos “fantoches políticos” que essas mesmas empresas financiaram. (Afirmou Vitória).

-Sim Vitória, também a realidade das escolas precisa ser divulgada para a comunidade. Professores e professoras trabalham muitas vezes em mais de uma escola, três turnos, muitos com mais de vinte turmas, em escolas com problemas estruturais, salas de aula muitas vezes lotadas (consequência de “enturmações” exigidas pelas coordenadorias de educação) recebendo salários indignos, parcelados, congelados até o fim da gestão Sartori (no fim de 2018). (Observou Alexandre).

-As escolas sofrem com carência de funcionários (as), pois, o atual governo não abre concursos públicos para repor quadros de funcionários (as) e professores (as). Sem falar dos contratados que são muitos e sem estabilidade, em situação de fragilidade no emprego, muitos sofrendo ameaças de direções e das coordenadorias da educação para que não façam greve! (Disse Vitória).

-Sim, lamentável, esse governo ameaça fechar turmas (obrigando escolas a realizarem “enturmações forçadas”), acabar com turnos e escolas, com a justificativa de “economia” enquanto libera isenções para grandes empresas, gasta dinheiro público em propaganda e nada faz para combater a sonegação de grandes empresas. (Falou Rosa).

-Ninguém sobrevive dignamente com pouco dinheiro em uma injusta sociedade capitalista, a população precisa saber que desejamos apenas nossos salários em dia e de acordo com a lei. Sem falar que a “lei do piso nacional do magistério”, também, não é respeitada no RS, poucos lembram disso! Se alguém fala em “piso”, hoje, vão dizer que o cara está “viajando na maionese”! (Leonardo).

-Hahahaha sim, tem que “rir para não chorar” e não é nem o “justo” o que pedimos, pedimos o mínimo! Pois, o “justo” seria muito mais do que isso! (Disse Alexandre).

-Gostei deste panfleto aqui de um movimento anarquista, eu acho; tem algumas informações importantes de forma bem sintética. (Interveio Vitória).

-Opa, leia para nós Vitória. (Disse Pedro).

-Certo, vou ler: “Os serviços públicos são vitais para a qualidade de vida da classe trabalhadora e por eles precisamos resistir e lutar!

Não vamos pagar o preço das mentiras de um governo financiado por grandes empresas sonegadoras e outras que ainda recebem isenção e regalias do Estado!

O governo Sartori (PMDB-PSDB-PSB-PV-PP-Solidariedade-PPS…) mente para o povo gaúcho. O governo esconde recursos: auditoria do Sintergs afirma que o governo escondia mais de 2 bilhões em caixa em 2016; o governo gastou mais de 3 milhões em propaganda e a maior parte foi para RBS-ZH (que deve milhões em impostos); o governo gastou mais de 9 milhões em passagens para cargos de confiança viajarem dentro e fora do RS em 2016; logo que assumiu o mandato Sartori assinou o aumento do próprio salário, de deputados e secretários de governo, sendo que contratou sua esposa para uma secretaria recebendo salário como deputada, enquanto doa recursos públicos para empresas privadas e grandes latifundiários, mantém isenções e não faz nada para punir as empresas que sonegam.

E neste momento Sartori e seus amiguinhos estão passeando na Europa, na Alemanha, torrando dinheiro público, nosso nessa viagem! (Interveio Alexandre).

Rosa retoma a leitura:

-Sim, mais essa! Bom, continuando: -“No RS o governo não cumpre a lei do piso nacional do magistério, demonstrando total falta de interesse em melhorar a educação pública, além de desrespeito descarado com a legislação. O governo Sartori-PMDB, também, congelou salários até o fim de 2018 (quando finalmente acaba o mandato de Sartori) , parcela salários e o décimo terceiro e paga os salários com atraso, sem falar no aumento de impostos no Estado o que tornou produtos como a gasolina mais caros do que no resto do Brasil onde o PMDB-PSDB-PP-DEM e aliados, no comando do governo federal, estão, também, destruindo o país, cortando direitos trabalhistas, entregando as riquezas nacionais para grandes corporações estrangeiras, ameaçando até mesmo a Amazônia e afetando negativamente a vida dos trabalhadores!

Categorias do funcionalismo público e estudantes precisam unir forças em uma grande mobilização, na luta contra os ataques desse governo do PMDB que pretende destruir os serviços públicos (que atendem as famílias da classe trabalhadora) neste Estado!

FORA SARTORI, FORA PMDB E ALIADOS!”. Tem mais algumas coisas aqui, mas, depois posso passar para vocês darem uma olhada. (Concluiu Rosa)

-Olha aí, ficou bom isso, bem direto. (Disse Pedro).

-É, mais um grupo lutando aí. São muitos os grupos de Esquerda, o problema é somar toda essa força, a Esquerda continua fragmentada e aí é aquela velha história “dividir e conquistar”, isso acaba sendo útil ao inimigo. (Declarou Leonardo).

-É, isso é um problema, mas, não vejo, também, como superar essas divergências, pois, há muitas diferenças de cunho teórico-filosófico. Podemos sim é buscar o diálogo com outros grupos e aquilo que há de comum entre todos. (Respondeu Alexandre, após beber um gole de cerveja gelada).

-Acho que vou pedir um café forte, pois, o cansaço está batendo, pessoal, foram horas de viagem de ônibus e nem mesmo dormi direito. (Disse Leonardo, que queria se concentrar mais na conversa, apesar do cansaço).

-Hahahah vai te fazer mal depois dessa cerveja Leonardo. (Disse Rosa).

Um senhor, de aproximadamente setenta anos, observava a conversa, tomando um chimarrão na mesa ao lado, acompanhado de um livro.

-Desculpe interromper a conversa. Não pude deixar de escutar. Meu filho era professor também, infelizmente falecido em um acidente de automóvel em uma dessas terríveis estradas que o governo não arruma. Era um jovem bonito, muito inteligente meu filho. Tristemente, também, passava por essas dificuldades que vocês estavam relatando, greves, salários baixos, ataques de governos.

Sou funcionário público aposentado; também. Recebi salário parcelado este mês e nos anteriores e lhes digo “meus filhos”, pode piorar a situação, no RJ o PMDB fez desgraça, também, lá funcionários públicos tiveram até que fazer fila para pegarem alimentos de doação. Mas, não podemos nos desesperar! Isso abala a pessoa, é claro, mas, tenho que fazer minha caminhada das tardes, tomar um mate e esparecer um pouco aqui, lendo um livro. Temos que tocar a vida!

-Qual seu nome senhor? (Perguntou Vitória).

-Ah sim menina, me desculpe, nem me apresentei hehe. Érico é meu nome, moça e o seu?

-Vitória.

-Bonito nome esse, moça. Precisamos de “vitórias” neste momento de tantas notícias ruins, né! Hahaha (Disse Érico).

-O que o senhor está lendo aí ? (Disse Alexandre)

-Tchê, este aqui é um bom livro de ficção científica, “Fundação”, uma edição antiga essa.

-Maizá guri, muito bom! Asimov! (respondeu Alexandre).

Falando calmamente de forma pausada, Érico continuou:

-Sim, muito bom o livro sim, já estou no final. Mas, então meus jovens, vejo que há um grande problema no trabalho de vocês que me parece uma questão importante que deve ser levada em consideração, vou explicar: não é possível ensinar quem não deseja aprender, e hoje essa gurizada anda mais entretida com essas novidades tecnológicas.

-Se me permite Érico, vou complementar isso que o senhor disse, acrescentando alguns detalhes que podem gerar uma reflexão mais interessante sobre o problema. Eu reformularia essa afirmação dentro de uma perspectiva de educação mais humanista ou mesmo “libertária”: não é possível dialogar e construir coletivamente conhecimento com quem não deseja dialogar ou não reconhece como relevantes as informações e formas de pensamento apresentadas no ambiente escolar. Mas, precisamos pensar os motivos disso que realmente parece acontecer muitas vezes nas escolas públicas. (Disse Leonardo).

-O professor não pode obrigar o estudante a escutá-lo; se essa necessidade se apresenta é mais um indicador de que o papel do educador, como educador, já está sendo questionado no que diz respeito a importância daquilo que ele representa e diz. E muitos jogam isso sobre os professores como se fosse um problema meramente didático ou pedagógico, mas, podemos pegar alguns exemplos de escolas com métodos tradicionais, vistos como ultrapassados (os quais, obviamente sou contra, mas, quero usar aqui como termo comparativo, “certo”!?), onde alunos passam por um processo seletivo para entrarem na escola ou pagam caras mensalidades e o rendimento e atenção dos alunos muitas vezes é alto, no que diz respeito às notas, claro, o que demonstra que as críticas devem tomar um outro rumo, visto que não desejamos justificar, obviamente, métodos retrógrados de educação os quais, certamente, também, não funcionariam em escolas públicas. Afinal, por exemplo, seria ridículo fazer um processo de seleção de estudantes para todas as escolas públicas do país, isso deixaria de fora do processo centenas e centenas de jovens, seria um absurdo! Sem falar que, o que seria “funcionar” nesse contexto? Um método de educação que “adestra” estudantes, baseado na aplicação forçada de uma “hierarquia” e subjugação, se funcionar, é algo péssimo e danoso! Seria um tosco behaviorismo. Não que isso não aconteça, infelizmente, também, em escolas públicas. O tipo de avaliação (e não apenas avaliação), toda a forma de funcionamento das escolas hoje é bem comportamentalista em um sentido bem tosco mesmo, até o sinal para intervalo, lembra uma prisão, mas, daí dar mais passos para trás, implantando propostas arcaicas de educação, seria bizarro. (Falou Alexandre).

-São muitos os problemas. Mas, no que diz respeito a “liberdade” ou “adestramento” me parece bem explícito que há mais liberdade nas escolas públicas, o que é um ponto positivo.

Vários são os fatores que pesam sobre o rendimento de um sistema de ensino, por exemplo: muita coisa vai estourar nas escolas públicas, que precisam atender a um público variado de estudantes. Muitos desses estudantes não desejariam estar nas escolas e são filhos de famílias desestruturadas, famílias que enfrentam vários problemas de cunho econômico e social, principalmente as que vivem nas periferias das grandes cidades. A escola, também, não é mais vista (temos que reconhecer isso) como um meio “garantido” de ascensão social (até algumas décadas atrás ainda era). E há ainda um “fator psicológico”: os estudantes e comunidade escolar olham para os professores e professoras, que ganham mal e são maltratados por governos, que trabalham em escolas com estruturas precárias, e “sentem” (ou pensam) algo tal como “Qual o valor disso que essas figuras estão falando, pois, no capitalismo isso não garante uma vida melhor e eles mesmos estão sofrendo com essa situação”. Somado a isso há a desvalorização dos serviços públicos no campo ideológico do discurso (“oficial”, entre aspas), insistente, da grande “mídia privada de massa” e dos próprios governos que defendem o liberalismo econômico; sem falar dos produtos da indústria cultural, que seduz os jovens com “baboseiras”, uma arte comercial, combinada a produtos fúteis do mercado! (Se manifestou Rosa de forma enérgica).

-No capitalismo só é valorizado culturalmente o que gera lucro; se professores recebessem salários melhores, certamente o trabalho que realizam seria mais valorizado e muitos estudantes desejariam seguir essa profissão. Quantos estudantes hoje desejam ser professores ou professoras, né!? (Respondeu o aposentado).

-É, isso me parece bem real mesmo, o senhor está certo. Mas, a escola, de certa forma, é vista ainda, como um meio para “melhorar um pouco de vida” na sociedade capitalista, já que sem ensino médio fica mais difícil para a pessoa arrumar um emprego”, porém, governos transformaram isso, na prática, em um simples “obter um certificado” , forçando escolas a aprovarem um número cada vez maior de alunos, de forma forçada, para “melhorar as estatísticas” e agradar “investidores internacionais”, corporações essas que estão apenas interessadas na manutenção de uma mão de obra acrítica e de um mercado consumidor passivo. Tudo isso afeta seriamente o trabalho nas escolas públicas. (Vitória).

-É, há tudo isso sim, mas, não podemos esquecer que o governo (formado por fantoches patrocinados por grandes empresas), sabota a educação pública no intuito de abrir espaço para a iniciativa privada (das mesmas empresas que financiaram essa cambada no poder) explorar a educação como mercadoria. Neste sentido é que vai essa nova reforma do ensino médio a qual o governo federal tenta “engambelar” a população com propagandas mentirosas, bem como a PL 44 aqui no RS, proposta por esse governo do PMDB. (Leonardo).

-Sim essa reforma do ensino médio é uma “palhaçada”. O estudante não vai poder escolher, na verdade, fará o que sua escola puder oferecer (de acordo com o que o governo determinar é claro), caso contrário precisará procurar outra escola e, se tal não existir na cidade onde vive, estará “ferrado”. O governo deseja abrir espaço para a iniciativa privada oferecer cursos técnicos em algumas escolas selecionadas, já que as escolas poderão oferecer até no máximo duas áreas (a maioria, provavelmente ofertará apenas uma) para aprofundamento dos alunos ou um curso técnico oferecido por uma empresa contratada pelo Estado e que contratará professores terceirizados, portanto, certamente com salários mais baixos e em situação de emprego precário. Tudo isso, o governo vai determinar, certamente; as escolas não terão muito autonomia nisso. Tem ainda a questão da diminuição da carga horária das disciplinas do currículo básico (com exceção de matemática, português e inglês) e algumas disciplinas que ficarão como “conteúdos a serem trabalhados de foma transdisciplinar” ou seja, serão extintas como disciplinas. Isso, é claro se realmente colocarem em prática essa esdrúxula proposta, o que ainda tenho minhas dúvidas. Me parece que isso está só mais na propaganda e ainda bem! O governo quer fingir para a população que está fazendo algo. (Rosa)

-Então, como alguém já disse aí (eu acho), “tudo vai estourar” na escola! E esses canalhas no poder não investem em educação pública, pois, sabem que para o país realmente se desenvolver, para realmente acontecer o fortalecimento da população, é preciso investir em educação de qualidade, pagar melhor os educadores; essa é uma base fundamental para o desenvolvimento de ciência e tecnologia! Básico! (Disse Vitória).

-Sim, fundamental! Sem falar que pesquisas sociológicas indicam que em países que mais investem em educação, e onde a desigualdade é mais baixa na sociedade, a violência, também é menor. (Lembrou Pedro).

-Acredito em uma educação voltada para o desenvolvimento da autonomia racional e criativa do estudante, para tal, precisamos criar espaços propícios para isso. Nossas escolas, infelizmente, por uma série de fatores, estão ainda distantes disso. (Interveio Alexandre).

-Também, com esse governo da “Direitalha” sabotando tudo; parcelando salários, congelando salários, fazendo “terrorismo” para cima dos educadores; um governo que não respeita nem o “estado de Direito”, não respeita as leis, sem falar nessas burocracias estúpidas de cadernos de chamada, maior perda de tempo! (Disse Rosa).

-Pessoal vocês precisam lembrar que este tipo de conversa que estamos tendo aqui não chega à maior parte da população, infelizmente, por isso as mudanças ocorrem na sociedade “a passos de formiga”.

A mídia privada de massa espalha a ideologia da classe dominante e lucra com auxílio dos partidos que estão no poder, bem como nesse panfleto que a Rosa leu aí antes, partidos os quais a mídia ajudou a chegarem onde estão; o problema é complexo.

E além disso a Esquerda se distanciou da periferia, se distanciou das bases, essa é “a real”! (Disse Alexandre).

-Isso é verdade Alexandre.

Outra coisa é bem clara, que o projeto das grandes corporações para a educação na América Latina é, sem dúvida, de controle social: como já tinha dito, formar mão de obra acrítica para mercado de trabalho; mão de obra barata, subjugada, moldada ao sabor de uma cultura propagada pela indústria cultural! Somando a isso os cortes nos direitos trabalhistas, com essa maldita “pseudo-reforma trabalhista” aprovada pelo governo Temer e essa escória conservadora no congresso, e as terceirizações, o que veremos é a degradação da classe trabalhadora e aprofundamento da precarização do trabalho. (Vitória).

-Certo, mas, não esqueçam: as escolas públicas são importantes! Imagina o que seria sem isso, seria muito pior a história! (Leonardo).

-É por tudo isso que nosso trabalho é importante, cada vez mais importante! Precisamos insistir no que fazemos, incitar reflexão, construir coletivamente conhecimento, falar até mesmo sobre a história do “Liberalismo”, pois, os estudantes precisam conhecer todos os lados dessa história para poderem construir, por conta própria, suas visões sobre a realidade. (Pedro).

-E na verdade isso que é chamado de “neoliberalismo”, que essa gente tenta de todo jeito aplicar quando assume o governo, é uma combinação de “liberalismo econômico com conservadorismo político e moral”; essa gente esquece do liberalismo político e moral na verdade. Esquecem até que a Direita, tradicionalmente, sempre defendeu os interesses da classe dominante. Quando começou o uso dessa divisão no “espectro ideológico” na França ao fim do período absolutista, primórdios da revolução francesa, a divisão no parlamento francês se dava entre “na Esquerda” liberais (de várias tendências, alguns mais moderados outros mais radicais e usando até a cor vermelha como símbolo) e de outro lado “na Direita” os defensores dos interesses dos nobres que desejavam a manutenção da monarquia; esses últimos eram os conservadores. (Alexandre).

-Ah sim, o que acontece é que, no século XIX, surge uma nova Esquerda formada pelos movimentos socialistas (primeiro os chamados “socialistas utópicos” e anarquistas, depois Marx e seus seguidores) que desejavam superar o capitalismo de forma radical, lutando por igualdade plena, o que acaba deslocando os liberais para à Direita, formando um Centro (com os liberais mais moderados, que ainda defendiam “democracia e direitos universais do homem”) e mais à Direita os liberais que se apegaram apenas ao liberalismo econômico e se aproximaram do conservadorismo político e moral (a burguesia no poder). (Pedro).

-Concordo, mas, não esqueçam que os ícones do Liberalismo Clássico eram contraditórios; algumas figuras como Locke e Benjamin Constant falavam em “democracia” mas, ao mesmo tempo, deixavam bem claro que “apenas os proprietários ricos deviam participar das decisões políticas”, defendiam os interesses da burguesia, na verdade. Locke até enriqueceu traficando escravos, mesmo afirmando que o “próprio corpo do sujeito seria sua propriedade” e que a “propriedade seria um direito natural”, mesmo assim ele faz uma “ratiada” dessas, investir no tráfico de escravos! E esse foi o precursor, o “pai” do Liberalismo no campo filosófico! (disse Rosa).

-Bem lembrado Rosa!

Tudo bem, até concordo, que é necessário falarmos em “liberalismos”, tranquilo, eu trabalho isso com a gurizada também. Mas, é importante sempre, também, continuarmos problematizando questões sociais, o que acontece na sociedade onde vivemos, a condição da classe trabalhadora no contexto do capitalismo em país subdesenvolvido como o Brasil.

Não podemos nos dobrar a essa imbecilidade de “escola sem partido” que na verdade apenas esconde o projeto ideológico de uma Direita conservadora que quer censurar, podar, professores. Não existe neutralidade real! Estamos interagindo com filhos e filhas de famílias da classe trabalhadora que sofrem diariamente pela realidade em que vivem neste país, é necessário escolher um lado nessa história, como Florestan Fernandes certamente concordaria! (Lembrou Leonardo).

-É claro que estamos muito longe do “ideal” desejado com esse modelo de educação que temos nas escolas públicas brasileiras, mas, não podemos abrir mão disso, pois, é, com todos os problemas, uma conquista dos trabalhadores, e sem isso, como disse o Leonardo, a situação seria muito mais grave! Precisamos lutar para manter a educação pública e melhorá-la e isso não depende apenas do Estado ou de quem o controla. Eles vão tentar sempre nos boicotar, mas, vamos resistir! (Insistiu Rosa).

Enquanto Rosa concluía, Alexandre recebia uma mensagem pelo celular sobre uma manifestação dos estudantes e pais, em Santa Maria (cidade central do RS) em apoio a greve dos professores(as) e funcionários(as) de escolas.

-Pessoal tenho que ir, ainda tenho aula na noite na escola municipal. Preciso pegar dois ônibus até lá! No município a situação está pesada, também, com esse “almofadinha” tucano na prefeitura. Deixo aqui uma colaboração para a cerveja e café. (Pedro).

-Não te preocupa Pedro, vamos dividir tudo aqui, foi pouca coisa. (Rosa)

-Hahahaha do jeito que vai pode ser este nosso último encontro em um lugar desses. (Pedro).

-Bha, nem fala, estou ainda conseguindo “ir levando” com o que sobrou de um empréstimo que tirei meses atrás para sair do vermelho. (Leonardo).

-Tem gente já até passando fome, sem possibilidade de ir trabalhar por falta de dinheiro para locomoção. (Vitória).

-Há essa possibilidade de antecipar salário no banco; triste termos que pagar para podermos receber pelo nosso trabalho, pois, depois o banco vai cobrar juros de quem antecipar quando o governo pagar tudo (se pagar) . (Pedro).

-Pessoal, recebi uma mensagem de Santa Maria, a comunidade escolar está se mobilizando em apoio à greve. E na escola do Carlos os professores, com apoio de estudantes e pais, vão fazer algumas atividades na escola que está em greve, vão organizar aulas abertas, cine-debate e até uma horta comunitária. (Alexandre).

-Opa, muito massa isso hem! Mas, tenho que ir mesmo pessoal. Feito, forte abraço para vocês e boa viagem aos que voltarem ao interior.

Não tá morto quem peleia! (Pedro).

-“Não tá morto quem peleia!”. (Disseram todos).

Paulo Vinícius

www.mardaliberdade.blogspot.com

About the author

paulohidra

Paulo Vinícius : professor de Filosofia e Sociologia; Licenciado em Filosofia e Bacharel em Ciências Sociais pela UFSM; Especialista em Pensamento Político pela UFSM. Poeta e compositor, vocalista da banda Lunárkia; integrante do Movimento Autonomia e Revolução.