As coisas são mais importantes que as pessoas?
As coisas parecem ter se tornado mais importantes – e são tratadas melhor – do que as pessoas. Como seria um mundo em que esta ênfase fosse revertida?
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| Violência e Miséria |
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| Por José Eustáquio Diniz Alves | ||||||||||||||||||||||||||||||||
| 01 de dezembro de 2008 | ||||||||||||||||||||||||||||||||
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A violência não é monopólio da miséria, mas se nutre das condições de pobreza e da falta de cidadania em todos os seus aspectos. A violência é uma miséria e a miséria é uma violência. Mas seria simplista dizer que a miséria social é a responsável exclusiva pelo aumento da violência na sociedade brasileira atual. A associação entre violência e miséria é reforçada pelo fato das cadeias estarem repletas de ladrões, malfeitores e homicídas pobres. Mas este é um outro problema, pois os ricos geralmente não vão para a cadeia no Brasil e, quando vão, ficam em celas especiais.
As pessoas de esquerda tentam argumentar que os que-nada-têm recorrem à violência porque são vítimas das injustiças do capitalismo. A verdadeira violência estaria nos salários miseráveis, no desemprego, no desamparo e nas desigualdades sociais. Nesta perspectiva, uma política de segurança pública só seria eficiente na medida em que resolvesse as mazelas decorrentes da má distribuição da renda e da exclusão social. Adicionalmente, eles denunciam as condições deploráveis das cadeias brasileiras e consideram que os presos, assim como todos os seres humanos, têm direitos inalienáveis.
As pessoas de direita tendem a jogar a culpa da violência, não na anomia social, mas na má formação do caráter do indivíduo e na natureza perversa do ser humano: “o homem é o lobo do homem”. Eles argumentam que se a pobreza fosse a causa da violência os lugares mais ricos seriam mais tranqüilos que os rincões pobres. Consequentemente, a direita advoga uma política de segurança baseada na eficaz repressão ao crime e na “tolerância zero”. Advogam, também, o compromisso público com o direito de propriedade e gostam de dizer, ainda, que a precedência dos direitos humanos é das vítimas e não dos bandidos.
Quem tem razão? Os primeiros? Os segundos? Os dois? Nenhum dos dois? Ou será que a lógica da esquerda está baseada na defesa dos interesses dos pobres e a lógica da direita é simplesmente uma justificativa para a manutenção dos privilégios dos ricos?
Ao meu ver, a questão é mais complexa. Existe, incontestavelmente, uma correlação entre desigualdades sociais e violência. Todavia, existem violências que ocorrem independentemente da questão de classe ou condição social: o marido que chega bêbado em casa e surra a esposa; a esposa que ofende verbalmente o marido; os pais que perdem a paciência com os filhos e os espancam; a pessoa que abusa sexualmente do parente mais frágil; o irmão que mete a mão em irmão; o amigo que trapaceia o amigo; o vizinho que, por motivos banais ou por demandas triviais, agride o vizinho; as gangues que depredam bens públicos; o religioso que não tolera o outro religioso; os motoristas que xingam outros motoristas; os homens, as mulheres, as crianças e os idosos que descarregam suas frustrações nos cachorros, nos gatos e outros animais.
A violência surge a partir da criação e recriação de relações de superioridade e inferioridade, relações de poder - quer seja entre indivíduos, classes, gêneros, etnias ou concepções políticas e religiosas - e da tentativa de utilizar métodos coercitivos (físicos ou verbais) para resolver problemas não consensuais. O inferior ou o errado é a diferença incapaz de se constituir em alteridade. A sua diferença é a medida do seu erro e da sua inferioridade. Por conseguinte, a violência decorre da intolerância e do egoísmo. É o resultado da tentativa de se levar vantagem (material ou simbólica) às custas e contra a vontade do próximo.
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