Subversões do Tempo - Escritores Malditos

Subversões do Tempo: Escritores Malditos será uma série de artigos quinzenais que abordará alguns escritores malditos produzida por Rosane Cardoso, professora de literatura clássica e hispanoamericana, pesquisadora de imaginário medieval e de literatura de viagem e amante de cinema e blues.



Poe: entre a biografia e a obra E-mail
Subversões do Tempo: Escritores Malditos
Por Rosane Cardoso   
07 de novembro de 2008

Que escrever sobre Edgar Allan Poe (1809-1849), como escritor maldito, que já não tenha sido dito? Bem, como não tenho de ser professora neste espaço, posso falar simplesmente sobre minha entrada no universo poeano. Isso deve fazer séculos, numa felizmente extinta adolescência – época de predisposição à maldição. E lá estava Ligéia, atravessando paredes e sonhos de um narrador atormentado. À Ligéia seguiu-se outra preciosidade: O gato preto, e aí O corvo e todo o “bestiário” de Poe.

Sobretudo, ele foi o primeiro escritor na minha ingênua crença na humanidade e no amor que falou de paixões e casamentos que se dissipam no tédio do cotidiano e chegam ao submundo do ódio. Não dava para entender aquilo. Como o fascínio por alguém tão prontamente se transformava em algo insano? Ademais, minha idéia de romantismo era uma idéia relacionada ao amor incondicional. Ainda não conhecia o mal-du-siécle. Mas não faria diferença, pois Poe, apesar de ser um ícone romântico, extrapola os estereótipos. Como todo bom escritor maldito.

Poe foi o autor das brumas, da alucinação, da morte, mas também da lógica detetivesca e da composição literária. Mas não vou falar de sua poesia nem de seus contos. Vou falar da sua ironia toda posta em um texto chamado A filosofia da composição, obra essencial à poética do texto literário.

Ali, Poe rompe paulatinamente com uma idéia cara ao Romantismo: a inspiração. No artigo, comenta seu poema mais festejado, O corvo. Cruelmente – ao menos para uma leitora apaixonada como eu – desmitifica a dor do sujeito-lírico. Para o poeta, ocorre um erro crasso no modo como geralmente é construída a ficcionalidade: encher de descrições, diálogos e comentários autorais qualquer vazio que haja no texto. Poe prefere crer em efeito. Ou seja, em atingir o leitor, partindo daquilo que supostamente lhe faz tocar a alma. E com isso, ministra uma das melhores aulas de teoria literária que já tive na vida.

Edgar Allan Poe continua sendo assunto pra muita gente. Desde que Baudelaire o descobriu, há mais de um século e meio, a crítica vem seguindo a sua trilha, logrando um êxito editorial que, se fosse vivo, provavelmente perderia no jogo. Ainda que a biografia dele interesse pouco – falamos de literatura – Poe tem se mostrado quase nada ao longo do tempo. Sim, conhecemos sua vida de bebida, drogas, desavenças, desenganos. Mas sempre sinto que nenhum estudo realmente penetra biograficamente para além do escândalo.

Poe é o mais original dos malditos. Diferente dos românticos, não criou para si uma aura idealista e nefelibata. Era só ele desde sempre. Não buscou correntes ou mentores ou parcerias literárias. Seguiu sempre sozinho. Na verdade, lutando para estar sozinho. Cinco minutos pensando nele e percebemos que é a própria carta roubada.

 

 

Mesmo que minha adolescência esteja muito longe, Poe ainda me impressiona.

Voltarei a falar dele. Seguramente.

Não tem saída.

 
Sylvia - like a frog in autumn E-mail
Subversões do Tempo: Escritores Malditos
Por Rosane Cardoso   
23 de outubro de 2008

Ser mulher, poeta e maldita é definitivamente uma maldição em si. Principalmente se falamos dos anos 40 e 50 entre Estados Unidos e Londres. Conta a lenda que Sylvia Plath (1931-1963) escreveu seu primeiro poema aos oito anos de idade, mesma época da morte de seu pai. Antes dos dezessete anos, já sofria as primeiras crises e buscava a morte pela primeira vez.

 
Sade e os infortúnios da escritura maldita E-mail
Subversões do Tempo: Escritores Malditos
Por Rosane Cardoso   
11 de outubro de 2008

Sade (1740 -1814) é o mais incômodo, desagradável e assustador dos escritores malditos. Leio suas obras entre o nojo e o fascínio, o terror e a curiosidade. Mas leio. O ritual que impõe a suas vítimas se estabelece entre o Eros e tánatos – óbvio – mas também busca o tártaro, dependendo do quanto suas personagens e leitores são capazes de atravessar as trevas, acompanhando a filosofia de alcova de Sade.

Sabemos que a vida de Sade foi marcada por prisões, perdas financeiras, momentos de lucidez e de loucura. Claro está que o conceito de loucura só cabe se ignora-se o próprio Sade e entra-se no racionalismo moral que faça ver como alheio o processo de busca pelas origens da paixão desse autor fascinante. O sexo, na ótica de Donatien Alphonse François de Sade, é um exercício constante de perversão ou, mais precisamente, de conhecer os limites da tal relação entre tánatos e Eros.

Porém, o que me interessa com freqüência em seu texto é a metalinguagem narrativa que cria. A violação continuada de Justine, por exemplo, coincide com uma narração ininterrupta que equivale ás vezes ao próprio clímax da personagem. Sade é um apaixonado pelo sexo e a perversão, numa absoluta simplificação. Mas é também um fascinante narrador.

Literatura de alcova e de cochichos, seus textos vem recebendo atenção renovada nos últimos anos. O filme de Philip Kaufman, de 2000, contribuiu para que o autor acedesse ao grande público, embora o mesmo filme tenha o perigoso viés de transformar o fascínio pela tara em simples tara.

Sade foi leitura de Baudelaire – o maldito-mor – de Flaubert, de Cortázar, de Salvador Dalí, de Bataille. Atenção tão distinta já é uma boa razão para ler.

Se uma das principais marcas da maldição literária é a marginalidade ou a incompreensão entre os seus, Sade cumpre essa “regra” à risca. No entanto, entre o frenesi sádico e a vontade de destruição de si – palavras de Georges Bataille – Sade é, sobretudo, um poeta de escritura muito menos aleatória e egocêntrica do que possa parecer. Sade é o escritor da Queda da Bastilha. Ninguém representa tão bem, nas letras, esse momento da Revolução Francesa.

Simultaneamente, Sade é o menos artista dos artistas. Uma obra sua dificilmente sobrevive ao crivo da crítica literária. E isso nada tem a ver com a temática. Também a filosofia esbarra em contradições gritantes, principalmente as de cunho teológico.

Ainda assim, ele permanece, adjetivando e mitificando-se. Sua entrada no mundo acadêmico o legitima pouco a pouco. Dificilmente se tornará leitura recomendada para estudantes incautos, mas já faz parte de um panteão. É justo lembrar que a contemporaneidade aprecia dar lugar ao deslocado como se fossemos capazes de compreender o que os outros negligenciaram.

De qualquer modo, se prestamos atenção, podemos ouvir, ao longe, a gostosa gargalhada desse incansável tecedor de excessos.

 
On the road E-mail
Subversões do Tempo: Escritores Malditos
Por Rosane Cardoso   
28 de setembro de 2008

Os chamados escritores malditos são sempre uma pedra no sapato. Extemporâneos, incomodam quem vive no seu tempo. Contemporâneos – sempre – vivem incomodados por citações nem sempre interessantes sobre suas biografias que desavisados insistem em fazer mais importantes que suas obras. Armadilha inescapável. Talvez a maldição se situe justo no desejo de ser ficção.

 
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