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Por Rosane Cardoso: 200 anos de Poe   
12 de janeiro de 2009

 

 

 

Enfim chego a Baudelaire. Charles Baudelaire (1821-1867) necessitaria muitos artigos para dizer-se o mínimo sobre ele. Não por acaso, apesar de ser o mais original dos malditos, seu mentor era justamente Poe. Paradoxalmente, Poe só existe pela ação do simbolista francês que o revelou para a crítica e o público. Ou seja, há uma relação de gênese estética entre eles, se me perdoam a expressão esnobe.

Poe dá um certo norte à poética baudeleriana. De fato, é lícito pensar que quando o poeta francês escreve, em meados do século XIX, uma entusiasmada, mas lúcida crítica a Poe estava, inconscientemente, falando de si. Por certo podemos ver a reincidência de temas e de ambientes e dentro disso, as peculiaridades do parisiense. Baudelaire é mais poeta do que Poe. Sua poesia alcança uma genialidade única. Não se trata de uma comparação buscando definir preferência por um ou por outro. Isso é bobagem. Aliás, pouca coisa me irrita mais do que gente comparando autores para dizer qual prefere. Há estilos e estilos e isso não é negociável.

Neste caso, é como se Poe houvesse despertado Baudelaire, apesar de este haver sido sempre intenso. O autor de Les fleurs du mal também não está situado numa estética firmemente definida. Romântico pleno para alguns, mentor do simbolismo para outros, Baudelaire, como todo o gênio, está além de classificação.

Baudelaire estabelece a visão do mal num plano que particularmente não encontro nem em Milton e sequer em Dante – pra falar de autores que fazem referencia direta ao inferno – provavelmente porque estes dois autores perseguem o bem paradisíaco e se chocam com o mal ao passo que Baudelaire quer entender a essência do mal.

Da mesma forma, Poe constantemente incide na temática da malignidade. Podemos sentir o prazer de suas personagens em descobrir o quanto podem descer a profundezas do tánatos. Os leitores devem lembrar de seus narradores tentando explicar suas ações. É algo tão visceral que não há controle possível.

Porém, se a narração poeana estabelece um choque de sentimentos entre o que narra e o que vive a ação, a poesia baudeleiriana está livre. A decadência humana, enfim, venceu.

Une charogne é, para mim, a mais emblemática forma de maldade criada por um escritor. É a retomada, talvez, do ódio inexplicável do personagem poeano por Ligéia ou pelo gato preto. Em Poe, o ódio, e conseqüentemente a maldade, nasce sem que o sujeito possa fazer nada para evitar. Não existem princípios que possam frear o que sente. Identificamo-nos com ele, talvez. Afinal, nem sempre entendemos como o amor se transforma em raiva, intolerância e, por fim, em ódio.

Mas Baudelaire, Une Charogne, não. Seu sujeito-lírico está enamorado e deleita-se com a amada. Passeia com ela. Dá-lhe a mão, imagino, enquanto lhe recorda uma carniça vista e compara este quadro asqueroso àquela que ama. Oferece-lhe o panorama de si mesma, como um nada que, além da insignificância, carrega consigo o nojo, a abjeção, o desejo do homem transformado no desejo de predadores. Que pode haver de pior que ouvir de alguém que nos ama que estamos fadados à podridão?

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