A Era das Tarefas Compartilhadas

OPS - Editorial

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A história da humanidade já passou por momentos de trevas e de iluminação. Intolerância religiosa, guerras de 100 anos, Holocausto, cientificismo, totalitarismo... Muitas marcas ainda estão presentes em algumas culturas nos dias de hoje, e nos afetam, mesmo que indiretamente.

Passamos por séculos em que a produção do conhecimento era realizada em laboratórios ou centros de estudo fisicamente determinados. Recentemente, o desenvolvimento da computação possibilitou a criação de uma rede de computadores mundialmente interconectados que oferecem sua capacidade de cálculo não utilizada para centros de pesquisa que realizam cálculos complexos, que mesmo realizados em supercomputadores levariam anos para serem realizados.

Ferramentas como a Wikipedia e outras “wikis” e assemelhados possibilitam a produção conjunta de conhecimento. Grupos de interesse comum podem realizar um trabalho que, feito de forma isolada, levaria muito mais tempo e utilizaria muito mais indivíduos.

O que falta, então, para que este tipo de “Agendas ou Tarefas Compartilhadas” passem a ser mais frequentemente utilizadas?

A questão não tem uma resposta simples.

Vamos imaginar uma tarefa que pode ser produzida em conjunto, por exemplo, a criação de um site educativo sobre reciclagem e uso sustentável dos recursos urbanos. Levando em conta a utilidade desta ferramenta e a sua forma de utilização, podemos depreender que não seria necessário mais do que um site deste tipo para educar crianças e cidadãos em geral. Entretanto, várias ONGs e Fundações vinculadas à causa ambiental produzem suas recomendações, folders, cartazes e outros materiais educativos.

Para produzirem estes materiais, envolvem quantidades variáveis de pessoas, que se reúnem em locais físicos distintos, em numerosas ONGs em diferentes estados do país, utilizando verba própria arrecadada para tais fins, utilizando um determinado volume de tempo desde a primeira reunião até finalmente disponibilizar o material pronto para o “consumo” de seu público.

Tal atitude seria justificável em um mundo competitivo, capitalista, onde as decisões de uma empresa são guardadas a sete chaves para evitar que a concorrência tome a frente do mercado. Entretanto, no mundo da colaboração, em que as ideias, modelos e ferramentas não são feitas para gerar capital privado e sim capital social, porque ainda existe dificuldade, neste mundo interconectado, em realizar ações conjuntas, integração global de iniciativas locais?

Apesar de imaginar que um dos motivos para tanto possa ser o desejo de “autoria” da ação, ou um posicionamento egóico dos participantes de cada iniciativa, acredito que tal motivo hoje seja menos importante - ao menos em iniciativas de cunho altruísta ou solidárias (talvez mais nas de cunho científico ou filosófico) - do que a própria falta de organização e contato com outras iniciativas afins.

E como começar a mudar isso? Pois bem, as ferramentas estão aí à nossa disposição. Precisamos agora de mediadores, pessoas que possam comunicar, dentro de sua área de interesse e atuação aos demais atores dentro de seu respectivo campo acerca das possibilidades de trabalho conjunto.

É muito importante observar que esta proposta não levará ao engessamento dos grupos de trabalho, pelo contrário: dividindo tarefas e realizando-as em conjunto, sobra ainda mais tempo para que se realizem outras e novas ações dentro da área de interesse. Como, nesta nova Era, as tarefas não serão designadas por obrigação, mas por genuíno desejo das partes interessadas, aqueles que apresentarem tesão por determinada tarefa apresentada ao conjunto irão se engajar e trabalhar. Os demais, irão propor novas tarefas ou engajar-se em outras atividades propostas.

Talvez esteja difícil de imaginar esta “Nova Era das Tarefas Compartilhadas”. Vou tentar exemplificar. Recentemente lançamos uma iniciativa chamada Coolmeia, Ideias em Cooperação. Uma incubadora de ideias altruístas estruturada em rede, sem hierarquia ou comando. Todos podem publicar assuntos de acordo com as áreas de interesse da Coolmeia, todos podem publicar tarefas, elaborar ou divulgar ferramentas, modelos e notícias sobre os assuntos afins.

Nesta semana, solicitei permissão para a EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) para reproduzir em português um belíssimo website por eles desenvolvido. O website é riquíssimo como ferramenta educativa para conhecimentos sobre reciclagem e sustentabilidade urbanas, como havia citado acima. Porque não, então, utilizar uma ferramenta já disponível e vertê-la para o português, e assim compartilhar com as crianças e cidadãos brasileiros e de língua portuguesa?

Permissão do EPA concedida, criei uma Tarefa Coletiva (ou Compartilhada) na Coolmeia, convocando a todos com bom conhecimento de inglês que participassem da tradução do site, com o objetivo de oferecer aqui também esta ferramenta educativa. Publiquei as 105 páginas que necessitam de tradução e fiz o convite aos 158 membros atuais da Coolmeia nesta sexta-feira. O resultado desta experiência só o tempo irá dizer. O sucesso absoluto é exemplificado por comunidades como as que se congregam em volta do Linux, por exemplo. Uma postagem em um fórum de linux garante uma resposta por parte de algum membro não importa em qual horário, até mesmo no meio da madrugada. Em grupos menos coesos - ou com interesses mais frouxos, como é o caso da Coolmeia, por enquanto - as respostas podem esperar um lag de dias a semanas, e por vezes acabam caindo no esquecimento junto com os projetos ou tarefas propostas.

Minha expectativa é de que precisa-se de um número de pessoas pelo menos 100 vezes maior do que o necessário em encontros físicos para geral alguma mobilização significativa, já que somente cerca de 1% ou menos das pessoas que se envolvem em projetos virtuais (mesmo por interesse próprio) são realmente ativas e partem prontamente para ação quando convocadas. As demais quedam-se a prioridades intermináveis que são colocadas à frente de qualquer ação que as faça sair da rotina e do cotidianamente esperado. É a velha necessidade de conforto e inércia do ser humano, em contraste à noção do “tudo muda” heraclitiana.

Se de fato entraremos nesta “Era das Tarefas Compartilhadas”, o tempo nos irá contar. Enquanto isso, aqueles que acreditam nesta possibilidade seguem em frente, sem cansaço capaz de fazê-los parar ou mesmo reduzir seu ritmo constante rumo ao horizonte que visualizam.

Este texto é também uma homenagem a Paul Hawken, irmão gêmeo espiritual e autor, entre outros, de “Blessed Unrest - How the Largest Movement in the World Came into Being and Why No One Saw it Coming”.

Rafael Reinehr




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Comentários (6)
  • Bruno Renostro
    Na minha opinião ainda estamos muitos ligados a instintos competitivos, não
    chegamos ainda numa época de cooperativismo.
    A selva capitalista exige que cada um seja melhor, as idéias ou potencial de
    ação são guardados como tesouros e dificilmente serão compartilhadas.
    Apesar de ser um quadro generalisado existem iniciativas que quebram este
    quadro, como o Linux, que na minha opinião é o exemplo mor.
    Meus parabéns pela sua iniciativa, e assim que der eu vou participar da
    coolmeia, como você disse falta pessoas engajadas, intão vou esperar o tempo
    para que possa me dedicar realmente.
  • Rafael Reinehr  - Bruno e as pequenas diferenças do dia-a-dia
    avatar
    Bruno, a competição é, de fato, a realidade com a qual nos confrontamos no
    dia-a-dia. Entretanto, um movimento não instituído que se opõe a essa forma de
    vida vem crescendo de forma acelerada.

    Recomendo fortemente a leitura deste texto
    (http://www.coolmeia.org/textos/uma-teoria-da-coop
    eracao-baseada-em-maturana.doc) para entender como uma natureza cooperativa se
    transformou no que vemos hoje.

    No editorial desta seguda-feira, vou tentar demonstrar, Bruno, como você e
    qualquer pessoa não precisam esperar o mundo mudar e "mais pessoas se
    engajarem" para começar a fazer a diferença desde já.

    Ou seja, acho que você pode começar a te dedicar, pelo menos da forma que vou
    lhe propor, desde já.

    Abraço fraterno e obrigado pelo comentário.
  • Augusto Maurer
    Rafael,

    dentre tuas atribuições editoriais, acho ótima esta ronda de comentários que
    manténs, entre um editorial e outro, como meio de aquecer debates tão essenciais
    ao espítiro do OPS!

    Não vim aqui, no entanto, apenas para dizer isto, mas muito mais para sublinhar
    o fato de que A Era da Tarefas Compartilhadas, publicado há duas semanas atrás,
    era até há pouco o terceiro texto mais lido desta semana. Se me perguntassem por
    que dou tanta importância a uma nuance tão sutil, talvez escrevesse um ensaio.
    Como, felizmente, ninguém perguntou nada, digo apenas que a qualidade de um
    texto é diretamente proporcional à duração do interesse pelo mesmo. Quiçá se a
    maioria de quem escreve se preocupasse mais com isso não teríamos menos e
    melhores escritos.
  • Bruno Renostro
    O editorial sai segunda?Intão aguardo ansioso.Hoje a noite vou ler o
    "livro" que voce me indicou.

    Sobre não esperar o mundo mudar eu concordo plenamente, isso não pode ser usado
    como desculpa por ninguém.O que seria do mundo hoje se poucos loucos não se
    atrevessem a mudar o sistema?Tenho certeza que ainda estariamos vivendo numa
    ditadura ou algo muito pior.

    Abraços.
  • Dora Freitas  - partilhar a sobrevivencia
    Caro Rafael. Esta janela aberta por ti a partir da postagem acima vem ao
    encontro de uma refexão muito antigo a respeito da sobrevivencia na atualidade.
    Não muito tempo atrás, considerando as eras já registradas pela ciencia, o homem
    precisava usar toda sua capacidade física e, o partilhamento do pouco que
    conseguia amealhar para manter-se vivo. A evolução produziu uma série de
    facilidades e consequentemente o homem foi se tornando dependente destas.
    Paralelamente, o capitalismo precisa de homens individualistas, consumidores,
    competitivos. Deste "caldo" fervendo neste grande caldeirão que é o
    mundo, o resultado são sobreviventes que se agarram com unhas e dentes a tudo
    que amealharam e esquecem que o esgotamento físico do planeta será também de
    cada um de nós. Portanto, a sobrevivencia hoje passa sem qualquer dúvida, pelo
    compartilhamento de tudo o que concerne à sobrevivencia do ser humano na Terra.
    É preciso inaugurar esta "Era das Tarefas Compartilhadas". Assim como
    ocorreu em épocas passadas, só sobreviveremos se nos compreendermos como uma
    "rede", onde os seres que compõe esta precisam buscar constantemente o
    equilibrio. E este só alcançaremos se enterdermos que não é mais necessário o
    esforço físico e sim, o esforço intelectual e espiritual que se baseia em atos
    generosos que não se mantém sem disciplina.
    "A disciplina sem generosidade é uma ilusão farisaica, e a generosidade sem
    disciplina, uma ilusão filistina". Antoni Domènech
    Até mais.
  • Rafael Reinehr  - Energia quetchubári
    avatar
    Dora, tens tanta energia vital, boas intenções e ideias... Queria tanto que me
    ajudasse mais intensamente com alguns projetos e iniciativas que estão
    justamente tratando de trazer esta compreensão de rede, de sistema. Tentando
    construir uma economia que acompanhe a biologia em sua diversidade, e se integre
    com a complexidade ao invés de extingui-la.

    Podes me passar teu MSN ou Skype para conversarmos mais?
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