Este corpo nada mais é do que uma veste. E pressinto que você leitor desta resenha ou espectador do novo fenômeno de público em cinema no Brasil, Nosso Lar, deva concordar com isto, mesmo não seguindo a doutrina espírita.

Tive uma preocupação ao assistir um filme tão esperado e tão comentado: como seria possível contar uma narrativa a princípio impregnada de conceitos tão únicos e não parecer doutrinário? Como transformar uma história tão linda e comovente em uma estória que pudesse refletir conceitos universais e ao mesmo tempo entreter?

Wagner de Assis e sua equipe em minha opinião conseguiram tal façanha! Sei que aqueles que se familiarizam com o Kardescismo e conceito de reencarnação possam inferir mais significados no filme em comparação com quem não os conheça. Porém, Nosso Lar consegue um perfeito equilíbrio entre o comprometimento de uma mensagem – com a clara subjetividade na escolha do enredo – e a recusa em subestimar o espectador.

Aliás, isso é algo que parte das pessoas, entre elas críticos especializados e espectadores, ainda teimam em fazer: achar que a grande massa que assisti a um filme é completamente ingênua, boba e influenciável. Já temos em praticamente em quase todo cantinho do mundo, uma cultura de espectadores, e isso vem se delineando desde o século 19. O fato de Nosso Lar valorizar a capacidade do espectador em  inferir significado em seu enredo sem didatismo a meu ver é que faz dele um sucesso imediato, aproximando-o de qualquer outro filme estrangeiro que toca em assunto parecido (vide Os Outros, Visões, Espíritos, Amor Além da Vida, O Orfanato, entre tantos outros).

Nem preciso comentar a qualidade técnica do filme, como: fotografia, figurino, cenários, edição de som. Já sabemos como espectadores experientes que isso há tempos é constante em filmes nacionais… Certo? Há ali uma lembrança dos desenhos de Gustav Doré sobre a Divina Comédia de Dante Alighieri nos ambientes onde esteve André Luiz (como houve em Amor Além da Vida, por exemplo)  E antes de vê-lo, esta também foi uma segunda preocupação minha: por ser um filme tão bem acabado tecnicamente e de co-produção com a 20 Century Fox do Brasil, poderia ele perder a identidade brasileira? Isso não aconteceu.

Nosso Lar é bem brasileiro e percebi este traço não na língua, nem no tema, mas sim na atuação dos atores: há já de nosso uma marcação e entonação típica de encenação em filmes nacionais. Atores em maioria de formação teatral, com linguagem corporal inconfundível, pontuação de fala e profundidade de olhares que é realmente comovente.

E fica para todos que o assistem nem tanto a certeza numa outra vida, ou em várias outras, mas simplesmente conceitos universais admirados por todas as pessoas que querem uma vida melhor, tais como: o trabalho que edifica, a boa convivência, a luta contra a hipocrisia, o cuidar de si mesmo, o respeito aos laços que se criam com seus relacionamentos, o amor e a compaixão e a preocupação com a comuna em que se vive. E o que fica tanto para incrédulos e crédulos que sim, este corpo é uma veste, que você deve tratar com respeito, mas o que fica são suas obras, ordinárias ou extraordinárias.

Se você conseguiu ver filmes estrangeiros que passaram conceitos que você não acredita, por que não fazê-lo com o filme nacional que acima de tudo é técnica e artisticamente excelente? E se acredita, prestigie sim o cinema nacional. Ah, e leve o pacote de lençinhos, acho que você vai precisar…