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Jornalistas têm a nobre característica de serem capazes de falar sobre tudo. Vide o corporativismo de classe para restringir o acesso de não diplomados na área. Isso é outra questão. André Forastieri é um jornalista, especificamente de cultura e mais ainda especificamente, de música, e mais afundo ainda de rock. Esse jornalista trabalhou durante muitos anos na revista Showbizz, junto com outros numa ótima safra de críticos de música. Seus textos são razoáveis, não excelentes. Além de sempre escrever com um certo deboche nas palavras, o que nem sempre é uma qualidade. Entretanto há algum tempo eu passei a vê-lo com certa desconfiança, isso por causa de um texto escrito em 1993 nessa revista. O texto em questão é uma resenha do disco “Stain” da banda Living Colour. Eu como historiador, logo tenho no passado (assim como no presente) uma fonte rica de análise para compreender o mundo. Sou ávido colecionador de revistas antigas, livros, artigos de jornais velhos, entre outros papéis sem importância para a maioria. Já têm um tempo que relendo a edição 93 da revista acima citada, número 4, de abril de 1993, me deparei com esse texto que considerei de um gosto mais do que duvidoso (para não dizer outra coisa). Já citei essa ideia em outros textos, de que as pessoas de uma maneira geral não sabem lidar com negatividades relacionadas às coisas de que gostam. Não recebem bem o fato de um disco de uma banda de predileção não ser bom na opinião de um crítico. Mas também têm o outro lado. O crítico não é aquela figura imune a tudo e a todos, que pode dizer o que quiser da forma que quiser. Há certos limites que permeiam essa atividade [ou não]. Forastieri só para citar, é dito branco[1], olhos azuis e cabelos grisalhos – e na foto que estampa seu site, ostenta um olhar confiante numa pose bastante portentosa [não que aja algum problema nisso]. Não sei o que ele pensa sobre o assunto, mas no texto em questão (a resenha do disco do Living Colour), deu-me uma pista elucidativa. O jornalista inicia o texto assim: “Enciclopédia musical pessoal, capítulo 176: preto não sabe fazer rock”. Muito embora eu saiba que esse é o pensamento corrente, Forastieri assume para ele ao fazer a referência “pessoal”. Ou seja, essa é a forma que ele pessoalmente pensa. No decorrer do texto ele vai cometendo uma série de erros grotescos, inaceitáveis para um jornalista que a época já contava com 5 anos de experiência. Segue: “Espera aí, ‘preto’ é ofensivo agora? Perdão, na minha infância negro é que era xingamento”. Preto é uma forma pejorativa de se referir a pessoas de pele escura. Embora existam níveis diferentes de pigmentação, mesmo o mais escuro dos negros não chega a ser preto, portanto chamar um negro de preto é ilógico. Isso sem contar a concepção binária do cristianismo[2] de opor bem e mal, branco e preto, onde o branco é o bem e o preto o mal. Tanto que expressões como “a coisa está preta” é uma alusão ao fato de a cor preta ser ruim[3]. Negro não é ofensivo (óbivo), e nem nunca foi. Ofensivo é um negro se ofender por ser chamado assim. Outro esclarecimento, negro não é raça. A raça é humana, e negro e branco (entre outros) são apenas classificações por características físicas eletivas dentro da raça humana [e um dos elementos do se caracteriza como etnia]. Portanto todos somos da mesma raça, divididos por grupos genéticos de aspecto físico, não mental – o que derruba teses de inferioridade entre brancos e negros [uma vez que todos temos somos feitos de carbono, temos DNA, metabolismo, proteínas, entre outras coisas]. Quanto a preto não sabe fazer rock, eu não sei, mas que negro sabe fazer isso sabe. Tanto sabe que ajudou a inventar o gênero, mas também sei que a predominância é branca, o que também não quer dizer nada. Tal afirmação é o mesmo que dizer que branco não sabe fazer samba, Noel Rosa e Adoniran Barbosa derrubam tal hipótese, porém o samba é um ritmo de predominância negra. André Forastieri diz que raramente gente negra faz rock e ainda rock que preste, cita as exceções de praxe, Jimi Hendrix e Chuck Berry [orra]. Ele então se esqueceu de Bad Brains, Little Richard e Fishbone [só pra citar alguns].

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 O jornalista cita no texto uma experiência pessoal, diz que quando foi ao exército, o cabo era um mulato que chamava a todos os negros presentes de crioulo e urubu. Mulato é a pior das ofensas. Mulato é o filho da mula, e a mula em questão é a mãe negra violentada pelo branco (a época portugueses senhores de escravos). Urubu cai no mesmo que preto, ofensivo, já criolo ou crioulo, vêm da língua mestiça falada pelos negros africanos aportuguesados, normal [em outras partes da América, a designação crioulo tem outro significado]. Em uma coisa eu concordo com o jornalista, é quanto ao termo afro-americano e afro-brasileiro. Tanto Brasil quanto os Estados Unidos são frutos do mesmo processo de colonização no sentido populacional, não econômico. Ambos os territórios eram povoados por nativos (chamados índios), que misturados com europeus (no caso portugueses no Brasil e ingleses e escoceses e outros nos Estados Unidos) e com negros da África, formaram o que hoje são os respectivos países. Então é balela esse termo afro-americano, já que norte-americano por si só já têm engendrado o elemento negro em sua concepção (não aceitam mas também são oriundos da mistura). Quanto à análise do disco feita pelo jornalista, não vou entrar nos méritos opinativos dele. Cada um têm uma visão. Não concordo com muito do que ele diz ali, mas até aí onde está escrito que temos que concordar? Porém me senti profundamente desapontado com o fato dele usar um espaço destinado para analisar o disco (é claro que apoio as análises macro), e se enveredar por áreas que não domina [não que eu domine], e ainda mais da forma infundada que fez e com contornos tão duvidosos como esses. O som do Living Colour desse disco difere um pouco dos seus discos anteriores. Os músicos estão mais consistentes, e cientes do que estão fazendo (não que não estivessem antes). As linhas de baixo estão muito poderosas nesse disco, com menos groove do que o natural, mas há no fundo um suingue, porém é contido pelo peso das guitarras. O vocal de Corey Glover continua o mesmo, firme e convicto, ideal para o tipo de som que faz o Living Colour. O som não tem nada de progressivo como levanta Forastieri, mas sim faz um fusion entre metal e alternativo, até porque não é ortodoxo como o metal tradicional. É um tipo de rock engajado, não apenas na questão negra, mas também política e social, além de divagações existenciais. O jornalista critica tal iniciativa, porém considero melhor um esforço nessa direção do que apenas se limitar a bebedeiras, sexismo e ao machismo ególatra das bandas de metal da virada dos anos oitenta para os noventa (os ditos farofas[4]). As músicas de “Stain” seguem uma linha concreta onde baixo e bateria dão a direção, as guitarras preenchem o espaço com ruídos, efeitos e muitos fraseados inspirados no jazz e no hard rock anos setenta. “Stain” é um disco alinhado como o seu tempo. O estabilishment do rock pesado é quebrado por bandas como Living Colour, Faith No More, Ministry, Helmet, Primus, Jane´s Addiction e Tool (entre outras), que resolveram trazer ao rock pesado novos elementos, tirá-lo da redoma de vidro e da mesmice que estava. A mídia logo se apressou em classificá-los como funk metal, o que não corresponde à verdade, essas bandas não têm e não precisam de um rótulo, apenas nadaram contra a corrente vigente e abriram a mente de muita gente disposta a expandir horizontes, usando samples, experimentalismos e muita qualidade instrumental.

 

PS. Considero legítima a liberdade de expressão, mas considero igualmente legítima a coerência e a consciência de entender que certas coisas devem ser faladas no momento e local apropriado.

 

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[1] Dito branco, porque eu não considero as pessoas brancas ou pretas, como cores. Uma pessoa dita branca não é branca de fato como a cor do papel, mesmo a muito branca, mesmo os albinos. A pele é mais para bege e no caso dos albinos há um certo tom rosa. Mas branco é a forma convencional.

[2] Concepção inspirada na filosofia de Platão, que adaptada ao cristianismo deu origem a Patrística.

[3] Em culturas antigas no Oriente, a cor preta era associada à fertilidade (algo positivo). Em cultos, alguns povos adeptos dessa concepção, era comum o uso de vestes dessa cor.

[4] Metal farofa ou glam metal, é um subgênero dentro do heavy metal, caracterizado por cores fortes, roupas de couro apertadas, cabelos cheios e temas banais. São também chamados de posers.