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Como criticar a Inglaterra? Sim, a Inglaterra, não a Grã-Bretanha com seus demais países membros ótimos musicalmente falando. É óbvio que a tradição inglesa de grandes bandas é um dos eixos da história do rock em todos os tempos. Porém, é notória também a “guerra fria” travada entre Inglaterra e EUA para serem os mais influentes no mundo do rock e da música pop. Usam para isso suas máquinas imensas do mundo jornalístico, nos Estados Unidos – Spin e Rolling Stone, e na Inglaterra – Q Magazine e os gigantes NME e Melody Maker. Não sou contra essas revistas (jornal) não, pelo contrário – as leio, porém o que me incomoda muito é o provincianismo destas. Especialmente das inglesas. Começando pela classificação da música de forma geral, para eles existe a música britânica (inglesa inclusa), americana e world music. O que eles desconhecem, eles chamam de world music – englobando tudo num caldeirão cultural considerando o mundo uma coisa homogênea. Graças ao domínio mundial de suas mídias, vide o alcance da BBC e da CNN, suas músicas chegam aos mais remotos rincões do mundo, sendo o contrário não acontecendo. Tirando essas questões de foco, o que me incomodou recentemente foi à enquete feita pelo NME dos melhores discos de rock dos anos 90. Dos dez primeiros da lista (até o momento), oito são britânicos e dois americanos. Não que não o sejam de fato ótimos disco, mas há embutido um “quê” de provincianismo. Eles pensam que o mundo resume-se apenas a eles, e que o resto é descartável. Será que não há discos bons fora do eixo “Inglaterra-EUA”? Porém é desnecessária essa imposição cultural, nós aqui dos trópicos tão fartos de um nacionalismo barato, também temos cérebros o suficiente para saber que Radiohead e Pulp fizeram discos maravilhosos. Não precisamos dessas afirmações vulgares por trás de nomes respeitáveis como os desses periódicos para admitir isso. Cansei de ler na Showbizz eleições do tipo onde se via uma separação entre os melhores discos nacionais e internacionais, o que também é bastante discutível. Eles tinham (e têm ainda) medo de fazer uma eleição geral (incluindo nós e eles), pois poderia acontecer de deixar nossos bons discos de fora por não terem coragem de dizer que coisas feitas aqui podem ser melhores do que feitas lá. Isso não é nacionalismo, sim compromisso com a verdade. Quantas coisas de lá são melhores do que as daqui? Muitas. Mas nem lá, e nem aqui, se admite que aqui exista coisas melhores do que lá. Nacionalismo, é dizer que tudo daqui é melhor do que o de qualquer lugar (não só de lá), o que é diferente de dizer que “aqui” “também” “se” “faz” “coisas” boas, e não apenas lá. Inclusive no rock. O rock brasileiro muito embora nunca tenha contribuído com grandes evoluções no estilo, revelou grandes bandas que gravaram grandes discos também. O que dizer dos Mutantes, citados por nove entre dez alternativos no exterior? Até o Caetano Veloso fez ótimos discos de rock, “Velô” e “Cê”. E quanto a Secos E Molhados e toda uma gama de bandas psicodélicas e experimentais dos anos 60 e 70? É claro que o tema é anos 90, mas esse foi apenas um mote para evidenciar questões mais amplas. É necessário sempre muito cuidado ao ler as revistas estrangeiras, pois se não se comprometem com seu provincianismo se comprometem com o mercado, e se esquecem da crítica séria. Aliás, crítica vende? Ainda dentro do mundo deles, vemos incoerências e inconsistências enormes, onde a que mais me deixou estarrecido é a que diz que o disco homônimo do Blur (1997) é melhor do que Automatic For The People (1992) do R.E.M. e do que Different Class (1995) do Pulp. Essa lista nem de longe representa algo de relevante para os que se prezam. Quem enxerga mais além logo nem dá nenhuma credibilidade a uma lista como essa, totalmente tendenciosa e provinciana. Portanto não se empolguem com essas listas, isso é mera armadilha de audiência e de influência.

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