A vida hoje exige pedaços cada vez maiores de cada um, de cada coisa (ato, pessoa e objeto). As declarações estão se tornando mais caras: declarações de amor, de bem querer, de desistir, de preferir amanhã o que não se pode ter agora, de permanecer ausente, de precisar de uma proximidade sufocante; declarações de Aniversário, Natal, Ano Novo. Declarações reproduzidas, programadas, incansavelmente pesquisadas na internet. Não se pensa no outro como conteúdo singular. A mesma declaração para qualquer pessoa disponível. A repetição da palavra sem sentido.

Os presentes são grandes, coloridos, roem o valor do bolso e esvaziam a honestidade dos sentimentos. Pessoas que passaram o ano construindo uma indevassável e descomunal muralha de intolerância tentam acentuar a gravidade da maldade escorada em todas as suas atitudes: Um cartão de natal, um abraço opaco. Elas não sabem como recomeçar. Preferem o valor das coisas (ato, pessoa e objeto) à delicadeza que é reconhecer equívocos e aceitar particularidades. 
 
Algumas pessoas desistem do próprio entendimento. Elas não olham para cima pelos pedaços calmos de nuvens que espalham sombras redondas. Não entendem que dentro do peito tem céu. Buscam salvação no valor, no preço, na marca, na facilidade de ter por perto alguém que não precisa ser nada parecido com o que satisfaz sua decência.
 
O natal está quebrado. O amor agora é vidro. E os homens são papel picado ao vento.
 
 
 
E a vida é cheia de atos mínimos que salvam. E poucos executam. Quando digo imensidão o que vem a sua cabeça? A grandeza das coisas não reside no tamanho delas, mas na execução do ato que as compõe, que as constitui, nos espaços que podem ser alimentados, na fome que pode ser preenchida com detalhes.

Alguns gestos sustentam-se nas sombras que projetam, são máculas destoantes presas ao comportamento de alguns homens e mulheres que buscam uma grandiosidade inalcançável. 
 
Não existirá história de amor (histórias de natal, de regresso, de união) sem rascunhos. Poucos aceitam algum risco, correm em direção ao incerto. Correr riscos? Nem pensar. Como andar por linhas tortas sem perder o equilíbrio?
 
Não é um dia de morte. Não é um dia para acreditar nas coisas que não deram certo. O ano todo foi constituído de fragmentos de pequenos desastres. O nosso. Pequenos incidentes que riscaram a dignidade e que não ajudaram na escolha que se seguiu. Ficamos amarrados e desajeitados à expectativa de que enormidades surjam à nossa frente e invadam a costa do nosso porto vazio: que não houvesse discordâncias, que o dinheiro triplicasse seu poder, que o chefe fechasse o ódio e insatisfação dentro de sua arrogância, que o amor viesse inteiro e magnífico, próximo, e repleto de uma majestade inconfundível que não aceita falhas e desvios. 
 
Esperamos um mundo novo começar. 
 
Esquecemos do mesmo mundo, nosso, que sobrevive com minudências. 
 
O amor é um fragmento de bem querer que precisa de tempo para surgir enquanto continente. Ele não se move. Nós vamos até ele.
 
 Amor ancorado em fantasia não vai a lugar algum.
 
Então construa uma árvore de natal dentro dos olhos, e enxergue a vida perdida de alguém que você aceita: Aqui está o Natal. Aí está o futuro