Como se gosta tanto de alguém – quando o sol do amor recente queimava pra valer o que era menor e fraco – e hoje, quando o outro está decidido do novo amor, simplesmente não se sente mais nada? Como é possível superar tanta dor em tão pouco tempo sem o estranhamento de ter que construir uma defesa intransponível que nos exclui de todas as outras possibilidades de nos fazer feliz em outros momentos?

A luz negra, que tornava tudo assombroso, branco e afetado, disfarçava a natureza dos homens que se entregavam ao desejo de ser outro, de ter outra coisa além de si, de possuir o controle da vida e da noite, de superar apegos fracassados que se calaram e engoliram a beleza de ter nas mãos dignidade e amor próprio.

O ex-atual do outro fazia da noite sua perseguição deprimente em minha direção, procurando meus olhos, minhas escolhas, talvez buscando entender por quê eu: ele é tão torto, de altura fingida, tão fácil, dispensável, de cabelos amargos, olhos obtusos, uma oleosidade alvoroçada que parece fulgor de mentira. E esqueceu-se de viver o respeito por si e por seu velho novo amor. Se ele soubesse que meu desejo nem morava mais ali naqueles olhos invertidos, nem naquele local.

Foi libertador observar de longe aquela procura perturbadora e o desespero insaciável dos quais eu me livrei, e que agora impregnavam os movimentos e o tamanho daquele outro homem. Cada vez menor, talvez ele tentasse justificar o início da nova velha relação, o recomeço seu de cada dia, a reconquista que não vai ser diferente, a luz oscilante em curto-circuito no final de um percurso sombrio que o outro faz questão de simular.

Também já havia andado como o outro. Passos curtos, tentando esconder a desmesura; também esperei que nossas mãos se encontrassem apaixonadas, que o frio não passasse de engano, que os cuidados chegassem repentinos, que os olhos e a boca falassem a mesma língua, que ele entendesse que minhas palavras não esmagavam sua sensibilidade calculada, que não tentasse mastigar mistérios que não existiam no meu corpo, na minha vida, na minha busca.

[Alterado pelas forças que só a compaixão recém descoberta é capaz de promover, com os cuidados de nublar quaisquer gestos idiotas ou que beirem a uma busca não resolvida, encarei o ex-atual para que ele se contaminasse com a audácia insolente que produzíamos, e que o tempo em suspensão nos tocasse, e ele buscasse uma resposta, ou tirasse suas conclusões de maneira mágica e como melhor lhe conviesse: EU NÃO PRECISO VIVER ALGO QUE TORNA DEGRADANTE O SIMPLES ATO DE BEM QUERER. Ele estava apaixonado outra vez pela incerteza que o tornava tolo.]

E meu amor não aconteceu outra vez, como algumas pessoas esperavam.

Esperei meu coração dizer Sim Sim Sim, e eu correria para a declaração ao infinito de que o amor não acaba assim, não se entrega tão facilmente, resiste bravamente, recupera-se das torrentes das ofensas e da vaidade. Mas não. Meu coração ficou rindo, gargalhando, agradecido pela liberdade que acabara de descobrir. Eu pedi Vamos, Coração, o que você sente? Quanto você ainda suporta?

A resposta veio num voo silencioso de compaixão e respeito, e eu entendi que a superação veio limpa, inteira, minha maré alta, meu pôr do sol sem medidas, minhas roseiras sem espinhos, o toque e o acalento, amar-me, o despropósito da raiva que me transformava na possibilidade de amar mais e outros e cada vez mais quem tivesse consistência em suas escolhas, que não fizesse da vida o apocalipse a cada tristeza ou desentendimento.

Estava faltando algo. Não eram os olhos luminosos de antes, que combatiam minha solidão, cheios de amor recíproco que eu esperava; aqueles que encontrei no início.

Eu nunca havia desistido de alguém como daquela vez.

Os toques não tinham mais energia, abandonavam a singularidade da sua diferença antes mesmo do suor sinalizar a ansiedade de estar em outro corpo. A alegria em escalas de cinza. Eu ensaiava minhas preferências, chamava-o de meu amor apenas com a memória, sem entender o que isso significava. Tentava recordar o começo, intensificar as necessidades, forçar o corpo, todas as células, a queimar de espontânea paixão. Como no início. Mas não se ressuscita um amor assim, estalando os dedos, tragando insegurança.

E nada aconteceu.

Meu coração sem amarras ou com insípida raiva saltou para as vontades seguintes. Superado.

[Aquela vontade insuficiente de me querer inteiramente (de aceitar minhas cobranças motivadas pelos resquícios de amor passado) foi condescendente com o término da relação em desgaste que se anunciava desde então. Nossa maneira saudável de se articular ardia a cada movimento: se eu dizia querer a proximidade para que os detalhes do amor se tornassem uma existência particular e suficiente era entendido que o que era por mim oferecido se tornaria algo monstruoso dali a alguns dias quando os abismos de ausência começassem a engolir o desejo de satisfazer sua vingança envaidecida. Tudo era grande e pesado. Como se meu amor fosse leviano.]

Recaídas são erros repetidos às vezes. E eu estava livre e inteiro. Feliz e satisfeito. Colorido, sem entre linhas, desarmado. Pela primeira escolha certa, por não ter acreditado desde o primeiro beijo com gosto de eternidade que não combinávamos tanto, que eu era o amor, e do outro lado ele era a busca. Pela aposta no outro amor futuro que sempre está para chegar.

Nada mais.

O passado é cheio de infernos.

Fiquei recheado de medo. Frio. Um vento seco dizendo que a vida é mesmo cheia de gente estranha que não sabe o que quer.

Não sei ao certo o porquê do medo (de não estar me reconhecendo por ter esquecido tão rápido algo que era pra ter sido importante?), mas é como se eu tivesse temperado uma história que tendia ao fracasso desde a primeira entrega.

Como se eu fosse desses homens dissimulados, estreitos, que correm riscos sem acreditar nos próprios abismos. Como se tudo tivesse sido pouco e, comportando na palma da mão, pudesse ser desperdiçado ou jogado fora. Como se azul fosse palidez arrependida. Como se fosse um desdenhar alternativo das coisas que não faziam sentido, das nossas diferenças, dos erros, das desculpas, dos enganos.

Em todos os cantos que eu me instalava a atenção do ex-atual do outro estavam lá. Não entendia também. Uma fiscalização da própria insegurança, e não do amor que nascia pra eles.

Não, o amor não acaba. As nossas pessoas preferidas é que mudam, somem, fingem, fogem, são esquecidas, superadas, outras aparecem. Mas o amor não acaba dentro da gente, algumas pessoas é que morrem e se afogam nos defeitos que são revelados a cada ex namorado que sangra, a cada amigo que reconhece a idiotice arrogante de quem não saber o que quer, de quem não sabe o que é, de quem aumenta os precipícios do dia a dia com suas lágrimas de arrependimento, testemunhando calado o fim de suas possibilidades, pois de dez entre dez dos conhecidos que fingem compreensão suportam por piedade suas descompensações exageradas e mesquinhas.

E não existia mais a falta de antes, porque, quando mesmo de mãos coladas há uma ausência, o amor torna-se uma limitação e quando sentimentos extraordinários são cercados com limites, então o fim é o próximo gosto.

[Não era uma guerra, o nazismo, um muro, ou o fim do amor. Era só algo bom que não deu certo, que foi respeitado, entendido, e esquecido. Não houve armas, nem bombas. Só um fim, e o recomeço de uma vida]

E descubro que o amanhã é nosso melhor amor necessário.

Meu coração, hoje, sopra uma brisa fina, branda, em fim de tarde. Manso. Apaziguado. Observa o começo de tudo que ainda é realmente importante.

E agora eu não estou só.

Estou comigo.