Do aparentemente óbvio também pode surgir algo complexo e instigador: o que é a minha realidade?

Quando olho para além de mim, estendendo os olhos para a distância que se apresenta, como eu definiria o que é real? A minha realidade também não é a realidade do outro, compartilhada? É aquilo que toco? Quando fecho os olhos, a tal realidade deixa de ser real e então o interior (real?) se apropria do que em mim é consciente e começa a existir? Aquilo que não vejo pode ser real?
Quando me ofereço a alguma reflexão sobre a realidade, lembro de algumas aulas sobre fenomenologia, nas quais meu destaque sempre foi questionável. Husserl (1960) pensou a Fenomenologia como um “caminho” para se chegar ao conhecimento das essências; a redução fenomenológica seria, portanto, o modo para se retornar “à própria consciência: E a consciência se mostra consciência de objetos constituídos no próprio ato cognoscente.” (Galeffi, 2000). Seguindo tal perspectiva, seria importante testar as experiências fenomenológicas, por assim dizer. E então veio Aaron Beck e sua Terapia Cognitiva, propondo uma teoria cujo raciocínio teórico subjacente é o de que “o afeto e o comportamento de um indivíduo são amplamente determinados pelo modo como ele estrutura o mundo (cognições/pensamentos)”.  Então, a Terapia Cognitiva não deixa de ser fenomenológica, já que pretende também “descrever e analisar as categorias de experiências”.
  
Um BlaBlaBlá-Teórico-Filosófico nem tão BlaBlaBlá assim, e sempre válido, importantíssimo, que você deveria, sim, estudar, ou apenas ler, para entender melhor a sua… vida? Mas não aqui, lugar da minha realidade.
 
O que Beck pretendia, provavelmente: que em determinado momento da vida (ou da terapia) o sujeito entendesse que pensar a realidade é reconhecer que está lidando diariamente com a incerteza, com o que existe mundo afora (ou por dentro), mas que não conheço completa e absolutamente. (Leahy, 2006)
 
Pensar inferencialmente significa testar a realidade, buscar evidências que confirmem ou desconfirmem a veracidade dos meus pensamentos. Nesse ponto, reside um questionamento que nos ajuda a analisar a realidade; ao tentar apropriar-se de uma parte dela, quando buscamos probabilidades existenciais, ainda assim nos aproximamos da incompletude, da indeterminação do que nos cerca, daquilo que experimentamos cotidianamente, ou aquela vivência que vem se repetindo há anos, como se não tivéssemos escolha: Será que os piores desastres realmente acontecerão se eu não tiver certeza absoluta do que ocorrerá?
 
Leahy(2006), presidente da Associação Inter-nacional de Psicoterapia Cognitiva e da Academia de Terapia Cognitiva dos Estados Unidos, professor da Cornell University e editor associado do International Journal of Cognitive Therapy, ao abordar a TC e sua “comunicação” com a fenomenologia explora sobre o pensamento inferencial e como é apenas e nada mais que probabilístico. Assim, a realidade, na qual existo e permaneço, e, ao mesmo tempo, esta que me serve diariamente de amargas insatisfações e desconforto, é uma possibilidade. Checar diariamente as portas, o interior do carro, as entradas e saídas de casa, abrir o portão e analisar nervosamente a rua extensa com suas esquinas misteriosas e de luzes cansadas, é apenas um cuidado, precaução, mas não me dá garantias de que adiante, na outra esquina mais desconhecida ainda, aquela que não reconheço, que não integra a minha realidade, não encontrarei o que mais temo. Fugir dos homens e mulheres que me procuram assegura uma realidade atual de que estar sozinho me distancia da dor, então pensar “Ficarei sozinho pelo resto da vida” certifica, inconscientemente, um ciclo cheio de vícios corruptos quanto a oportunidades e evitações; como se o pensamento fosse em absoluto uma nova realidade alterada pelas doses do que tememos e imaginamos.
 
Claro que eu posso sofrer no meu próximo relacionamento; que, eventualmente, criarei expectativas, em algum lugar do meu percurso em busca de relacionamentos saudáveis, a respeito de alguém que acredite e se sustente em crenças sobre a vida a dois de modo parecido com meu, mas não tenho garantias alguma. Se o céu está carregado, cúmulos nimbus pintadas de um negro assustador, e a meteorologia aparentemente infalível e bem vestida do Jornal Nacinal assegurou pancadas de chuva, ainda assim a realidade continua uma probabilidade. Ou você nunca saiu de casa besuntado de protetor solar e gotas pesadas de chuva vieram lhe propiciar um banho surpresa? 
 
Quando você pensa, sábado à noite, nos momentos em que sua programação de TV é modorrenta, ou quando o MSN já não é mais cheio de frases de efeito amigáveis, que “Serei eternamente sozinho”, essa é a única realidade disponível? Pensar que vai chover significa, na realidade, que a chuva se precipitará? Ou pior: que está realmente chovendo por que existe alguém querendo foder você? Ou: Por que o universo está acontecendo apenas para sacanear você? Você pensa “Eu sou um ornitorrinco”, aí magicamente você transforma-se em um? Você dispõe de todos os fatos possíveis que comprovem que será sempre só? Então o futuro já se tornou sua outra realidade? Não há nenhum fator que poderá interferir nos resultados de outros eventos em sua vida, e a partir disso o que você poderia fazer para preparar-se para o pior dia? Capa de chuva? Amigos? Ligações? Entender como nascem os filhos dos ornitorrincos?
 
Desejar controle absoluto do amanhã não confere garantias de que tudo ocorrerá bem amanhã. O que não quer dizer que o pior sempre ocorrerá. Mas vai que a previsão do tempo está errada?
 
De Husserl e Beck a Stephen King, a realidade mantém-se firme, mas questionável. E mais ainda o que pensamos sobre ela. King, um escritor reconhecido, em mais de quarenta países, por seus livros de horror e ficção, enche suas linhas bem cuidadas de terror e momentos assustadores; independente dos tons sobrenaturais que algumas de suas obras adquiram (que poderia, sim, ser lidas como metáforas potentes). Como em “Carrie, a estranha”, seu romance de estreia. 
 
Carrieta White, uma tímida adolescente que mora em Chamberlain, no Maine, vive num ambiente familiar (materno) carregado de opressão e agressões que partem de uma mãe obcecada por religião e purificação. Não bastasse a fé da mãe na salvação e sua perseguição ao mal e ao pecado, Carrie é submetida constantemente a uma realidade ameaçadora: parte dos colegas, meninos e meninas, iniciativas grotescas, atos que submetem a moça ao ridículo. Uma das personagens, Stella Horan, ao relatar sobre seu contato com Carrie quando criança, narrando um episódio em que centenas de pedras caem do céu atingindo apenas a casa dos White, fala sobre como foi chocante (impressão minha) presenciar aquele evento (os berros de Carrie e a histeria alucinada da mãe, como possuídas por uma fé doentia): “Eu estava com vontade de chorar, mas aquilo era real demais para fazer a gente chorar, não era como num filme.” 
 
Olhar para a realidade e, às vezes, entender (ou apenas ter a sensação) de que aquilo é real, pode ser duro e sufocante. Você olha, fixo, vidrado, nem se move, e cada célula do corpo se torna consciente de que parte daquela realidade está diante de você precisando acontecer. Meu namoro chegou ao fim? E se eu aceitar esta realidade, como minha vida poderá melhorar? O protesto contra aquilo que você não tem controle ou não conhece ou não tem certeza significa o que para você? É realmente o pior que poderia acontecer?
Stella, talvez, não conseguisse mudar aquela realidade, a realidade de Carrie (como saber? É apenas um livro!), pois não era sua.
 
Carrie estava entregue à personalidade tensa da mãe, cheia de rejeição e um tumor de vingança crescendo dentro de si (que mais tarde teria, nas mãos do autor, o desfecho paranormal e sangrento que lemos ou assistimos no filmaço de Brian de Palma em 1976). Mas Carrie não vivia outra realidade que não fosse a sua, porque não houve mudança. Stella seguiu a sua vida, e perdeu de vista aquilo que era provável na vida de Carrie, o desconforto. No mundo real,porém, preenchemos os detalhes não satisfeitos, os fins desgostosos, as falhas, as tristezas, com nossos pensamentos, lembramos de realidades passadas.
 
Quando consigo enxergar diferentes perspectivas, olhar para outra direção, elaborar, mesmo que timidamente, planos de enfrentamento caso o pior (que não sei se ocorrerá), entendo que conhecer, como nos disse Leahy, é mais “uma afirmação de probabilidades do que de certezas”, e então começo a me aproximar do real. 
 
O real é também o que eu não conheço. Viver o real é aceitar que o amanhã existe apenas enquanto possibilidade; e então eu me organizo, esperançoso de algo bom, e preparado, quase certo, que meus pensamento são apenas ideias, e ideias não necessitam ser vividas como futuro, realidade, como algo eterno e imutável. (Leahy, 2007)
 
A minha realidade (a nossa) é permeada de significados.
 
Significados são construtos nossos.
 
Portanto, mutáveis.
 
E nossas mudanças precisam também do outro.
 
Eu sou a minha realidade em contato com o mundo que não conheço totalmente, cheio de outras realidades que poderei conhecer, estejam/sejam elas: Stephen King, Husserl, Beck, amigos, familiares,meu trabalho, conflitos, abandonos, etc.
 
É impossível, assim, apropriar-se de todos os aspectos da realidade, seja a concreta ou a sentida. O máximo que talvez se consiga seja a palavra; e palavra é apenas aproximação.
 
Nós, como a realidade, somos “sistemas abertos”. 
 
E vivos.