Todo orgulho será amargamente punido e a nudez inocentada pela minha paixão, que se despiu de vaidade pra te aceitar por mais um mês. (Começo inspirado em Nelson Rodrigues. Não tenho pudores de me sujar com entregas e equívocos).
 
Não lembro mais dos teus movimentos; não com a definição de antes. Ainda recordo, e apenas isso, tuas procuras carinhosas amortecidas na minha gordura acumulada em anos e anos de arrependimento e monotonia. Corro 12 km diariamente, mas minhas faltas, essa carência que me faz bicho estranho, sem asas e diminuído, têm me preenchido quase completamente. E agora, todos os teus detalhes que reluziram pra mim, queimando a vaidade das pupilas e a rigidez pra buscar alguém como eu, são fantasmas.
 
Teus dedos não procuram acarinhar minhas costas flácidas; tua boca sumiu das minhas importâncias. Não restou nem o calor do teu entendimento sobre mim, sobre minha busca; e tua necessidade de me precisar na sexta seguinte já me assusta também porque parece mentira. Está pintado de cinza o sentimento que coloriu nosso encontro inicial.
 
Devias ter aberto teu peito e derramado sobre mim tua saborosa inconstância de vinte e um anos, aquele medo de amar às seis da manhã e ter a verdade de minhas ridicularias expostas pela afirmação que o sol sempre traz, a procura ainda jovem e eterna de não se sabe bem o quê, esse núcleo amorfo que ninguém conhece, mas que só pode ser amor, amor por mim, pelo meu querer, pelas minhas complicações hidratadas, pela minha dança acelerada, meu jeito pop ultrapassado de dançar e escrever com pretensão.
 
Preferiu abrir a camisa. Desabotoou tua alegria e disse que precisava confiar em mim. Se não vens com armas, por que eu usaria escudo?
 
Pediu que eu não falasse nada a ninguém. Que teu corpo é uma escultura que abastece qualquer imaginação com desejo e ternura. Que meus olhos procuram a delicadeza e honestidade das tuas palavras. Porque eu sabia que guardavas tua sinceridade na profundidade dos olhos que só me enxergavam depois da embriaguez.
 
Prefiro teus pedidos e a suposta necessidade que tens da minha disponibilidade pra te querer mais do que hoje por mais alguns meses, do que tuas definições e certezas de que o corpo pede mais por sexo que por minhas ligações no dia seguinte.
 
Teus dentes afastados – talvez por ciúme, talvez por vaidade, semelhantes que pouco se suportam (e não quero acreditar que tua natureza seja essa de ceder à selvageria da vaidade) – lembram uma amiga que me oferece uma verdade sem ensaios, espontaneamente preparada para as descargas do meu sentimentalismo, pois coisa que aceitei cedo foi assumir a falta escabrosa, o relambório afetivo e meloso que se tornou minha vida. E por isso confiei na tua precisão, nas tuas palavras que fugiram pelos dentes separados. Se funcionava com a amiga, deveria funcionar contigo.
 
Não houve nenhum posicionamento desfeito de frivolidade vindo de ti; falo de uma postura eficiente, sem incômodos, desarrumada no orgulho e no receio de me querer outra vez.
 
Não sou teu principezinho de vinte e oito anos. Sou psicólogo comprometido com o sofrimento de outros; e tenho faltas que não saram, nuvens carregadas de dor e insegurança.
 
Confesso desanimado que já afoguei ex-amores com minha torrencialidade, e eles preferiram acreditar que não nasceram pra morrer afogados ou de amor inventado, ao invés de comprarem um guarda-chuva, ou esperarem meu sol nascer.
 
E eu lá trovejando, trovejando, trovejando.
 
Sei que um copo não é suficiente para os dilúvios que ofereço. Jogue fora isso que trazes nas mãos, que eu só comporto adequadamente em corações corajosos.
 
Sou um detalhe de um mundo cheio de super-herois e fantasmas, e que por isso mesmo precisa de um sonho escrito a duas mãos, mas que seja real e possível em sua desmesura.
 
Basta que digas a verdade, honestamente: Quero um homem, não uma tempestade.
 
Que eu vou esperar um guarda-chuva que me acolha e um amor que vista minha paixão nua, que me cubra com um querer dedicado, e enxugue minhas faltas.
 
Vou ficar aqui e esperar um amor com guarda-chuvas.