O amor, a distância e a Turma da Mônica

 
A minha infância foi cheia de distâncias. Meu pai sumiu quando minha mãe avisou que iria receber uma luz em sua vida. Meu pai, ou o homem que não amou mamãe, teve receio de cegar quando sua nova vida cheia de luz começasse. E procurou as sombras do afastamento nos esconderijos de outra família. 
 
A maioria das outras crianças – que eu chamava de meus amigos – morava longe. E eu as queria escritas e em fotos 3×4. Mas eu não sabia explicar a frágil sensação de que aquilo fazia parte da infância e que quando crescêssemos os sonhos se tornariam menores. 
 
Trocávamos carinhos escritos. Falávamos de livros. Borrávamos os papeis de carta que colecionávamos. Rosas, flores do campo, os smurphies: tudo ficava cheio de outras cores quando nossas canetas inventavam um futuro.
 
Revistinhas em quadrinhos tornaram-se um mundo particular. Enquanto minhas tias aprendiam a usar sua discórdia violada umas contra as outras, e mamãe enchia os olhos de sangue para tentar não me causar tantos transtornos, eu lia. Lia muito. Eu fechava os olhos, e outra vida era o que se apresentava para mim. Dizia Oi com balõezinhos cheio de cores. E nas sessões de correspondências eu só enxergava possibilidades. Meninos e meninas que amavam a mesma coisa que eu aprendi a amar: distâncias.
 
Os olhos estavam todos escondidos atrás daquele emaranhado de palavreado infantil e disposição inocente. Porque nada era impossível. Porque duas crianças podiam ser amigas mesmo tão longe. Conheci gente de Salvador, São Luís, São Gonçalo. Não recordo o nome de todos – porque quem mora longe, às vezes, se faz esquecido. Compartilhamos nosso bem querer revigorado pela Turma da Mônica, depois pelo Menino Maluquinho. A equipe do Maurício de Sousa mandava elaboradas cartas explicativas com autógrafos de todos os integrantes. Eu quase não acreditava que desenhos animados soubessem escrever. Mas eles sabiam. E tinham as letras perfeitas. E os amigos foram crescendo.
 
Com o tempo, os reais, os amigos próximos, aqueles que riam dos meus braços compridos, da minha alma ridícula e exagerada que só sabia se manifestar em acnes precoces, que me chateavam porque eu caminhava como se entendesse que o mundo era colorido e inventado, que gargalhavam quando eu passava preto e branco cheio de livros e magreza por ruas cheias de sarcasmo, eles, os amigos, estavam perto, mas não veriam o que aqueles que liam meu amor nas correspondências eram capazes de entender.
 
Fazíamos perguntas, muitas perguntas. Tínhamos dúvidas sobre nós. Eram reflexões parciais sobre sermos outros, sobre viajarmos. Coisas como: E a verdade dos amigos não está apenas nos olhos vivos que me enxergam de perto, está? Tínhamos 10 – 12 anos, e éramos velhos senhores que acreditavam no amor.
 
E isso durou muitos anos.
 
Não desistimos.
 
Nem nos conhecemos tão bem assim.
 
Mas sempre estivemos dispostos a aceitar as diferenças, e as distâncias.
 
Todo dia um pouco mais.