A manipulação de imagens tornou-se trivial com a popularização dos scanners, das câmeras digitais e dos programas de computador para tratamento de imagens. Trabalhos de edição fotográfica deixaram de ser incomuns e perderam o aspecto prosaico do tempo em que políticos soviéticos caídos em desgraça desapareciam de fotografias oficiais. As revistas masculinas que o digam, ao usar e abusar dos softwares para manipulação de imagens.

A manipulação de imagens tornou-se trivial com a popularização dos scanners, das câmeras digitais e dos programas de computador para tratamento de imagens. Trabalhos de edição fotográfica deixaram de ser incomuns e perderam o aspecto prosaico do tempo em que políticos soviéticos caídos em desgraça desapareciam de fotografias oficiais.

“Não podemos mais, literalmente, confiar nos nossos olhos” – já dizia Luis Fernando Verissimo em 1997, ao comentar o escandaloso comportamento da Gazeta do Paraná, que “apagou” de uma foto o governador paranaense Jaime Lerner, desafeto do proprietário do jornal. Porém, não se trata de mero caso isolado ocorrido nas páginas de um pasquim; mesmo a National Geographic abusou das novas tecnologias digitais, ao mudar de lugar uma pirâmide do Egito para facilitar o enquadramento de uma fotografia na capa da revista.

As novas técnicas permitem acidentes antes inimagináveis. Em 2005, um descuido de um operador de Photoshop eliminou o umbigo de uma modelo, em imagem que foi publicada pela Playboy. Um ano antes, jornais noticiaram o vazamento de fotos originais, desprovidas de qualquer tratamento embelezador, do ensaio de nu da atriz Juliana Paes para a mesma revista. Para gáudio de nossas namoradas e esposas, as coxas e nádegas da badalada atriz mostravam-se infestadas por celulites, estrias e pelancas.

Sem desmerecer os dotes físicos da Juliana, caso mais relevante ocorreu com um instantâneo realizado por um fotógrafo amador espanhol, logo após o ataque terrorista de 11 de março. Em meio aos destroços de vagões ferroviários, um pedaço de corpo foi alvo de manipulação visual por parte de algumas publicações. O Diário de São Paulo e o Jornal do Brasil suprimiram esse sangrento detalhe da foto, enquanto a Carta Capital, O Globo e O Estado de São Paulo publicaram a mesma imagem sem qualquer retoque. Ressalte-se ainda que os leitores do DSP e do JB não foram informados sobre a edição do fotograma.

A manipulação digital chega a ser artifício inocente quando é utilizada para retocar a anatomia da Juliana. Porém, a adulteração de imagens jornalísticas é um recurso injustificável. Se a foto é por demais chocante, como no caso de atentados, que não se publique a imagem. Manipular uma fotografia, nesses casos, equivale a adulterar a realidade.

Discussões éticas à parte, fecho com a opinião do Veríssimo e desconfio de tudo o que vejo – desde as grotescas imagens do terrorismo até as inebriantes curvas das pin-ups nos cartazes de cerveja.