Direitos e Delírios

Insetos na janela
Operadores de direitos, debruçados nas leis e costumes, legitimam o encarceramento do espírito. Prendem em salas de jaulas. Aulas como prescrição soberana, temível exercício da imposição da razão. Deixe-me rir. A credulidade de se achar civilizado, sábio e capaz de governar, adorna a pedagogia de luzes sobrenaturais. A operação de seu professar explicita teu veredito, expõe tua miséria, tua fraqueza. Arregaça teu medo, tua desconfiança. A potência traz insegurança para espíritos fracos, amortecidos. Precisam controle, ordem, grades curriculares. Planejamentos almejam escapar do acontecimento, afastam da experiência, abafam o viver explosivo.

 

Não quero aqui discutir o mérito de seus direitos. Mas de todas sua prepotência de saber quais são e como devem ser aplicados. Com direitos espalhados impedem a realização das potências. A vida precisa ser concedida, alguém que conceda o direito de respirar e aprender. Direitos, direitos, esmolas e correntes. Direitos endireitam. Prendem e inferiorizam. Em cada direito recebido, o carimbo da incapacidade de fazer por si. Não, não cuide da própria saúde! Não, não faça o parto em casa! Não ouse estudar sozinho! Seu louco, são direitos conquistados! Respeite as lutas e conquistas. Tome aqui sua migalha e fique quieto.

 

Quando é que vão tentar buscar descobrir as doenças profundas em que estão afundados. Sufocam-se com a própria merda. Já tomou conta de seus cérebros, de cada célula. Zumbis moribundos, atolados, não conseguem sair e então louvam o que defecam. Acreditam ser os predestinados mas não passam de prepotentes, assassinos, sabedores, impostores, impositores. Nos rebelamos com qualquer direito concedido. Direitos limitam, empobrecem, aniquilam. Sacramentam o encarceramento perpétuo de todos os domínios do espírito.

 

Todas as escolas, com toda sua bondade e boa intenção, são pavorosos cárceres onde os detentos são cômodos repetidores. Muros e grades, aprisionamento inconstitucional. Não que a constituição salve alguma coisa, mas nem a si mesmos respeitam. Livre escolha, livre encontro, liberdade de ir e vir. Nada disso nos seus antros de ensinagem. Apenas derramamento de alienação sob o manto da ciência e da cidadania.

 

Como podem acreditar nestas internações arbitrárias. Educação compulsória. “Não admitimos que se freie o livre desenvolvimento de um delírio, tão legítimo e lógico quanto qualquer outra sequência de ideias e atos humanos.” Artaud (2016). Um só delírio contido por seu sistema já é genocídio demasiado. É inaceitável qualquer fundamento para acabar com a manifestação da vida. Alunos como vítimas de uma ditadura curricular. Exigimos que sejam soltos os encarcerados das possibilidades.

 

Que se manifestem os burros, analfabetos, todos que não sabem, ignorantes, despreparados. Que se manifestem todos os incapazes, vagabundos, imprestáveis, todos os que não servem. Afirmamos a legitimidade dos inúteis e de toda inutilidade.

 

Que lembremos disso tudo amanhã de manhã, quando acordarmos em mais uma segunda feira triste e quase suicida. Em que sabemos que pilhas de livros podres serão jogados contra as cabeças inocentes.
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guisch

Sujeito em decomposição.

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