vértebra terceira: a entrega

Vida e Estilo - Ars Erotica

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 “o erótico, para mim, acontece de muitas maneiras, e a primeira é fornecendo o poder que vem de compartilhar intensamente qualquer busca com outra pessoa. a partilha do gozo, seja ele físico, emocional, psíquico ou intelectual, monta uma ponte entre quem compartilha, e essa ponte pode ser a base para a compreensão daquilo que não se compartilha, enquanto, e diminuir o medo da suas diferenças.” 

(audre lorde)
 
coloco-me em movimento na tortuosidade dos caminhos, cada passo descobre novas texturas. não digo que ando, trata-se mais de engatinhar, de arrastar-se beirando o chão, com o máximo de pele roçando a terra, o piso, o lençol ou seus pêlos. o corpo balança, curva-se, pende para os lados, quase cai... acho que o erotismo não curte muito o equilíbrio. eros é uma deusa torta, detesta corpos eretos, colunas alinhadas, músculos rígidos, bases seguras, passos retos e posições estáveis. gosta de movimentos imprevistos, daqueles que acontecem nos esbarrões do acaso, no voar de plumas, nos arrepios dos ventos, no acelerar das pulsações, no beijar de retinas e no tocar de sobrancelhas. são nesses movimentos que me faço seu. já que a entrega é colocar-se em movimento.
 
é por ser da ordem do movimento, que a entrega não é rendição, nem afirmação de uma passividade ou anuncio de uma letra de posse que permite o outro fazer contigo o que quiser. quando digo que sou seu, digo que quero me colocar junto a você nos movimentos do inesperado. é justamente o oposto de ficar parado e ser alvo das suas encenações esperadas. só há entrega porque nem eu e nem você pode me ter ou porque eu só posso tê-lo e você só pode me ter na lógica da inconstância, dos passos trôpegos, das pulsações aceleradas. eu sou seu como o mar é da areia ao cariciá-la, como a língua é da glande ao umidecê-la, como a mão é da carne ao apertá-la.  é nesse anseio veemente de ser seu que chego perto, ao ponto de tatear seus cheiros, sorver sua pele e ser puro desejo no encontro de nossos corpos. a minha vontade de ser seu e sua vontade de ser meu fazem com que, no nosso encontro, nos tornemos outras coisas, outras pessoas,  pessoas outras, transformadas pelos nossos movimentos. para que haja transformação é preciso entrega e o erotismo é a arte da transformação.
 
entregar-me a você é abrir-me às transformações que esse encontro provoca e a cada toque de pêlo, mistura de saliva e mordida de lábios, permitir-me compartilhar e experimentar o novo... e a cada encontro tornar-me seu de outras maneiras.
 
a terceira vértebra é a entrega.
 
a poesia de hoje é de alice ruiz.
 
teu corpo seja brasa
e o meu a casa
que se consome no fogo
 
um incêndio basta
pra consumar esse jogo
uma fogueira chega
pra eu brincar de novo
 
("teu corpo seja brasa", alice ruiz)


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Karla  - A entrega rompendo a posse |31-01-2011 00:08:13
Muito bonito texto, Felipe.
A idéia de entrega sempre me incomodou, me parecia fixação psicotica ou algo ligado a estetização da posse. Sua sugestão que a entrega abre espaço para partilha e transformação é sedutora. Aliás, que coluna sedutora!!!!
luciano |06-02-2011 20:51:41
Grande Felipe! Mais uma vez suas palavras alçam vôo e transformam-se em manancias de leveza e reflexão. Verdadeiro refrigério que nos alegra a alma e nos faz pensar sobre a beleza de ser gente. Um grande abraço do seu leitor, amigo e admirador: Luciano
Anna Cristina Prado |07-02-2011 16:48:16
um erotismo cambaleante que não se contenta com a rigidez. Uma entrega que é abrir-se ao encontro.

a terceira vértebra - texto- foi o primeiro pra conhecer sua coluna.

muito bom, Felipe!
ótima composição: Audre Lorede, Areda e Alice Ruiz.

bjo
denis camargo |07-02-2011 17:32:00
Gosto da ideia de sinuosidade constante e do deslocamento dos pontos eróticos, da não dominação e do não pertencimento... vale refletir!
Gigliola  - em busca do ser livre |11-09-2011 09:26:50
O entregar sem ser seu. A acolhida proveitosa, sem que implique posse. O descobrir de sensações, pulsões, gostos, reações. Uma entrega basta se puder ser devolvida quando saciada.
Intrigante o momento máximo de pertencimento, porém certo da liberdade.
Não apenas reflexivo, mas convidativo à prática.
Serei superlativa: o texto é MARAVILHOSO.
Me tuíta!
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