Vida e Estilo - Fragmentos da vida cotidiana

As grandes redes de supermercado costumam ter uma noção praticamente infalível do valor de tudo que é vendido. As promoções gritam a todo momento anunciando alguma data importante ou produtos velhos e gastos que deveriam estar incomodando outros espaços. Um sentimento oposto ao de pertença – se os produtos o tivessem – deixa o ar carregado; e os preços, os zeros, principalmente, tornam-se olhinhos nervosos de filhotes sem serventia do capitalismo, dos quais o mercado quer se livrar.
No entanto, percebi que a grande certeza do mercado se resume a liquidificadores, microondas, celulares e vibradores. Na sessão de livros, as coisas mudam de figura, e preço.
Estão todos lá: livros de autores desconhecidos e suas capas descuidadas, jogados uns sobre os outros, suplicando por alguma coisa que apenas as palavras não conseguem expressar.
Uma senhora concentrada, folheia um livro fino – “De receitas”, diz a minha crença sobre mulheres com aliança e com um gosto duvidoso para vestes num sábado à tarde -; franzindo a testa, molha os dedos compridos na ponta da língua (Eca!), e vai catando com a mão cega outros títulos (dentre eles o “iluminado” O Segredo, que até hoje é um mistério volúvel para mim), e acumulando nos braços um grande volume de dejetos, digo de livros. Olha para mim, que olho para ela, e cospe: “Adoooooro ler! E você? Já sei! Tem carinha de quem só fica malhando, hein? Precisa malhar o cérebro, gatinho!” Pisca o olho com uma mancha de sangue e alegria mentirosa, e expõe os títulos dos livros com tanto orgulho que quase pensei que ela fosse uma renomada escritora em tarde de autógrafos prestes a ouvir o anúncio de que era a vencedora do prêmio Nobel de Literatura. Eu poderia falar de rótulos, já que estou falando de hipermercados e capitalismo, mas não irei tão fundo, ou tão raso.
São livros comerciais. Já vi de todos os gêneros: autoajuda de consumo rápido para aquelas crises financeiras; livros infantis que ensinam como ser adulto; livros destinados a pais que não sabem que o filho existe como sujeito: todos com preços que variam de quatro a quinze reais. Geralmente, há uma desvalorização dos títulos. Mas são poucos os leitores que se prestam a, em pé, folhear algumas páginas, e se permitir conhecer o barato desconhecido.
E numa destas aventuras conheço Cristina Rivera Garza. Em letras negritadas estava o módico valor de R$ 4,50, me seduzindo como uma cantada barata para quem tem um vício chamado leitura. Deixei-me seduzir pelo desconhecido.
Se você é dos tipos que procura currículos, Cristina é doutora em história latino-americana pela universidade de Houston e professora em várias universidades americanas. Já recebeu seis dos mais reconhecidos prêmios literários do México. “Ninguém me verá chorar” recebeu os prêmios: Sor Juana Inés de La Cruz, Prêmio Nacional de Novela no 2000; Prêmio Nacional de Novela José Rubén Romero, 1997; Premio Internacional IMPAC-Conarte-ITESM, 1999; Premio Sor Juana Inés de la Cruz, 2001; Premio Nacional de Cuento Juan Vicente Melo, 2001.
“Ninguém me verá chorar” possui uma prosa entusiasmada, potente, cheia de minúcias de sentimentos, detalhes sobre os percursos de passado e futuro que se encontram em um homem e uma mulher que vivem como se não estivessem presentes. Tudo no livro - amor, loucura, morte, abandono – torna-se incrivelmente colorido (“azul cobalto”), uma fluência poética que nos leva a parar a leitura a quase todo instante e sem brevidade alguma suspirar e olhar para longe, para o grande teto metálico cheio de veias-encamento daquela grande rede de extramercado e pensar “Fantástico!”.
Cristina não perde o lirismo nem quando se embrenha nas pesquisas históricas. Mescla pesquisa da cultura e história mexicana com sua notável capacidade de nos tornar íntimos dos sentimentos dos personagens, ou da própria história.
Duas palavras (minhas) ficaram atrapalhando meu raciocínio naquele momento: subjetivismo concreto. Garza escrevinha com um subjetivismo poético difícil de explicar (porque eu não entendo nádegas de crítica literária. Ah! Você já percebeu?). É como se a realidade econômica, política, cultural, do contexto do México dos anos 20 estivesse mergulhada nas vivências dos personagens, e o que era para ser apenas paixão, amor, insanidade, transforma-se em outra realidade: um belo romance. Matilda e Joaquin Buitrago vivem tão dentro da realidade em que estão inseridos que se fecham também em si. Misteriosamente.
Já estava na vigésima quinta página quando entendi o que estava acontecendo: eu estava apaixonado pela literatura de Rivera Garza; como já tinha acontecido com Jeffrey Eugenides, Simon Van Booy, Nicole Krauss, Miranda July, Martin Page, Sebastien Japrisot, Inês Pedrosa, Lars Saabye Christensen, Isaac Singer, Zoë Heller, Nabokov, Ricardo Piglia, Alice Sebold, Anne Rice, Tolstói, Cristóvão Tezza, Andréa Del Fuego, e um continente de outros tantos que vivem em mim. Eu vivia ali uma paixão que me custaria apenas R$ 4,90, e me deixaria satisfeito pelo resto da vida.
A descoberta do mundo tem nome, e não se chama Clarice Lispector. Refleti não apenas sobre a vida que, às vezes, está acontecendo pura e simplesmente aonde menos esperamos – dentro de nós?-, mas também sobre a literatura que não conhecemos; aquela que não se resume apenas aos clássicos, às “leituras de formação”; autores e livros que nem são badalados assim, e que são capazes de provocar uma revolução dentro de nós. Dentro de nós. A vida nova. Cristina Rivera Garza fez isso comigo.
Era como se eu levasse para casa todo o México por menos de R$ 5,00. E sem peso algum.
Foi só confiar nas promoções.
A felicidade nem custa tão caro assim.
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