Vida e Estilo - Fragmentos da vida cotidiana

Dois anos, e eu só pude dizer eu te amo para as lembranças. Vovô cansou de muitos desconfortos e resolveu se desligar do mundo. Não comunicou a ninguém, e não pode escolher. Depois veio a impossibilidade física. Um dano qualquer no cérebro. Digo dano qualquer porque quando a falta se torna suportável, não importa o modo como a pessoa querida foi embora. É que vovô cansou de ser feliz pela metade e partiu, sem o próprio consentimento, sem o meu.
Vovô não pedia socorro. Eu entendia sua ansiedade. Seu corpo cantava descompassado um sofrimento intolerável. Era quando eu chegava e o abraçava. Ele era reciprocamente carinhoso a seu modo: beliscava, fazia cócegas, apertava minhas orelhas, ligava todos os dias para tentar entender como eu conseguia sobreviver depois de tudo, dos naufrágios e agonias, se eu ainda sentia fome, se não queria voltar, se eu ainda pensava em morrer, e me dizia “Estou aqui sempre que precisar” com o seu perfume.Vovô era um homem limpo, um céu azul incandescente, cheio de nuvens com desenhos engraçados, daqueles que fazem as crianças felizes.
Imaginem um homem de vinte e cinco anos recebendo dedos carinhosos nas costelas, e gargalhando, de um avô de oitenta e três anos? Éramos dois parecidos.
Vovô mancava. Cambaleava. Não posso garantir que fosse uma alma acostumada com aquela paralisia; gostava de ser rápido em suas soluções e estratégias de salvamento: me chamava de filho porque achava que não ter tido pai me traria prejuízos e apocalipses. Diminuía meu nome carinhosamente para engrandecer seus cuidados: Netinho, não tenha medo da verdade ou do amor.
Eu, quando criança, entendia Vô Dico como um bicho valente, mas cheio de feridas. Resmungava de homens que criticavam outros homens; sangrava calado quando sentia algumas de suas filhas sofrendo, e me ensinou (olho no olho) que não importaria o que os outros pensassem de ruim sobre o que é alheio, que eu nunca deixasse de acreditar no amor e de dar uma chance à verdade do outro. Dizia isso me fazendo rir. Se eu questionasse qualquer outro desentendimento do mundo que ele não soubesse responder, me abraçava, fazia eu me sentir mais leve, merecido, estável, especial.
Antes de morrer, compartilhou comigo seu tempo. Eu saboreava cada história com devoção. E suas horas passaram a ser minhas: um relógio de estimação que me ajudava a resgatar boas lembranças.
Aprendi com ele a ter amigos eternos, a esperar por relações duradouras, a não enganar qualquer homem ou mulher por mais que doesse. Com ele aprendi que homem ama e chora. Aprendi a ter reservas de amor, e não de vaidade, porque amanhã é sempre um novo dia e não dá para viver na frustração de ter sido abandonado; aprendi a dar notícias do que eu sou todos os dias: abraçando, em ligações oportunas, torpedos, beijos, cheiros novos, beliscos, compromissos, respeito, chuviscos, gotas de amparo, mãos de cuidado, cócegas, amizade.
Meu avô era solidez, e escrevia certo em linhas mal cuidadas. Não era rígido, mas acreditava que caráter salva um homem. Quando eu disse a ele que me achava um tantinho feio, ele reforçou o que ensinou a minha mãe: um homem precisa primeiro ter caráter, ser verdadeiro e fazer escolhas; depois você abre os olhos e diz o que acha dele.
Quando meu pai voltou depois de vinte e seis anos morando na lua (na minha imaginação aborrecida um homem que demorava tanto tempo para voltar só poderia ter ido MUITO longe), vovô foi o primeiro a me ensinar o caminho da compreensão: se você não consegue amá-lo, pelo menos o perdoe. E ficamos os três conversando sobre o passado e atualizando esclarecimentos.
Quando chorei no meu primeiro abandono sem recuperação, ele disse: se não te escolheu, não era realmente o Alguém que você esperava.
Vovô compartilhava com vovó meus desesperos; seguravam na minha mão para eu não ter a sensação sempre nítida de estar sozinho. Tinha constantemente um presente (simples), um cheiro (bom), um desejo (realizado), uma lembrança (engraçada), um futuro (promissor) que ele produzia, e se preocupava comigo para que eu não morasse na minha solidão.
(Eu, hoje, tento me fazer presente na vida dos outros, como vovô me ensinou. Mas aprendi que sozinho é provável que a vontade enfraqueça.)
No hospital, ele me procurava com os olhos. Não falava. Erguia a cabeça, movia os lábios, suspirava, e depois chorava inconsolável. Faltou oxigênio, mas não amor. Sua esperança sustentava-se no meu carinho. Nunca imaginei ser capaz de salvar alguém apenas estando ali ao lado, acolhendo angústias, cedendo meu apoio desajeitado, permitindo que seus sonhos desmoronassem um a um aos meus pés para depois eu apanhá-los e guardá-los nas minhas lembranças.
Comecei a entender como se salva um homem: estando presente, sendo honesto, fazendo-o não pensar em desistir, compartilhando, estendendo a mão, cedendo, segurando seus sonhos, fazendo-o rir, deixando-o tornar-se eterno.
Eu abraçava vovô. Uma parte dele já nem se movia; e percebi que não se tratava de indisposição, era impossibilidade dramática, quase o fim. Restava-lhe fazer carinho através da sua procura, com os olhos. Sua voz havia partido. E o silêncio do amor foi o que alimentou minhas esperanças por mais alguns dias.
No último episódio antes do fim, antes das dores no hospital, suas últimas frases se referiam a compartilhar nosso sono. Convidou-me para dormir no quarto com ele e vovó; dizia que o vento que entrava lá à noite (ele sabia que sou homem que rejeita qualquer calor, menos o humano) vinha de um sonho bom, inacreditável, e que da janela, acima da cama, sempre aparecia uma estrela que parecia inventada. Tudo isso só porque eu havia lhe dito que precisava de alguém.
Quando resolvi levar as trouxas e minhas dezenas de lençóis, vovô dormiu longe de mim. Sei que se pudesse ter escolhido, não teria partido. O homem da minha vida sempre me escolhia primeiro, como se eu fosse único.
Vô, tenho vinte e sete anos agora, mas tem muita coisa que ainda não entendo, comportamentos que parecem não funcionar em um homem adulto como eu, dúvidas e medo do que eu não conheço, abandonos que não sei de onde vêm e quando terminam, se é que terminam, desistências.
Vô, eu faço o que com essa saudade?
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