Vida e Estilo - Fragmentos da vida cotidiana


Quatro anos sem os abraços do meu avô e a saudade adquiriu outro tom, não soa mais como um bicho resfolegando lastimoso; a saudade agora é o eco de um amor que não adormece; ressona apaziguada ao lado da ausência dele que se espalha pela casa.
Vovô tinha aquela tristeza resolvida que eu entendia muito bem. Os olhos soltos dentro de uma alegria inventada na maioria das vezes.
Quando ele morreu, uma falta sofrida lacerou todas as certezas que um dia eu tive sobre perder alguém: O amor salva qualquer futuro? Todos os avôs são feitos de eternidade? Avôs já nasceram avôs e morrerão avôs? O amor dele me ajudará a amar mais alguém?
No quarto do hospital (branco, cheiro de vida que tenta permanecer sem entregas, sabor de metal na base da língua), vi vovô chorar pela primeira vez em toda a sua vida. Sempre presenciei uma umidade distinta no fundo dos olhos, um movimento contido na tristeza; o rio de amarguras, era o que me parecia, que sempre fluíra para o interior, agora encontrara o caminho dos olhos.
Vovô não conseguia falar. Um derrame desligara o sistema do amor expressivo, dos toques gentis, os movimentos que espalhavam cócegas e sorrisos entre todos os netos. Vovô não sabia mais dizer Preciso de você mais que nunca. Apertava minha mão com a esmagadora audácia dos que não querem morrer, balbuciava uns sons infantis, sussurros de velhice abatida, e chorava. A boca fina armava um gesto que só podia ser desgosto. Os olhos piscavam para limpar o desespero do momento.
Uma bolsa de soro fisiológico instalada no braço esquerdo supria algumas necessidades, adormecendo-o. Precisei segurar por doze horas o braço valente que tentava fugir da internação. Metade do corpo do meu avô queria viver como antes (mexendo no mundo inteiro), a outra parte dele, dormente, desligada, estava entregue, derramada em descontentamento. Eu não tinha mais força; acendi meu amor esperando que os músculos se revigorassem. Chorei dentro do choro do meu avô; escondi o rosto nos lençóis com cheiro de urina e sabão barato. Eu não soube declarar-lhe coragem, ensiná-lo como conquistar o dia seguinte. Beijava a mão brava dele e pedia sossego ao corpo. É quando você começa a pensar que basta o amor para salvar a vida de alguém.
Dois dias depois vovô morreu. Entrei no quarto antes de sair de casa para beijá-lo, e na boca dele a despedida não era mais um ensaio. Uma vergonha absoluta, por precisar deixá-lo preso aos suspiros e agonia da última chance, inundou meu dia. Forjei um sorriso enganador, que ocultava minha impotência. Puxei o pino do relógio que ele havia me dado dias antes e deixei o tempo parado. Os ponteiros marcando a mesma hora, os olhos dele suplicantes e parados no tempo que nem se arrastava mais.
Pensei que conseguiria fazer algo para garantir que alguém que amo não fosse embora definitivamente e tentei fazer com que houvesse conforto suficiente para aliviar a culpa e a vergonha que poderão fixar moradia no espaço agora aberto no peito. Você só quer que o tempo retroceda, ou que tudo que é desagrado deixe de existir. Mas não é assim que a vida vive dentro da gente.
A notícia de que meu avô sofrera um derrame causou asfixia na memória, na minha. Não consegui lembrar nenhuma informação que orientasse a família para o salvamento, as palavras mansas que conferem resolução e ajustes perderam-se no vazio de todas as lembranças. Um sopro de imaginação possibilitou que minha autonomia voltasse a respirar; as imagens de um avô impotente, hemiplégico, da família em desordem, sufocaram novamente o futuro, e o passado veio dar-lhe apoio e sustentação.
Na hora das refeições, eu segurava o corpo desobediente, enquanto as filhas o alimentavam. Ele pousava a cabeça no meu ombro e ria o seu sorriso frouxo e torto. A cabeça pousada em meu ombro era sua dedicação renovada, o toque atrapalhado dos limitados. Eu ouvia seu coração nervoso, indignado talvez, o ruído do corpo que luta. Ele adaptou seus carinhos aos meus cuidados. Molhei as costas do vovô com as lágrimas do amor que não salva; lavei seu corpo com a fé que é puro sacrifício.
Todos os dias vovô lembrava-se de mim. Digo isso porque todos dos dias ele mencionava meu nome para alguém. E ligava para saber notícias quando alguma distância nascia entre nós: se eu já havia almoçado ou jantado, quanto de sol se acumulara na minha pele, que amigos ainda me queriam, quando eu regressaria, se eu ainda usava o relógio que era dele e que era meu, sobre as dores constantes de barriga, o peito dolorido, sobre minha vida secreta.
Nunca me senti em perigo com os silêncios preocupados do meu avô. A maioria das pessoas que amamos em família oferece carinhos condicionados a exigências absurdas, um prestígio aflitivo que acompanha o cargo de ente querido. Mães, pais, tios, primos que usam o amor/desamor como castigo e ameaça; mordidas de fogo cravadas no que você é e principalmente no que você será: decepcionante, decepcionado, tenso, ridicularizado, apreensivo, uma mentira claudicante usando sorrisos bem ajustados. Você é o filho/sobrinho/primo querido desde que, se, somente se. Um ponto de vazamento no reservatório de amor e reabastecimento de condicionalidades e críticas duras. Com vovô não era assim. Não existia inquietude nos lugares habitados por seu silêncio. Os abraços chegavam a qualquer momento, fosse lá o que você tivesse feito. Ele tinha o poder de perdoar cem vezes o mesmo deslize. Talvez a morte não tenha perdoado vovô por perdoar tanto.
Ele não foi como a maioria dos pais e mães que procuram defeitos nos filhos e injetam-lhes culpa, apenas para se sentirem menos aterrorizados com o próprio fracasso - E aquele desejo de que todas as expectativas sejam correspondidas e, caso não sejam, o amor adquire o aspecto de algo desperdiçável, uma farsa que dura o que nunca deveria ter durado. Ele sabia proteger a família, como aquelas muralhas ao redor de gigantescas construções medievais que impedem ataques estrangeiros. A morte causou alguns desmoronamentos. A sensação era de que algo sempre despencaria se eu seguisse em frente. Com a presença do vovô eu sabia como permanecer numa decisão; agora, todas as palavras saem vazadas, ou como se eu estivesse escarrando e cuspindo.
Sinto as palavras repetidas sobre vovô deslizarem pelo corpo em gestos de cuidado. Algo acende em mim. Sinto os olhos dessas palavras pousados sobre minha descrença. Elas oram para que eu não queira morrer também. Por muito tempo escrevi despedidas e diálogos de fim de percurso entre nós. Repeti o nome dele em várias folhas de papel limpo, liguei para o celular dele. Vovô não estava mais do lado de fora esperando eu sair. Vovô se agarrou à minha saudade com sua honra e dedicação.
Não sei fazer outra coisa a não ser escrever sobre ele. Uma eternidade se enraíza em mim ao recontar a vida de alguém ou repetir sua partida em algumas linhas. Uma tentativa de reunir fragmentos que compõem uma vida que provavelmente não se consumirá nunca, enquanto houver lembrança e saudade: Vovô gostava do calor saturado dos piores dias de verão, dos ventos finais de chuva, no inverno, algo que morava nas gotas escorrendo em terra abafada que salvava vovô. Gostava de camisas de botão, dívidas pagas e equilibradas, rachaduras nas paredes de casa que fossem consertáveis, calças de linho, comidas fumegantes e úmidas. Vovô era apaixonado por chuva. Não gostava do frio que às vezes seguia o tempo molhado. Gostava da chuva. Quando eu tinha dez anos, pensava que se aprendesse a fazer chover durante muito tempo vovô nunca morreria. Restou-me apenas algum deserto no amor dos outros.
Mas dentro das nossas repetições diárias e mesquinhas a morte chega como ultraje. E o que amamos tem fim. O amor, não.
O que vovô deve estar pensando agora?
O que pensam as pessoas depois de mortas?
A capacidade de pensar opera em outra frequência mística, ou talvez ele só exista na minha memória e não em algum outro lugar?
No momento de qualquer lembrança, quando vejo uma fotografia dele, é como se eu me trancasse no quarto escuro dos meus dezesseis anos fugindo das acusações da mamãe por eu não ser exatamente o que ela esperava. Vovô me chamava com palavras cheias de grandes abraços, e aquilo era como derramar luz sobre mim, sobre meu amanhã.
É como se eu estivesse escondido dentro do que não existe, na vida daqueles que nunca estiveram comigo.
Saudade é a falta que se repete e torna o dia seguinte aparentemente impraticável
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