Para o próximo amor que me afastará de mim

Vida e Estilo - Fragmentos da vida cotidiana

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 A paragem que enxergo de longe – animada e cintilante pela chuva que alegra também meu futuro – é meu coração esperando as mensagens tímidas de sua nova vontade.Hipnotiza-me a espera; o barulho da falta; o desassossego da insegurança; esse animal de véspera que arranha e abre chagas na minha carne íntegra. Quando encaro a entrega, sou pura derrota. O cheiro de terra úmida e aquecida é o amor discreto da natureza que presencio – o amor rotineiro, calmo e especial na medida certa que espero de ti.

 
Antes da bonança, das brisas sem exigências, houve raio em tua tempestade, que abriu clareiras nas minhas convicções, arrancando as raízes profundas de verdades que só inventei para assegurar meu bom-senso. É que o amor me torna substância liquefeita, e qualquer paixão extrema doma minhas formas com fogo e me contém em partículas, meu querer planando em tuas proximidades, mas ainda atencioso e inevitável.
 
Não sou mais capaz de recusar nada que venha de ti. Deixo que ocupes todo o nosso diálogo; teus problemas são dádivas que me salvam de mim. Permito que teus pés enormes se refugiem na planta dos meus, e tuas unhas procurem a carne minha que te faz mais humano.
 
Ouço-te ressonar e declarar pesadelos.
 
Aceito teus sons abusados e teu caminhar encantado. Teus modos de tomar banho e lavar as impurezas de modo frenético; os medos que tu sustentas intactos desde a infância. Teu piscar inconstante causa um rio de admiração em meus olhos. Estou entregue. Em cada célula de minha estrutura desejante há um momento de entrega: tua escova de dente jogada com descuido, teus metros roubando-me o sossego da cama, teu conhecimento em inglês que me corta a língua ignorante de raiz caipira, teu vício na busca inconsciente e desagradavelmente secreta por um homem que não tenha uma existência simultânea à tua.
 
Costumas me dizer teus desejos com o toque das mãos e o roçar dos lábios nos olhos que te vigiam. Tua beleza me desperta para o equívoco. Despenco diariamente em tuas linhas cuidadas; não consigo seguir convicto nos detalhes ricos de teus percursos. A cada alegria a que te submetes, sinto-me jogado em um precipício teu; quando teu corpo se enche de surpresa e esperança, seduz-me a idéia de te deixar antes que descubras que meu lugar é a teu lado. Minha vida, que se inteirou com o mundo através de ti, é feita de detalhes repetidos em tua magnificência.
 
Nunca percebes minhas lágrimas. Sou sujo e dou descargas no próprio corpo para ter as incertezas levadas para longe da tua vista. Toda a minha tristeza guardada na rigidez do corpo; sofrer enrijece minha alma, e a ela foi reservado o poder de se exteriorizar em formas variadas, com desfaçatez. Simulo felicidade para não perder espaço na tua vida, e fazer parte de tudo que em ti existe e que parece esgotar-se todos os dias. Eu sou tu quando o sol risca nosso universo.
 
Só há lucidez na tua solteirice. Hoje procuras amor tateando nosso cotidiano com cegueira recente.
 
Deixei a insegurança nublar-me a vida a teu lado; te vi navegar para longe, perdido na névoa de tudo o que fora dito. Inventei minhas fugas; escondi-me dos teus braços e dos teus olhos suplicantes. Por que tive dúvidas que fosse amor essa presença que me acordava, nascendo dos teus sussurros e do teu coração que vive a aflição da primeira conquista
 
Estou no limite das boas intenções, calculando o quanto ainda poderia ser mais eu. O que precisava ser dito? Que eu não queria viver sozinho pelo começo dos últimos dias de minha vida? Que era uma alma neurótica vestida de sombras? Que eu nunca mais encontraria alguém com tanto encanto como tu?
 
Exigi para mim provas do amor que me sufocava. Quis tatuar minhas explicações elaboradas para o meu apego a ti; talvez, pensei, um desenho que representasse a dor e a exaustão de minh’alma ao te sentir minimante distante, ou distraindo-se com o luxo que eu não consegui adquirir, ou perdido nas amenidades sem conforto a que estavas habituado.
 
Mas nunca explicitei meu amor; não pintei nosso afeto com as cores possíveis de uma vida provável. Não tatuei a busca ou o encontro; nenhum rabisco em mim que revelasse as respostas que teus olhos glaucos pudessem entender. Teu sono agitado era uma súplica. Uma floresta densa surgindo no meio da noite, e eu não tinha forças para esperar o amanhecer; e então, diluía-me com as águas noturnas choradas do teu corpo; guardei-me na escuridão dos rochedos de meus preconceitos para proteger-me da entrega necessária. Jamais seria teu o amor que aflorava enquanto eu não me possuísse inteiramente.
 
E, assim, quando acordavas, admirado de minha presença em teus sonhos, eu estava preso em ti, diminuído e feliz por nunca ter apresentado meu amor, como simples resposta a tuas declarações explícitas: tuas ondas violentas lavaram meu corpo oleoso; teus barulhos, que nunca decifrei, queriam me acordar da prisão dos preconceitos, e tuas palavras ensinavam-me a aceitar que apenas dezoito anos de terra e luz confere virtudes e boas intenções a alguns homens. Se fosse um erro amar-te em demasia, estaria reordenando uma vida que nunca mudou enquanto sustentava-se no equívoco de alguns acertos.
 
Meu erro foi não me perder, e não encontrar na minha idiotice vulnerável a certeza que eu desconhecia.
 
Não te tenho mais a meu lado. Meu medo enfraqueceu teu amor sereno recém-inventado. Perdi teu amor, sem me encontrar.
 
Hoje vivo o desabor de uma existência suspensa, sem tocar o chão do teu mundo que não me comporta mais.
 


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