Primeira crônica de um amor em silêncio

Vida e Estilo - Fragmentos da vida cotidiana

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 (Não vais conseguir chegar até o meu amanhecer.)

Nem tentou ensaiar uma explicação. Não procurou mais meu cheiro; não entendeu minhas palavras, ditas veladamente, indiretamente, inflamadas. Aprendi a mentir, amarelado, purulento, jurando saúde e constância.
 
Concordou sem dizer uma consideração madura que tudo em mim era grande para um rapaz tão pequeno, e preso aos detalhes em um mundo que só faz sentido na desordem. Guardou a confiança nas mesmas gavetas da memória em que guarda os homens que o desrespeitaram com vaidade ofendida. Não estava num faz-de-conta. Cônscio da possibilidade da minha entrega, da vulnerabilidade que está no corpo inteiro, da cabeça à raiz dos meus desejos, disse que talvez não, que não houve engano, que eu estava, na verdade, preparado para qualquer coisa de outra natureza.
 
O princípio e o final dos seus propósitos estavam turvos; suas ondas sujas me arrastavam para a outra margem do não-relacionamento onde não habitam sentimentos amigáveis ou importância. Odeio ir até o fundo de rios assim.
 
Agora, a lembrança que tenho de ti, em movimento e concentrando-se até me esquecer, está mastigando todas as recordações de outros amores que não pediram para voltar. Precisava de toda a memória, e então me tornar maior. Deixe-me com as migalhas, mas não devore todo o meu passado. Eu não sabia que seriam tão vorazes as mordidas da tua presença e do teu desapego conseqüente.
Mas não vais conseguir chegar até mim. Não ias conseguir. Mesmo que quisesse, que estivesse em teu coração essa necessidade, em estado bruto e animado, essa entrega, sem defesas, as palavras, sem receio, o sentimento preparado, sem ofensas, a vida a começar, sem tragédias.
 
Terás que ter coragem de suportar cento e muitos quilômetros angustiantes esperando minha vocação para a desistência acordar, e que sempre termina na festa seguinte, depois pular o precipício de nossas diferenças - sou escrito; tu vivendo uma experiência digitada e resumida, com contentos sem compromisso, sem cuidados, entregue aos primeiros que te querem por último, enquanto aqui, nas minhas redondezas seria eternidade - , dar centenas e tantas outras braçadas num rio caudaloso e com a fúria de mil amantes mal comidas e ainda traídas, escalar uma montanha gigantesca de inseguranças e empecilhos que se repetirão, forçar os pulmões no ar rarefeito das minhas explanações sobre o que é verdadeiro e o que é exagero no início de tudo que é improvável nessa história que tentarei inventar sozinho, e isso terás que providenciar com uma força hercúlea de ser humano que não tem para onde ir, que não sabe continuar a vida sem minha palermice envelhecida, que nunca entende que não compreender do tempo passado e do compromisso que se gasta é afogar-se na ilusão silenciosa de que hoje não é dia de se preparar para o amor. Mas só amanhã.
Amanhã não estarei de volta.
 
De volta ao lugar que não ocupas mais.
 
No meu mais novo desencontro.
 
Eu vivendo no amor.
 
E tu, a busca.
 
(Meu amor anoitece em teu silêncio.)
 
 


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