Vida e Estilo - Fragmentos da vida cotidiana

Minha avó é uma contadora de histórias. Como meu avô também foi. Gosto de entender como ela compõe sua resiliência, os passos vacilantes na dança arriscada que a vida traceja com alguns desastres íntimos. Ontem, ela me contou sobre uma lembrança, um rompimento escarlate em seus dias claros de memórias invencíveis. A memória também pode tornar-se uma maldição.
Na última semana, Vovó, com seus noventa e três anos de graça e dignidade altiva, esqueceu-se de uma de suas cinco filhas. Uma chuva larga de inundar pequenos sonhos entrou em sua casa pelas laterais, e alagou seu sossego. Num momento quieto, ela lembrava-se da filha que acabara de preparar-lhe um chá doce; no instante seguinte, estava querendo fugir de casa, desesperada, pálida, com pragas ofensivas dentro da boca educada; uma raiva monstruosa, perplexa, obedecia às necessidades de um corpo cansado que não suporta conviver com o que não aceita. Uma estranha roubara o lugar da filha, a filha estava escondida nos cantos soturnos de sua consciência cansada. E elas choravam.
Outro dia, num janeiro indeciso entre o calor solvente e uma quietude gelada dos invernos tímidos, Vovó esqueceu-se de uma das filhas. Elas vivem dividindo presenças e algumas reclamações. Complementam as angústias. O que uma entende de amor e perdão, a outra vive de ausência e dores passadas. Uma enxerga a vida interior das pessoas que se aproximam; a outra vive o sacrifício inconsolável dos que não sabem como prosseguir.
Semana passada, Vovó esqueceu-se de amar por mais tempo uma das quatro filhas. E eu tive medo de tornar-me uma mancha terna, incomum, mas incapaz de trazer-lhe à consciência outra vez minha forma esculpida em graça e afeto. Uma casa abandonada, aos pedaços.
Vovó saiu de casa com a pressa dos que carregam a velhice sem muito orgulho, aquelas almas que temem a morte e o sequestro da vida pelos mistérios do futuro despedaçado.
A memória da minha Avó era uma montanha gigante erguida com valentia sobre noventa e três anos de: danças adolescentes em festas organizadas pelo pai músico, um marido que cuidava das suas dificuldades como quem cuida de um pedaço de céu azul, imenso, as nuvens pintadas em forma de milagres, a paciência para perdoar e continuar respeitando os erros agitados das filhas e o amor grandioso que sempre cuidou dos seus irmãos mais novos: um não enxergava e não sabia caminhar, porque as pernas tinham músculos falhos desde os caminhos sombrios traçados nos ramos estranhos de seus genes; o segundo irmão mantinha uma infante paciência de desentender as coisas. Sua única preocupação era saber se no céu haveria pão dos bons, porque ele amava experimentar pão dos bons. O irmão cego era músico. Aprendeu sozinho a decifrar as notas, a compor repetições; ele começou a repetir o que ouvia, sem nunca ter visto a cor dos olhos dos que o admiravam. A música é um milagre no corpo dos que já nasceram sacrificados.
O irmão músico, que enxergava música apenas, colhia os aplausos das plateias e os trazia de volta para casa. Dividia a beleza da admiração que ele não enxergava, porque ele só enxergava música, então dividia os aplausos dos desconhecidos com o irmão que era adulto, mas não entendia as coisas como adulto, o irmão que só tem medo da morte se no céu não houver pão dos bons. Os dois irmãos não deixaram as músicas preferidas da irmã morrerem. Minha Avó conta que chorava tanto na infância. Usava sua coragem infantil para proteger a mãe dos ciúmes maritais. Cansava de se erguer resistente em conflitos adultos, e desmoronava diante do futuro. Resolveu levar a mãe a todas as festas que gostava de frequentar. O olhar complacente da mãe, as risadas temperadas de ilusão e luz dos velhos tempos, confortava-lhe. Compartilhavam a fuga que redime. Seus passos ensaiados no bolero dentro dos olhos da mãe.
Enquanto minha Avó tentava resgatar a filha desaparecida, que impedindo a passagem da mãe para fora de casa e para o interior bravo de uma chuva grosseira, buscava entender aquela nova loucura, a de ser esquecida pela própria mãe. A filha acelerou os cuidados, angustiando a própria desesperança, e ligou para os irmãos, os seus, que chegaram para socorrer a mãe, para colocar-lhe no juízo uma chama nova da lembrança familiar. Organizaram um esquema: a filha trocaria de roupa, lavaria o rosto de mansidão, o mesmo rosto já lavado de lágrimas amargas. Recompunha-se. E assim foi feito. A filha, num passe de mágica, voltou outra. E a mãe entendeu; minha Avó aceitou que A Outra, a estranha, a choradeira, a tempestade em olhos miúdos, agora cheia de medo porque a bravura dos filhos estava em casa, havia fugido. Minha avó dizia: Ela fugiu, aquela doida. Os filhos sugeriram que a filha esquecida, cuja imagem talvez permanecesse perdida nas confusões sólidas que engoliam a luxuriante clareza de todas as histórias que Vovó carregou consigo até aquela data, carregasse um terço em volta do pescoço, sua nova jóia, uma pedra rara, o detalhe que salvaria a lembrança perdida. Com o rosário em torno do pescoço, a filha ajudaria a mãe a desfiar os detalhes da memória. O esquecimento é a libertação de uma maldade vencida.
Parece que foi ontem que Vovó esqueceu-se de umas das quatro filhas. Ela dizia: Cadê a outra que não chora, não grita, que não tem a cara chovida de tanta tristeza? E criou a força de uma mulher mais jovem a procurar sentido do lado de fora da casa, deixou a filha em prantos. Ela continuou: Tinha uma mulher estranha aqui, meu filho. Acho que ela queria tomar o lugar da sua tia. Ela sabia de tudo que acontece aqui; sabia até sobre o meu dinheiro, da chave que abre as portas, e até tentava falar como a minha filha. Depois que seus tios chegaram, ela foi embora. Deve ter ficado com medo, aquela doida.
Ela não ouve muito bem; pedaços de sentido são captados com vagar, com o correr do tempo e o tropeçar das impressões. Não há mais tanta escolha em sua velhice: só tempo e fragmentos. E aquele silêncio que traz indisposição. Ela sabe que precisa entender mais o que acontece fora dela. Talvez a memória da minha Avó, entendida de suas qualidades de contadora de histórias tenha começado a se fundir com suas fantasias, e da mistura desatenta e vívida, surgem as crises, as figuras que não existem, os roteiros desconexos de sua paisagem habitual, os fantasmas dos que ainda vivem. Vovó ouve o que ainda não foi dito pelas nossas desculpas. Ela esperou o crepúsculo de sua escuta para a desordem que ensaiamos. Uma sombra presa ao olhar cansado acalenta nossa irritação, mas não nos salva de nós mesmo. Ela escuta a derrota das suas lembranças para não entender o sumiço dos que a amam.
Vovó recebe visita dos mortos. As lembranças e o passado chegam até ela como fantasmas bem vestidos, iluminados, executando sua presença em sorrisos plácidos e uma bondade invencível. São pessoas conhecidas que ainda não morreram. Vovó sente saudade do que ainda existe, mas não a mantém. O amor nunca fora um sacrifício; havia uma bravura em pertencer ao querer dos outros; sua fé e esperança em pequenos milagres tornavam-se uma presença intacta dentro daquele mesmo querer alheio. Vovó continua em nós pela bondade. Agora ela não luta mais para lembrar todos os acontecimentos; ela duplica a presença da filha e apaga desastres da imagem que não agradam sua benevolência.
Vovó parece ter medo de largar a ideia de eternidade, deixá-la cair nos mistérios dos seus anos de luta e cansaço; a morte a ofende, com a mesma força enferrujada do ódio, rancor ou medidas descabidas e desenganadas para solucionar conflitos permanentes.
Detalhes anotados dentro da minha tristeza que não salvarão Vovó:
1. A ternura inalterada da compaixão de minha Avó continua resplandecendo dentro dos meus bons momentos. O amor do seu marido a mantinha nos eixos, gravitando entre sua bondade piedosa e as lembranças apaziguadas.
2. A mudança é o futuro que você pretende enfrentar, é o que você pode conseguir para o futuro ou tudo que você perdeu?
3. A chama do amor digno, presente, a lembrança: é o que lhe escapa.
4. A falta também tem poder de incômodo; uma presença que arde; a mistura impregnada do que existiu e não quer mais acontecer, com o que não permanecerá, mas reclama seu direito de passado.
Quando o sufoco terminou, e ela voltou a rir do que restou, nós respiramos aliviados, entendendo que Vovó não suporta a distância e a morte. Porém, inundei minha convicção de que as rememorações dela continuariam ali: translúcidas, escondidas nas assombrações do adoecimento.
Minha Avó se esquecerá de mim.
E eu vou chorar.
Mas não tenho mais medo da morte.
Receio o esquecimento. Apavora-me o abandono involuntário dos amores que salvam o futuro, mas não redimem passado algum.
Afinal, que espetáculo se esconde por trás das cortinas do teu medo da distância?
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