Vida e Estilo - Fragmentos da vida cotidiana

Vou contar um segredo meu como se fosse seu.
(E segredos revelados são as únicas certezas que possuímos quando estamos sozinhos?)
Lembro de começar a guardar segredos ainda cedo. E aquilo – gostar de meninos – me afastava do amor da mãe, da minha, do respeito dos outros, os de fora.
Ela foi mãe solteira em tempos de um regime perverso de preconceitos covardes, e eu, a obra fortuita de um fracasso desmedido. Mamãe viveu alguns meses trancafiada num quarto protegido pelo amor do seu pai. Confiou no homem a quem ela havia entregado o amor, e, cega, esperou um cuidado gêmeo da sua oferta de permanência.
Mamãe só via o sol quando seu pai a acolhia com palavras confortáveis. Suas irmãs mantiveram uma intriga maliciosa durante anos; um dia qualquer naqueles tempos, mamãe resolveu encarar o lado de fora do quarto, o espaço livre oferecido pelo pai. Assustou-se com o tamanho da sua liberdade e com o amor do meu avô. Resolveu explorar a beleza do quarto das irmãs; apenas uma, a Graça da irmã mais nova, a visitava e deixava visitar-se. Quando mamãe entrou no quarto, sentou-se na cama e experimentou o conforto que as irmãs não lhe permitiam sentir diariamente, as irmãs, ao vê-la saborear a tentativa de ser como qualquer outra mulher, pediram, ofensivas, que mamãe se retirasse.
Em seguida, supondo que o espaço da cama ocupado por mamãe estivesse sujo e maculado por sua doença de mãe-solteira-que-amou-demais, elas arrancaram a colcha da cama e colocaram-na no tanque com água quente, sabão e detergente. Mamãe voltou para se esconder, reclusa, em seu medo de tentar ser como as outras. Chorou copiosamente. Eu estava por perto, sempre por baixo. Deixei meu carinho rastejar até a superfície da sua dor. Aparei duas lágrimas que caíram no chão, e as experimentei. Depois ri de mim. Gosto de mamãe-infeliz é de um desentendimento paralisante quando se é uma criança de apenas dois anos.
Desde esse tempo, minha mãe é uma guerra escondida na mansidão de sua aparente satisfação invencível. Destemida nas maneiras de enfrentar a vida, de se reerguer, de amar apenas as irmãs que a apoiaram (Chega a ser insuportável amar alguém para sempre?). Ela mantém a coragem iluminada que inflou a salvação em sua vida quando, há trinta anos, uma gravidez fez dela uma mulher indigna. Um filho, uma paixão limitada, um relacionamento de mão única. Mamãe esteve escondida em seus medos durante todos esses anos. Lá fora, ainda mora a decepção.
Quando cheguei até ela e tentei explicar o que estava acontecendo comigo, que eu também não entendia, porque eu começara a amar diferente, ao avesso (o menino do sorriso de sol inteiro e cheiro de chuva mansa, o menino que ama todo mundo ao mesmo tempo) e não sabia o que fazer, minha mãe resolveu chorar, jogar-se no chão da nossa sala de pisos limpos, ancorando seu desespero no oceano de lágrimas de desengano, e a profundidade de todas as palavras dela (escroto, amaldiçoado, miserável, infeliz, perdido, demônio, bicha, maldito, prefiro você morto) me levaram para longe de mim.
Ela, que deveria me explicar sobre afeição, deu uma demonstração reveladora, e até previsível, de que eu não conseguiria aprender a amar alguém com cuidados duradouros e amparadores. A âncora de sua embarcação feroz, não encontrando terra úmida sob a superfície do oceano escuro que enchia sua noite de imensidão assustadora, atingiu minha vontade de permanecer vivo. Eu estava no fundo. E eu não saberia amar ninguém. Eu nunca aprenderia a amar alguém. Como ela.Sou filho de uma paixão esgotada que culminou no erro e no abandono.
Mas ela não era negligente. Nunca foi. Notável é perceber que ela ainda sofre por não entender o que sempre fui. Não dependia de mim a mudança, tampouco das suas orações. Para ela, um pecado; em mim, a glória.
*
Penso que só quando completei quinze anos a família começou a entender que eu era um demônio legal, atencioso, cheio de limites, carinhoso, com bom senso e uma noção extravagante de inadequação para espaços dignos. Eu vivia dentro de uma farsa. Ninguém me via triste, porque ser triste era como confirmar a hipótese patética deles de que um filho errante, de uma relação abortada, estava condenado à amargura e ao defeito. Comecei a rir de tudo, principalmente de mim. Quando algumas das tias humilhavam minha mãe, eu ria. Mamãe maldizendo suas escolhas, eu ria. Mamãe pedindo que eu fosse tão macho quanto um homem deveria ser, eu ria. Quando meu pai sumiu de vez, eu gargalhei escancaradamente. (Aos vinte e nove anos, estou abraçado à solidão e ao segredo, com medo de ser sempre deixado pelos amigos e pelas paqueras romantizadas, e rindo).
Quando meu avô morreu, liguei para o celular dele; liguei quarenta e oito vezes e ninguém atendeu. Queria que ele atendesse, ou retornasse a ligação depois, e dissesse para eu não ter medo de amar o amor de alguém, para eu não ter medo de ficar sozinho. Então eu ri; ri de mim ao buscar o único amor que, se pudesse ter escolhido, não teria me deixado.
*
Até os meus redondos e discretos vinte e dois anos, ela ainda mantinha seu olhar cuidadoso, para depois perceber que eu a decepcionaria de qualquer forma, que eu não seria o filho amado que casaria com uma mulher, de quem ela gostaria tanto, e que os meus filhos não seriam a nova geração sem sacrifícios, os filhos da vingança, que esses filhos, que transformariam anos de rejeição e vergonha em glória, continuariam como filhos do preconceito.
Em um momento, estavam lá seus abraços, seus mimos. De repente, um desagrado tedioso se abatia sobre ela, e as ofensas voavam silenciosas e cortantes, uma névoa negra, como fuligem grossa, entre nós, e a clareza que revestia nosso contato desaparecia. O seu amor enfrentando um congestionamento de ignorância, injustiça, desespero e proteção. E é desesperador ser odiado por quem deveria cuidar das suas ofertas; é desagregador ser esquecido por um amor que vestiu as indecências de um preconceito indelicado. O medo da vergonha e a decepção conferiram à sua maternidade protetora uma dose profética de certezas imutáveis: eu mancharia o nome da família, mais uma vez.
*
Tive contato com homens de opiniões viris, masculinizados ao extremo. Tios e amigos de tios. Protegiam a astuta concretude de sua imagem através de narrativas compridas de suas experiências sexuais. Numa certa viagem, um deslocamento desagradável entre cidades pequenas, ouvi escabrosos relatos de dois amigos de uma prima da mamãe. Eles empenhavam-se em não manter qualquer postura decente; contaram, em duas horas, histórias incomuns sobre todas as mulheres que experimentaram. Um velho boçal de arrotos vibrantes e um jovem seboso com um chilique preso na língua.
Descreviam anatomias ridículas das mulheres, as posições mais satisfatórias e as mais degradantes, arrotavam, batiam na mesa, declaravam notas médias para mulheres que não sabiam fazer um sexo oral saliente e promissor, peidavam alto, bebiam cerveja, riam das moças feias que eles comeram, penalizados pelo desespero e ilusão que elas mantinham sobre o compromisso de serem amadas depois do sexo vagabundo, difamaram toda uma comunidade de mulheres pacificadas pelos desejos realizados, e se vangloriavam da sua idiotice pornográfica. Mamãe gracejava sua gargalhada desconfiada, e olhava em minha direção; arrastava, envergonhada, seus olhos sobre minha pose vacilante e terna de quem não concorda com tudo e não vai saber o que fazer dentro da ignorância alheia. Eu segurava um livro da Clarice Lispector e outro do Lúcio Cardoso. Eu tinha 14 anos. Eu não sabia comer uma mulher e falar mal das pessoas, eu não liberava peidos vulcânicos em público, não ria da desgraça de mulheres mal comidas. Minha mãe queria que eu fosse um homem diferente. Ela afiou seus desejos e disse, séria, a boca cheia de nojo, acho que de mim: Você deveria ser assim como eles.
Sei que ela não esperava ter um filho fora dos padrões. Eu seria a sua defesa viva e comportada que garantiria nossa salvação: ela não seria mais julgada. E manteve por anos um amor raro, até excessivo, uma proteção blindada e sufocante. Eu pedia tantas desculpas e dizia tantos obrigados por seu como eu era que me acostumei à posição cruel de manter-me inequivocadamente ofendido e bem educado.
Entendo que sou parte de todas as suas relações assombradas, e que a forma como ela me enxergava não seria alterada. O passado emprestou-lhe olhos manchados de distância e injustiça; eu era uma sombra saliente e indomável nas suas escolhas malfadadas.
E se eu não tivesse nascido? E se eu fosse exatamente como ela gostaria? Talvez tudo entre nós fosse diferente. Eu tinha 14 anos e queria nascer outra pessoa, ter o contorno exato das expectativas da minha mãe. Não sei como a verdade poderia acalentar seu futuro. A verdade ainda serve como uma maldição para algumas pessoas. As mentiras salvam. E eu prefiro estar dentro das dificuldades debilitantes, mas libertadoras, que a verdade proporciona.
*
- Homem com homem vira lobisomem, meu filho! Um demônio horroroso e sujo, meu amor. Você sabe como se mata um lobisomem?
- Não, mãe! Como?
- Odiando-o pelo resto da vida, e deixando a rejeição brotar no coração dele.
- Até ele se sentir sozinho?
- Até ele se sentir SEMPRE sozinho.
- Mãe, acho que eu me sinto sozinho às vezes.
*
Hoje, minha mãe não confia mais em mim. Vinte e nove anos e não sei ser feliz por completo ao sustentar silêncios intermináveis e omissões escondidas em atos que aparentam imaturidade, mas que, no entanto, revelam um medo de rejeição. A verdade chega até ela como uma praga, todas as verdades bem cuidadas que, penso eu, nos aproximariam, confeririam ao nosso amor uma nova estrutura de competência e amparo. Mas todas as verdades que vivemos tornaram-se intratáveis. Uma limitação incalculável ao tentar desatar todos os nós desses desentendimentos, pois, não há um argumento que a faça repensar sua crença na malícia satânica e patológica de quaisquer escolhas que eu faça.
É difícil não se perceber como um demônio quando a sua família exorciza diariamente a felicidade que se aprende a consagrar, quando a família amaldiçoa a alegria que te confere liberdade e vontade de nunca querer morrer, quando a família faz tudo isso orando em nome de um preconceito implacável.
E no bilhete de despedida, explicarei minha vida nova:
Mãe, o amor também sabe desistir do que não muda.
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re: Abençoada chuva - Amigoooooo, você por aqui? Que surpresa! Sabe que u...
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re: - Ô, Leda! Que bom que vem por aqui. :D