Vida e Estilo - Fragmentos da vida cotidiana

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Vovó procurava a chave de casa. A chave de um cadeado do portão na entrada. Não tolerou ver o portão, às três da tarde, ainda fechado, impedindo que a casa ganhasse vida. Vovó não tolera estar sozinha; apenas acostumou-se a tolerar a solidão que nasce da indissolúvel desordem familiar.
Quando ela resolveu liberar o cadeado, a chave foi depositada não se sabe onde. Vovó sentia-se impotente, maltratando a própria disposição para conseguir detalhes dos seus esconderijos. Não tinha tanta força para se maldizer, ou espezinhar sua esperança. Então pediu minha ajuda; reclamou sua apreensão. Perder a chave é sua nova ofensa. A casa já não é mais minha, ela dizia. Nos olhos, alguma substância de medo vazava. A boca quieta, tremendo de velhice, incontrolável, um choro que nunca escapa para qualquer um. Era medo de não conseguir abrir a casa para alguma estranha salvação que vem de fora.
Procuramos pelo chão. Eu agachado, praticando meu rastejar jovial sob a supervisão da preocupação senil dela. Levantei cadeiras, investiguei gavetas, desarrumei colchas de cama. Resolvi pelos depósitos de plástico, jarros que não abrigam flores há anos, bules enferrujados. E foi dentro de um pote de gesso sobre a estante da sala, o caminho de todos, que a chave se escondia. Quieta e libertadora. Vovó bateu uma palma cansada – dois astros lentos que colidem amigáveis e ali permanecem amantes – como se quisesse apenas unir as mãos em oração. Riu o riso da memória que se recupera em fração de segundos para desertar em seguida. Quase inequivocadamente feliz.
Ela não quer a casa fechada. Espera o livre fluxo do amor dos filhos para libertá-la do inconveniente de não se ver mais dona de nada.
Ao encontrar a chave, eu havia retirado a cortina suja do esquecimento que cobria os olhos de sua memória, o pedaço dela que precisa saber os lugares exatos dos objetos necessários: o shampoo ainda está no armário do banheiro, o batom preferido guardado numa bolsinha azul transparente, as fotografias do passado estão nas gavetas da cômoda, as filhas espalhadas dentro da cabeça, os netos sem nome que moram perto e longe e fora, o cheiro de bulgarim que morreu nas vias da lembrança.
Se o passado está na penumbra, mas visível e apreciável, o presente tornou-se ofuscante, oferecendo impedimentos constantes aos braços largos da sua memória que, confusa, sabe que está em suas mãos os tempos vencidos, a morte dos irmãos, as lembranças do cheiro e do sorriso da mãe, as histórias do marido, mas o amor das filhas, de uma em especial, lhe escapa dos dedos feito areia fina. A memória trabalha sempre de trás para frente, Vó?
Ao se levantar, ela diz que vai ali sentar-se com o marido. Para e ri. Cambaleia um pouco. Volta a sentar-se, e lança pesada em minha tristeza uma gargalhada desprovida de som, vazia de alguma alegria, apenas para disfarçar o embaraço: o marido morrera há quatro anos.
A alegria agora é um ensaio cansado de contentamento e adequação, numa aceitação desencorajada por não possuir mais nas mãos as rédeas que a ajudariam a domar o tempo e contornar as agruras dos desentendimentos das filhas. As mãos estão calejadas de tanto segurar o peso impossível do imutável que vive na vida dos outros.
Sua coragem de outrora tropeça distraída na própria sombra. A sustentação dos passos cambaleantes está na alma; algo brilhante que ela aprendeu a acender em si; o perdão misterioso, uma fé deslumbrada, os olhos ainda temerosos, a compaixão cordial: foi assim que a luz nasceu nela e assim as trevas que acordam o desgosto dos dias fugiram dos seus passos.
Vovó morou nos cuidados do marido por cinquenta e oito anos. Uma morada larga, espaçosa, aquecida. Os amparos regulares que Vovô ofertava construíram nela outro espaço mais delicado, reservado, que abrigava amor e cuidados extremos com os netos; um ambiente que se fechava apenas quando não havia misericórdia e paciência suficientes para superar os conflitos filiais. Ela lacrava as portas dos seus cuidados e chorava. As lágrimas de Vovó eram portas fechadas para o dia que relutava em abraçá-la. E a noite começava dentro dela. Na manhã seguinte, calma, e com a tristeza controlada, ainda presente, Vovó destrancava-se inteira para o nosso mundo e delicadamente tentava compreender a recuperação do seu amor por nós.
Na casa havia o brilho reticente das panelas areadas, ajudando-a a mapear a felicidade em sua consciência, e também o cheiro dos temperos fortes escolhidos pelo marido, a risada infinita da sua empregada preferida, a atenção apurada com as letras que eu aprendia na mesa da cozinha, os almoços em família e as conversas enlevadas. Ela não tem mais a posse das panelas, o brilho da limpeza, as repetições das palavras dos netos, a empregada preferida. A preocupação do marido com sua saúde avisava-a que aquilo que ela sentia era vontade de viver; então ela entendia a sua saúde intacta, e, hoje, as doenças chegam como um aviso da saudade.
Toda a sua dor nunca soube como fugir do seu futuro. Ela perdeu as chaves de lá, do que ela guarda que ainda dói; e foi invadida por algo maior: a morte do marido, a filha inflexível, as outras filhas rancorosas, os netos ausentes, o tempo que mata. Ela vive numa família educada no resmungo. Aquele som surdo e gotejante dos inconformados. Vovó não resmunga; seus sons repetidos, sussurrados, são orações. Ela repete para si mesma tudo que deve permanecer em sua consciência. A alegria dela está nas dobras da pele, no cansaço das rugas, na água confusa que escorre de dentro dos olhos e abraça o sorriso cansado que não é mais sorriso, apenas esboço de futuro, a repetição de uma lembrança sem juventude.
E o que se fechou em Vovó foi a memória.
Vovó não quer esquecer o amor. Pouso a cabeça em suas pernas. As mãos demoram um tanto até chegarem aos meus cabelos. O toque é um vento distante, um viajante cansando chegando numa terra inabitável. Ela ri e pede para que eu não durma ali. Lembra da minha infância, da sua infância, da semana anterior, mas não fala mais de amor. Vovó não quer desgastar o amor na sua boca, nos ouvidos alheios; Vovó teme liberar o amor de si para os outros assim que evocá-lo, então experimenta o toque fino, o carinho manso, a alegria cansada, a gargalhada rarefeita, exige a presença de todos, reclama a fé: são seus atos de amor mínimo e imperceptível. Vovó não quer desperdiçar o amor.
Vó, se eu disser Eu Te Amo, o amor brotará dos recônditos cantos escuros de sua memória ou o amor está cravado na consciência do fim que se aproxima?
A memória autoriza-lhe doses exaltadas de saudade. O que ela recorda são os exatos momentos em que o amor esteve lá.
Ontem, Vovó esqueceu o amor, e as lembranças ainda repousam apaziguadas dentro dela. Num recomeço sem fim.
- Vovó, a senhora não guardou a chave na sua esperança?
- Impossível abrigar qualquer coisa dentro de um espaço que já desmoronou.
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