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A hipocrisia do extremo, ou o extremo da hipocrisia? O caso da CDHM

Toda civilização traz em si o germe (“agente causador de; causa, origem”)(1) da sua própria destruição. Não seria diferente com a “civilização brasileira”. Algumas civilizações, principalmente as antigas, duravam alguns séculos para ruir. Não é o caso da “brasileira”, que caminha a passos largos para um final nem um pouco feliz.

Até pouco tempo, ainda tentava interpretar o momento atual da sociedade com base no I Ching, quando fala do “Ponto de Mutação”:

Ao término de um período de decadência sobrevém o ponto de mutação. A luz poderosa que fora banida ressurge. Há movimento, mas este não é gerado pela força… O movimento é natural, surge espontaneamente. Por essa razão, a transformação do antigo torna-se fácil. O velho é descartado, e o novo é introduzido. Ambas as medidas se harmonizam com o tempo, não resultando daí, portanto, nenhum dano” (2)

A redemocratização do país; uma nova constituição; a assunção de que as até então chamadas, ofensivamente, “minorias” nada mais eram que cidadãos que poderiam exercer seus direitos e cumprir suas obrigações em igualdade com a “maioria”; e tantas outras transformações havidas a partir do final do século passado e início deste, levava a crer que estávamos a caminho do nosso ponto de mutação, do ponto em que haveríamos de descartar definitivamente o velho; que a luz poderosa tornar-se-ia permanente; e, principalmente, que seríamos uma sociedade a passar por tudo isso sem dano.

Ledo engano. Decepcionante engano!

Ver o deputado Marco Feliciano (PSC-SP), escolhido para presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias apenas mostra o quão longe ainda estamos do ponto de mutação. O quão fraca era a luz que ressurgia. Tão fraca que as trevas do fundamentalismo religioso retoma seu lugar. Tão fraca que a homofobia e o racismo, que pensávamos – esses sim – banidos, retomam seus lugares. Há movimento, mas gerado pela força e não natural, como prediz o I Ching. O velho retoma seu lugar.

Não há como harmonizar essas medidas. O dano começará a ser feito em pouco tempo. Como dizia meu falecido padrinho para minha falecida madrinha: “pobre humanidade, Zulminha, pobre humanidade!”.

Que o pastor-deputado tenha eleitores é natural e saudável em uma democracia. Que ainda existam pessoas racistas, homofóbicas, fundamentalistas, é parte da evolução da “civilização”. Esperava-se que ao atingir o tal ponto de mutação a questão estaria resolvida, pela natural e evolutiva transformação dessas pessoas.

Mas outra coisa bastante distante é seus pares – em total desrespeito com seus eleitores – terem escolhido a escuridão para presidir uma comissão encarregada de trazer luz para a cidadania.

Infelizmente sequer posso chamar isso de hipocrisia, pois ultrapassa qualquer limite imaginável. Mesmo porque, jamais imaginaríamos que as trevas retornassem sobre nós.

(1) Houaiss

(2) Conforme consta no livro “O Ponto de Mutação”, de Fritjof Capra

About the author

Luiz Afonso Alencastre Escosteguy

Apenas o que hoje chamam de um idoso. Parodiando Einstein, só uma coisa é infinita: a hipocrisia. E se você precisou saber meu "currículo" para gostar ou não do que eu escrevo, pense bem, você é sério candidato a ser mais um hipócrita!