Castelo Branco e a hipocrisia seletiva

Castelo Branco

A hipocrisia seletiva. Não é a primeira vez que comento sobre o fato de mudarem o nome de ruas apenas com base em ideologias.

Há não muito tempo, achei um absurdo terem trocado o nome da Av. Castelo Branco – a principal via de acesso rodoviário à Porto Alegre – para Av. da Legalidade e da Democracia. Desde sempre achei esse nome no mínimo de mau gosto, embora seja uma homenagem a um movimento de resistência à ditadura civil-militar que se instalou no país a partir de 1964.

O argumento é de que Castelo Branco foi um ditador e que, portanto, não merece homenagens.

Pois agora, apenas por uma questão de vício no processo legislativo, o Poder Judiciário gaúcho resolveu que a avenida deve retornar a se chamar Castelo Branco. Devo confessar que conheço muito pouca gente que utiliza o novo nome. A maioria esmagadora segue chamando de Castelo Branco, tipo a praça da Encol, que recebeu novo nome e ninguém sabe qual é.

Certo, troquemos, então, os nomes das avenidas Borges de Medeiros, Júlio de Castilhos e Getúlio Vargas, por exemplo. Sabidos ditadores. Troquemos, também, um bom punhado de ruas do centro histórico de Porto Alegre que homenageiam militares: Auto, Bento Martins, Canabarro, Câmara, Portinho, Andrade Neves, Montanha, Fernando Machado, Duque de Caxias, João Manoel, Floriano Peixoto, Vitorino, Genuíno, Lima e Silva e por aí vai.

E podemos trocar, também, homenagens aos feitos militares como o genocídio cometido na Guerra do Paraguai e tirar o nome da rua Voluntários da Pátria, do Almirante Barroso, da Barão do Amazonas, ou, também, da Riachuelo, da Bento Gonçalves, ou mudar o nome de praças, como a Deodoro (aproveitando para derrubar a estátua do Júlio de Castilhos)…

Enfim, mude-se o mundo para acabar com a história. Apenas e tão somente porque não condiz com o que pensam os ideologistas de plantão.

Acabar com homenagens não apaga a história e, menos ainda, o fato de que foi um período – gostemos ou não – importante para a formação da cidadania do povo brasileiro.

Imagina se a cada vez que uma corrente ideológica assume o poder resolver apagar tudo o que foi feito pela anterior?

OK, tirem Nero dos livros. Afinal, ele tacou fogo em Roma. E tirem Gengis Khan, Alexandre, Napoleão e apaguem todas as referências a Hitler.

Quem sabe queimemos a Bíblia, ou somente o Novo Testamento, pois mais de três quartos da humanidade não é cristã. Queimemos as bruxas.

Não defendo o período a ditadura, mas ele aconteceu e as homenagens foram feitas pela ideologia que estava no comando à época. Tem muita rua “A”, “B”… em Porto Alegre para os nossos valerosos edis ocuparem seus gordos salários para fazerem suas homenagens.

Mas a hipocrisia é seletiva, atua sempre e apenas quando convém…

About the author

Luiz Afonso Alencastre Escosteguy

Apenas o que hoje chamam de um idoso. Parodiando Einstein, só uma coisa é infinita: a hipocrisia. E se você precisou saber meu "currículo" para gostar ou não do que eu escrevo, pense bem, você é sério candidato a ser mais um hipócrita!

Leave a comment: