Meus 20 centavos sobre o discurso da Dilma

Critiquei a todos quantos, segundos após o pronunciamento da Presidenta Dilma, e sequer sem se dar o devido tempo para análise, saíram criticando o discurso. Gente que adora bravatas e que é do contra tão somente por achar bonito ser do contra.
 
“Hay gobierno? Soy contra!”
 
Claro que recebi críticas por isso. Defendi, diversas vezes, que a Presidenta não deveria se manifestar. E havia duas razões para pensar assim: a primeira, é que grande parte da pauta de reivindicações dos manifestantes era local; a segunda, é que as manifestações também eram localizadas em poucas grandes cidades.
 
Traduzo. Aumento das passagens de ônibus em Porto Alegre (onde tudo começou) e, depois, em São Paulo.
 
Mas também havia quem não quisesse que permanecesse assim. Ardilosamente, como sói acontecer nesses momentos, a extrema direita conservadora, que só se manifesta pela mídia reacionária, deixou claro que tomaria para si o movimento.
 
Editoriais em jornais incitaram a violência policial, sabendo bem que isso seria o estopim para a ampliação do movimento. Jabor, em uma participação memorável, joga a gota que faltava.
 
Pronto. O que era local transforma-se, como queriam, em nacional. O que era passagem de ônibus vira um sem número de cartazes vazios de conteúdo. Bem ao gosto de quem pretende ver o povo nas ruas, sabendo que povo nas ruas sempre foi a grande oportunidade para todo tipo de desclassificado esconder o rosto e praticar vandalismo.
 
O passo seguinte foi tão claro, que assusta ver gente que não percebeu a manobra. Dali pra frente, a mídia começa a elogiar o movimento como “pacífico” e a dizer que os atos de vandalismo eram praticados por uma minoria. #sóquenão
 
Ao mesmo tempo em que mostravam um discurso, a prática era outra. As imagens continuavam mostrando apenas o “patrimônio público” sendo depredado.  Qualquer criança sabe que essa é uma arma poderosa: apelar para o patrimônio público. Seja de forma direta (pelo discurso), ou indireta (pela imagem), esse tipo de apelo tem o condão de unir as pessoas em torno daquilo que de mais instável o ser humano tem: suas emoções.
 
E nada melhor, para eles, do que pessoas comandadas pela emoção. A técnica foi muito utilizada em meados do século passado. Qualquer semelhança com “somos apartidários” não terá sido mera coincidência. Qualquer semelhança com “Somos Brasil” não terá sido mera coincidência. Nacionalismo e emoção andam de mãos dadas.
 
E é justamente nesse momento que se faz presente a voz de comando para trazer a razão de volta ao cenário nacional. Se feito antes, seria prato cheio para a mídia fascista, dos “não queremos partidos”, aplicarem o golpe. Uma intervenção da Presidenta fora de hora seria propagandeada como algo inaceitável em uma democracia, diriam. Era um passo para o “impeachment” que, por sinal, estava expresso em alguns cartazes. Se feito depois, seria acusada – mais do que já estava sendo – de inanição, de não cumprir com seus deveres de proteger a nação contra vândalos e, quiçá, contra o comunismo (!).
 
A Presidenta fez o discurso necessário. E somente o necessário. Começou por tomar o cuidado (muito criticado, por sinal) de usar roupas de cores neutras. Entendeu que não era o momento para seu tradicional traje vermelho. Inteligentemente, buscou neutralizar emoções.
 
Dilma mostrou que não estava ali para defender o programa de governo do PT. Não havia porque prestar contas do que tenha ou não realizado. O momento exigia uma postura de aproximação, de dizer exatamente o que ela disse:
 
“Como presidenta, eu tenho a obrigação tanto de ouvir a voz das ruas, como dialogar com todos os segmentos, mas tudo dentro dos primados da lei e da ordem, indispensáveis para a democracia. […] Eu quero repetir que o meu governo está ouvindo as vozes democráticas que pedem mudança. Eu quero dizer a vocês que foram pacificamente às ruas: eu estou ouvindo vocês!”
 
Ouvir, dialogar e ordem. Nenhuma solução poderá ser encontrada sem a disposição para usar essas três palavras.
 
Apesar da insistência havida em dizer que o discurso foi vazio, a Presidenta abordou os temas mais importantes:
 
– 100% dos royalties do petróleo para a Educação.
– Plano Nacional de Mobilidade Urbana.
– Reforma Política.
– Médicos de fora.
– Participação popular.
– Abertura ao diálogo.
– Combate à corrupção.
 
E o que significa “abordar”? Significa mostrar disposição para enfrentar os problemas. Mesmo sabendo o quanto alguns deles são combatidos por corporações que não querem mudanças, como os royalties do petróleo para a educação, como a vinda de médicos estrangeiros para atendimento de populações que não são atendidas, como a reforma política.
 
Não são palavras vazias, são ações sendo tomadas há já algum tempo. Mas é a ela que acusam, quando, na realidade, deveriam acusar os outros poderes por muitas dessas propostas ainda não terem se concretizado.
 
O maior problema que temos, no entanto, não foi abordado: um povo que está acostumado a jogar as suas responsabilidades para o governo. Existem políticos corruptos? A culpa é do governo, nunca nossa, que elegemos os políticos. Os corruptos não estão presos? A culpa é do governo e não do Poder Judiciário.
 
“Há governo? Problema dele!”

About the author

Luiz Afonso Alencastre Escosteguy

Bacharel em Administração de Empresas, Especialista em Gestão Pública e servidor do Ministério Público do Rio Grande do Sul.