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A Gina sorriu para mim
05/02/2026

A Gina sorriu para mim

Modelo de reclame antigo: sorriso sempre aberto, aparência impecável.
Vivo caindo na armadilha do estereótipo feminino.
Fico querendo ser como aquelas modelos de reclame antigo: sorriso sempre aberto, aparência impecável.
Além disso, anseio que as questões domésticas, profissionais e pessoais sejam resolvidas com naturalidade e sem rugas na testa.
Chega.
Tenho de me libertar disso.
Posso e devo não dar conta de tudo.

 

 

 

 

Lá estava eu no supermercado, vestindo meu uniforme de super-dona-de-casa. Esforçava-me para dar conta da casa, das compras, das crianças, do jardim. A lista era imensa e o horário não favorecia: seis e meia da tarde. Não sou do tipo que adora fazer compras domésticas. Faço por obrigação. Só isso. Naquele dia, particularmente, as compras estavam atrapalhando o andamento de uma porção de coisas que eu tinha urgência em realizar. Foi então que ela apareceu. Na prateleira entre o guardanapo e o papel filme, Gina sorria. Seu sorriso desbotado pelo tempo parecia querer me pedir socorro. Um sorriso congelado no tempo, mais de cinquenta anos. O sorriso da dona-de-casa exemplar, sempre linda, arrumada, com sua casa limpíssima, os bibelôs brilhando nas estantes sem pó. Gina, uma amélia dos tempos modernos. Seu sorriso impecável a nos lembrar os verdadeiros atributos femininos: servir e sorrir. Gina, a heroína. Você aceita um palito? Parece querer dizer, entre sorrisos. Gina, a dona-de-casa que dá conta de tudo. A dona-de-casa que faz da vida de seus familiares um oceano de tranquilidade. Roupas passadas e nas gavetas. Comida na mesa sempre farta e variada. Gina, a eterna. Cabelo arrumado, unhas feitas, dentes reluzentes. Sempre pronta a dedicar-se aos seus. Gina, a mulher-mãe-gestora. A que sabe contornar pequenas e grandes questões doméstico-administrativas. A que nunca deixa faltar papel-higiênico. Nunca repete cardápio. Aquela que entra e sai do banheiro sem deixar rastro. Gina, a profissional. Além de suas qualidades exemplares no âmbito da casa, Gina, a profissional é profissional. Empresária de sucesso, conferencista de renome. Dinâmica, atuante, capaz. Gina, a ideal. Então por que será que me pede socorro? Por que será que olha para mim com esse ar de desespero?

2 Comments
    Elenara Leitao

    Nossa necessidade imposta de sermos nada menos do que perfeitas em tudo. E atentas. E cuidadoras. E exemplares. E ainda cuidando dos egos muitas vezes frageis de maridos, ficantes, ex…Também sou baby boomer e cresci entre o ser recatada (até por ali) e do lar (prioridade antes do trabalho) e a rebeldia da geração dos 60. A Gina que me habita é perfeccionista, todavia. E ainda me cobra. Mas muitas vezes, embora veja seu sorriso de desespero, dou uma banana bem dada.

      ninaveiga Post author

      Mil ufas!
      Finalmente, depois de tantas tentativas e erros, acho que consegui formatar meros dois mil caracteres…rs.
      A gina que me habita saúda a gina que habita você.
      Agradeço a leitura e a partilha do afeto.

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