Acabei de ver Persépolis, conhecida animação da autora, diretora, ilustradora e ativista iraniana Marjane Satrapi, morta de tristeza há pouco tempo aos 56 anos. Confesso, não tinha visto. Diferente de várias amigas que o citaram como emblemático para suas vidas, ele nunca tinha passado pelas minhas telas de vida. Achei uma cópia na internet e vi pelo note, qualidade deixando a desejar, mas não consegui desgrudar os olhos da história.
É muito assustador ver como as nossas vidas podem mudar em átimos de acontecimentos. E para as mulheres, as mudanças são mais drásticas. Já dizia Simone de Beauvoir que “basta uma crise política, econômica e religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados.”
E não apenas questionados, mas abolidos, esmigalhados, escondidos pelos veús da ignorância, das religiões, dos preconceitos. E não me venham alegar que isso ocorre lá do outro lado do mundo naqueles países de barbudos machistas quando bastaram minutos para uma decisão obrigasse crianças a terem filhos de seus algozes. Como se estuprador fosse pai. E uma menina tivesse a vida marcada por algo que nunca escolheu.

Acompanhar a história biográfica de Marjane desde a sua infância, mostrando as transformações que sofreu o seu país, guiado por vários interesses de poder, nos serve de alerta da ameaça que nos ronda. Particularmente tenho muito mais medo de ditaduras teocráticas do que as ideologicas. Não me entendam pela metade, detesto ditaduras. Mas ideias se pode debater e combater. Dogmas de fé são barreiras imensas que levam pessoas à cegueira.
Não pensem que algo como a realidade mostrada no filme ou a ficcionalizada em o Conto da Aia sejam tão distantes de nossa realidade. E nem é preciso uma revolução armada. Basta um congresso e um supremo. E paulatinamente direitos podem ser suprimidos. Culturas podem ser impostas. E quando menos esperarmos podemos ser condicionados a agir assim e não assado, sob pena de sermos cancelados. Virarmos párias. Cuidarmos tanto de nossas aparências para sermos o padrão exigido que não vai sobrar tempo, nem disposição, para ser diferente.
Ah! Mas e debaixo dos panos? Sempre existe os subterfúgios. Que o digam os moralistas de plantão. Os seres humanos são feitos de emoções e desejos. É conveniente manter estes amassados para alguns. E permitidos, de maneira escusa, para os mesmos. Que o digam as Jezebeis da ficcção e as festas de certos banqueiros hoje atrás das grades.
A saída?
Sempre aposto no afeto e na integridade pessoal. Na curiosidade e no pensamento crítico e libertador. O que nasce das próprias convicções pessoais e não de jargões externos, sejam lá de que ideologia forem. Porque gado, não importa de que lado esteja, “ a gente marca, tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente.”
Na animação me ficou muito forte uma imagem. Poderosa como metáfora da força feminina. A cumplicidade entre avó e neta. A troca de forças, de experiências, de histórias. E a beleza da flor e do cheiro que espalha ternura e ao mesmo tempo, marca uma posição.

“Escute… Não gosto de dar lições, mas quero dar um conselho para nunca ser esquecido: Ao longo da vida, você vai encontrar muitos idiotas. Se eles te machucarem, lembre-se que é porque eles são estúpidos. Assim, você nunca vai ter que descer ao nível deles. Pois não há nada pior na vida que a amargura e a vingança. Mantenha sua dignidade e seja fiel a você mesma.”
Sigo Andando e Pensando. Enquanto deixarem. E mesmo quando for proibido. Ou censurado. Sempre vou achar meus jasmins

