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Quem se incomoda com a mudança nunca foi invisível

Quem se incomoda com a mudança nunca foi invisível

espaços de poder

Quando me formei, o título na carteira que recebi era arquiteto. Assim no masculino. Ponto. Não havia debate, não havia rodapé explicativo, não havia escolha. Era assim porque sempre foi. E o “sempre foi” costuma ser o argumento mais confortável de quem nunca precisou se adaptar. 

Durante muito tempo a minha rebeldia era me chamar de arquiteto quando me perguntavam a profissão. Era um misto de ironia mesclada de reclamação. Mas muito individual. 

Mas quando a primeira mulher eleita presidenta no Brasil foi massacrada também pelo uso da palavra no feminino, que esse debate se tornou mais claro para mim. Porque a enorme celeuma por uma questão semântica? E em um país onde se absorve e se inventa palavras a toda hora. Quais as que incomodam? É muito claro que a linguagem nunca foi neutra. Ela organiza o mundo, hierarquiza presenças, define quem é exceção e quem é regra.

Dizer que escrever em um portal chamado O Pensador Selvagem não me incomoda, seria mentir. As escolhas definem. Poderia ser o pensamento selvagem e abarcaria pessoas em suas complexidades. 

Dizer então que marcar o feminino na linguagem e nos espaços é imposição de um movimento politicamente correto revela mais sobre quem se sente incomodado do que sobre quem reivindica. O incômodo, nesse caso, não nasce do excesso, mas da ruptura do automático. O privilégio masculino sempre foi o de não precisar pensar sobre isso. Não precisar se nomear. Não precisar explicar sua presença. Quando algo tão simples quanto um “a” no final da palavra provoca reação, o que está em jogo não é a língua. É a perda de conforto. 

Dizer que não é o espaço delimitado que vai influenciar na posição pessoal de cada um, pode até ser verdade. Pessoal. Entender os processos individuais e os coletivos com amplidão, revela o pensador que analisa, sente e evolui. E o uso do gênero aqui não foi aleatório.   

Marcar espaços é um gesto político e existencial. Não se trata de impor uma nova ordem artificial, mas de deixar claro antiga que sempre excluiu. O feminino, quando nomeado, deixa de ser invisível. E a invisibilidade sempre foi uma forma sofisticada de opressão. Não dói, não sangra, mas apaga.

Dizer arquiteta, presidenta, engenheira não resolve tudo. Não derruba o patriarcado. Não impede a violência. Mas cria fissuras. Pequenas rachaduras por onde outras narrativas podem passar. Quem nunca viveu décadas sendo nomeado corretamente não imagina o cansaço de habitar palavras que não nos representam.

A crítica ao politicamente correto faz sentido quando ele vira censura, quando impede a tensão, quando transforma a vida em manual. Mas usá-la para deslegitimar a marcação de espaços femininos (e outras invisibilidades) é confundir reação com reflexão. Uma coisa é pensar limites. Outra é defender o imobilismo travestido de bom senso.

O incômodo atual é mínimo se comparado a séculos de desconforto feminino. Séculos de adaptação forçada, de silenciamento elegante, de presença tolerada. Se uma mudança recente causa tanto barulho, é porque toca num ponto sensível. E pontos sensíveis costumam indicar onde a mudança é mais urgente.

A pergunta que fica não é se a linguagem deve mudar. Ela sempre muda. A pergunta é quem está disposto a perder o conforto para que outros finalmente tenham lugar.

Estas reflexões nasceram de debates no grupo do OPS!  e reflexões pessoais. O tema era tão importante que achei que merecia um artigo. Falei da questão feminina, mas a questão da invisibilidade e mudanças é muito mais ampla. 

 

Sigo andando. Pensando.

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