Brasília – década de 70. Anos de chumbo da ditadura. Para nós anos dourados de uma vida com regalias de quem participava das mordomias reservadas a quem participava do governo.
Meu pai costumava receber visita de religiosos mórmons.
Além dos debates teológicos, ele curtia mesmo a oportunidade de falar inglês, especialmente com o americano. Uma dupla eles eram. Um brasileiro assessorado pelo mais graúdo, que viera da terra do Tio Sam. Aqueles dois de calça de terno, camisa branca de mangas curtas e gravata, eram recebidos em nossa casa com toda a fidalguia.
Passado um tempo, o americano meio que achou que era hora de dar o bote e converter meu pai. Mal sabia que nem os padres e toda a tradição da igreja católica tinham conseguido vencer a retórica e lógica do menino que sempre questionou. E lá veio o argumento final e grandioso. Deus em pessoa aparecera para o gringo e lhe dissera que sua igreja era o caminho. Meu pai respondeu com toda a calma que achava aquilo muito lindo, que se Deus aparecesse para ele lhe dizendo isso, ele também ia acreditar. Até lá ficava na sua posição de cristão não praticante.
“Epifania significa revelação, manifestação divina ou uma compreensão súbita e profunda (insight). Vem do grego epipháneia, indicando aparição. No contexto cristão, celebra a manifestação de Jesus aos Reis Magos (6 de janeiro). Como sinônimos, destacam-se: revelação, iluminação, aparição, teofania e percepção”
Se de alguma forma eu tivesse uma revelação tão majestática que pusesse fim às minhas dúvidas. Que fosse ideológica, religiosa, amorosa, não importa. Desde que calasse as minhocas internas que teimam em duvidar, em querer saber além. Em não me resignar com respostas que tanto acalmam outras mentes. Tenho inveja delas. Tão mais tranquila a vida de quem tem fé. Em algo, em alguém.
Mas minha mente inquieta quer saber o que vem além das portas.
Por isso acho que as epifanias não me pertencem.

